Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2005

GENTE COMO TU E EU - IV, 4

4. RAÚL

O assunto começou por ser sussurrado, insinuado, uma palavra aqui, outra ali, os cochichos, as meia palavras, as frases interrompidas quando eu me cruzava nos corredores com os grupinhos dos colegas mexeriqueiros sempre sequiosos de uma pequena escandaleira que quebrasse a monotonia do quotidiano. Já o assunto tinha chegado ao funcionário da portaria quando aqui o lorpa ficou ao corrente do falatório que envolvia o Chefe de Divisão e a funcionária da Informática. Á não, a Beatriz, a minha Beatriz embrulhada com o filho do Marques! Logo esse, o marrão que me ofendia com as suas notas de estudante exemplar. Não bastou humilhar-me toda a vida aos olhos do meu pai e agora ainda me roubava a mulher!

E o Semedo, esse hipócrita que já devia saber de tudo, mas jurava a pés juntos que, tal como eu, fora o último a saber, ainda se permitia lançar-me recriminações: "Eu bem te avisei, andaste no empata e ela fartou-se, um mulherão daqueles não é para se tratar com desleixo, não se apanha caça grossa com uma pressão d'ar". Eu estava de cabeça perdida: "Por favor poupa-me, cala-te com essa conversa de pasquim, eu nunca a desleixei, aquele filho da puta é que se aproveitou, fez de propósito para me provocar, o sacana persegue-me desde criança, é uma provocação, podes crer que é, mas desta vez dou cabo dele, esborracho-lhe o focinho, estou-me nas tintas para as consequências". O Semedo começou a ficar alarmado: "Ó Freitas acalma-te, fala baixo, se calhar o homem nem sabia que vocês andavam juntos", "Não sabia o caraças! Aqui sabe-se tudo, aquela ratazana já devia saber há muito tempo e agora deu o salto, atacou na altura própria e ela, a grande cabra, não se fez rogada". O Semedo tentou gracejar: "Pudera, ele é chefe, é mais novo do que tu ... se bem que, na opinião do mulherio cá do sítio, tu és muito mais charmoso, dizem que aquele cabelo penteado para trás, cheio de gel, é um nojo comparado com as tuas têmporas grisalhas e que, além disso, não tem um pingo de bom gosto, veste-se mal e usa umas gravatas horrorosas".

Longe de me acalmar, a tagarelice atabalhoada do Semedo tinha o condão de me irritar ainda mais: "Eu quero lá saber se esse grunho usa gel nas melenas e se usa gravatas que são um lixo, por mim até pode andar vestido de palhaço, agora que ele ande a aliviar os tomates em cima da mulher que me pertence, isso é que não!". O Semedo olhava constantemente para a porta e fazia-me sinais com as mãos para que eu baixasse a voz: "A mulher que nos pertence é aquela com quem casamos, as outras vêm e vão, esquece e parte para outra, o que não falta aí é bom material à espera de uma oportunidade, não precisas de ir muito longe, aqui mesmo na sala ao lado há uma que anda caidinha por ti e tem a grande vantagem de ser casada". Ele tentava aliviar a tensão enumerando as vantagens de se ter uma amante casada: "Não fazem exigências, são mais discretas, não lhes convêm encontros ao fim-de-semana nem ao fim da tarde, contentam-se com uma pinocada à hora de almoço e há sempre o cornudo lá em casa para aguentar os esgotamentos e as enxaquecas", " Ó pá, não me lixes com essa conversa! Achas que estou com pachorra para te ouvir? Depois de saber que a Beatriz se meteu debaixo daquele monte de esterco, achas mesmo que estou com pachorra para te ouvir?" gritei exasperado. Eu devia estar com um ar meio demente porque o Semedo, contrariamente ao que é habitual, remeteu-se ao silêncio e deixou-me em paz, entregue à minha cólera. Passei um dia miserável, arquitectando projectos de vingança que tão depressa me pareciam fantásticos como logo a seguir se esboroavam por me parecerem inviáveis e demasiado perigosos para a minha posição de funcionário subalterno. A meio da tarde já estava exausto, esfrangalhado, deprimido e prestes a capitular perante a inevitabilidade da derrota que me esperava. Nunca me senti tão impotente e manietado. A falência dos meus projectos vingativos era a demonstração inequívoca da minha verdadeira natureza - flácida, indolente, amorfa. Para mim próprio repetia: és um falhado Raúl Freitas, um vencido, nasceste para perder, tudo o que tocas se torna tão estéril como os teus testículos. Da exasperação inicial que me impelia para a luta, restava apenas a raiva e o rancor. Gradualmente, a combatividade foi esmorecendo até me deixar num estado de prostração que me retirava todas as armas com que julgara poder aniquilar o meu rival. Tinha tanta consistência como os heróis de banda desenhada que povoaram a minha infância, ou até menos porque estes ainda que atirados para o canto do baú, para as labaredas da fornalha ou mesmo quando acabam como cartucho no carrinho do assador de castanhas, continuam a alimentar a imaginação de muita gente.

No regresso a casa fiz o possível por adiar o momento em que teria de meter a chave na porta. Saí na paragem anterior e fiz o percurso a pé retardando o passo, detendo-me em cada montra, fingindo-me interessado nos produtos expostos, quer se tratasse de electrodomésticos ou de ampolas para a caspa. Na realidade, eu olhava para tudo sem nada ver, absorto num emaranhado de ideias desconexas, como se a minha cabeça estivesse reduzida a um monte de cacos. Tudo aquilo que me habituara a considerar como um dado adquirido na minha existência cómoda e sem sobressaltos, desabara subitamente e eu não sabia como lidar com isso, sentia-me perdido e desamparado num mundo que agora me parecia hostil e que me repelia sem eu saber porquê. Parei numa dessas lojas que vendem toda a gama de bugigangas que não servem para nada excepto para oferecer à namorada, à tia ou à avó naquelas datas em que é "obrigatório" oferecer qualquer coisa - bonequitos de loiça em todas as posições; molduras com barcos, ursos, tambores e patinhos em relevo; pequenos castiçais com velas de cheiro; ímanes para a porta do frigorífico exibindo as mais variadas formas que iam das maçarocas, beringelas e repolhos às garrafas de suma, copos com coloridos cocktails e até anafados porquinhos, vestidos como gente, ensaindo passos de dança; caixas minúsculas quadradas, redondas ou hexagonais que tanto servem para guardar comprimidos como para ornamentar a cómoda, já repleta, do quarto e que invariavelmente se oferecem à tia em idade madura, sempre acompanhadas da frase sacramental "Não sabia o que havia de comprar, a tia tem tudo, é mais uma para a sua colecção" enquanto a tia aderindo à farsa com um "Ai que gira", agradece pretensa e hipocritamente entusiasmada, sem coragem para confessar que nunca lhe passara pela cabeça fazer colecção de caixinhas de comprimidos. Penduradas nas paredes, estavam as inevitáveis tiras de pano ou de papel amarelento, com uma ripa em cada extremo, exprimindo máximas, versos e provérbios, dirigidos " À querida mãezinha, Ao melhor pai do mundo, Ao amigo do coração, Aos amigos do copo, Aos amigos do garfo, Aos atributos do chefe, À secretária exemplar ... " e entre aquele rol de imbecilidades que eu ia lendo com o único objectivo de queimar tempo, deparei com um daqueles pensamentos budistas que parecia estar ali à minha espera, espreitando as minhas desventuras, "Um homem acabrunhado não pode agir sobre a realidade. Saber aceitar os golpes da vida não significa baixar os braços". . Por natureza, sou um céptico irredutível, mas o estado de espírito em que me encontrava propiciava a capitulação, tornava-me receptivo à aceitação de manifestações esotéricas e dei comigo a imaginar a possibilidade de estar perante uma mensagem que, por qualquer desígnio mágico e obscuro, se destinava directamente à minha pessoa, qual mão invisível que apiedada com o meu desânimo conduzira os meus passos para aquela loja atulhada de quinquilharia onde os insondáveis desígnios do destino me queriam confrontar com a sageza do pensamento budista e daí retirar o alento e o conforto de que estava tão carenciado. Não sei há quanto tempo estava ali especado, de boca aberta, lendo e relendo como se procurasse digerir cada palavra, cada sílaba, assimilar e interiorizar o conteúdo do que já considerava ser uma mensagem anímica, redentora do estado de desespero em que me vira mergulhado e que singularmente começava a desvanecer-se, como se os motivos desse mesmo desespero se tivessem convertido num amontoado de futilidades. Uma voz familiar despertou-me em sobressalto: "Raúl!Que fazes tu aqui?", era a Matilde, a minha cunhada, a última pessoa que esperava encontrar. Fiquei atarantado, estupidamente atarantado porque não havia nada de repreensível no facto de eu estar ali, nem sequer tinha de lhe dar explicações, mas, de qualquer modo, não cheguei a ter oportunidade de lhe responder, dado que ela se antecipou: "Já sei, andas à procura de um presente para a Isilda, tal como eu". Um presente para a Isilda! Esquecera-me completamente do aniversário da minha mulher que era daí a dois dias, mas a Matilde não chegou a aperceber-se do meu lapso de memória e apressou-se a acrescentar: "Já que nos encontrámos, podemos ajudar-nos um ao outro, o que é que achas deste porta-chaves?". Era um porta-chaves com um canguru enorme pendorado na argola: "Não achas isso um bocado infantil para a Isilda? As adolescentes é que costumam andar com esses animais gigantescos enfiados nas mochilas" respondi já completamente refeito da surpresa que a sua aparição me provocara. Ela riu, observando o porta-chaves enquanto fazia baloiçar o canguru: "A Isilda nunca sabe onde põe as chaves, isto é ideal para ela, vê-se à distância", "Matilde, eu sei que o que conta é a intenção, mas não achas que devias oferecer à tua irmã uma coisa diferente? O boneco é patusco e o porta-chaves é um objecto que tem sempre utilidade, mas acho que devias escolher outra coisa mais ... como é que hei-de dizer? Mais ... ". Ela soltou uma gargalhada e exclamou: "Uma coisa melhor, queres tu dizer. Ó Raúl, esta não é a minha prenda, eu não sou tonta nem sovina, já lhe comprei um lenço de seda para o pescoço, entrei aqui à procura de umas gracinhas para os miúdos oferecerem à tia, sabes como ela gosta deles, o Pedro Nuno oferece-lhe este porta-chaves e a Mariana ... talvez este castiçal, o que é que achas?". Segui-lhe o movimento do dedo indicador que apontava para um pequeno girassol em metal acobreado com uma cavidade na base para encaixar a vela que o transformaria em castiçal. Abanei a cabeça em sinal de aprovação: "Acho bem, ela vai gostar, aliás gosta de tudo o que venha dos sobrinhos". Eu devia estar com um ar um tanto enfadado que ela facilmente terá interpretado como sendo uma atitude de despeito: "É normal, não tem filhos dela, agarra-se aos meus", "Claro, é normal, bom ... vou andando", fiz menção de me encaminhar para a porta, mas ela reteve-me, segurando-me o braço com um gesto afável: "Espera aí, não vás ainda, saímos juntos, é só pagar as prendinhas dos miúdos". Dirigiu-se à empregada e, enquanto esta fazia os embrulhos, perguntou-me: "E tu não compras nada? Não andavas à procura de um presente para a Isilda?". Encolhi os ombros e, tentando agir com naturalidade, respondi: "Não, entrei por entrar, só para dar uma vista de olhos, amanhã compro um perfume, fica sempre bem", "Tens razão, quando não sabemos o que comprar, o perfume é a melhor saída - olhou-me curiosa - é engraçado encontrar-te aqui, os homens não costumam entrar nas lojas só para ver, o Zé Pedro detesta, fica sempre à porta enquanto eu vasculho as lojas". Desviei o olhar, tentando escapar à perspicácia dela, tentando evitar que ela descobrisse que eu estava naquela loja porque não me apetecia entrar em casa, que estava feito num frangalho porque fora atraiçoado pela mulher com quem andava a atraiçoar a minha mulher e que, ainda por cima, me esquecera completamente do seu aniversário.

Pagas as prendinhas, a Matilde pendurou-se no meu braço e, enérgica e decidida, arrastou-me para a rua exclamando: "Já está, podemos ir embora, tenho ali o carro - apontava para a primeira esquina à direita que dava acesso a uma praceta - assim vais direitinho para casa". Falava num tom agarotado, de cumplicidade marota, como se me tivesse encontrado em flagrante delito que, neste caso, era tão somente a minha relutância em chegar a casa rapidamente. Esta intimidade que a levava a enfiar o braço no meu, apertando-o suavemente, deixava-me um tanto apalermado, tanto mais que me pareceu descortinar no seu olhar malicioso um brilhozinho cálido e ternurento.

Entrámos no carro e, em vez dos gestos tradicionais - apertar o cinto de segurança e ligar a ignição - a Matilde recostou-se no banco e, olhando-me fixamente, murmurou: "Aqui para nós, tu estavas naquela loja a queimar tempo para adiares a entrada em casa porque já não há lá nada que te atraia, a vida com a Isilda deve ser um frete, uma sensaboria". Eu estava estupefacto e tentei interrompê-la, mas ela não deixou: "Não fiques atrapalhado, eu compreendo-te perfeitamente, podes crer que compreendo, só há uma coisa que sempre me intrigou ... ", fez uma pausa e depois, olhando-me fixamente, exclamou:" Ó Raúl, como é que um homem como tu se pôde interessar por uma mulher como a minha irmã?". Abri a boca duas ou três vezes, como um peixe fora da água, tentando encontrar uma resposta adequada, qualquer coisa que a convencesse a ela e a mim: "Quando a conheci, a Isilda era engraçadinha, achei-lhe piada, pensei que, com o tempo, poderia transformá-la, transmitir-lhe os meus interesses, dar-lhe outra visão do mundo e das coisas, encaixar naquela cabeça oca algo mais do que as trivialidades domésticas que a tua mãe lhe ensinara, mas foi tudo em vão". Calei-me subitamente estarrecido com esta quase confissão que acabara de proferir. Sem querer, fora levado a abrir a minha alma, a desvendar os meus pensamentos mais íntimos e logo a uma pessoa que nunca me merecera a mínima confiança. Que loucura! Eu devia estar mesmo necessitado de apoio psicológico para assim me desarmar perante a própria irmã da minha mulher. Passou-me pela cabeça a ideia inquietante de que talvez a Matilde estivesse como se costuma dizer a tirar nabos da púcara para depois contar à irmã o que ouvira. Levei a minha desconfiança ao ponto de imaginar que talvez fosse por incumbência da própria Isilda que ela estava ali a vasculhar a minha intimidade, mas tudo se esboroou quando senti a mão dela deslizando sobre a minha nuca: "Pobrezinho ... todos estes anos ... tem sido um fardo bem pesado". Era como se o sangue dentro das minhas veias tivesse entrado em acelerada ebulição bloquendo-me os sentidos e a capacidade de raciocinar. A hipótese de a Matilde estar ali a mando da irmã em missão de espionagem para testar as minhas fraquezas, tornara-se um pormenor secundário perante o prazer onírico de sentir aqueles dedos macios escorregando na minha nuca. Uma vertigem apoderou-se de mim e um turbilhão de ideias invadiu a minha mente,"Meu Deus - pensei - ela está a atirar-se a mim!". Os meus sentidos estavam quase a capitular perante a visão da curva apetitosa que um semi discreto decote apenas insinuava, o que era mais estimulante pois traçava a fronteira entre o tacitamente consentido e aquilo que a minha voragem exploradora poderia alcançar. Um lampejo de bom senso travou o galope libidinoso que ameaçava embotar os limites da razoabilidade levando-me a confundir uma atitude puramente fraternal com uma tentativa de sedução. Finquei as mãos nos joelhos, como quem se agarra a uma tábua de salvação, e esforcei-me por afastar do pensamento a imagem capitosa daquele decote, repetindo mentalmente: "Tem juizo, Raúl, ela é irmã da tua mulher, estás a confundir tudo, ela só está a ser carinhosa contigo, carinho de irmã, homem, não sejas porco". Respirei fundo e quando me senti suficientemente calmo, resolvi quebrar o silêncio porque era urgente dizer qualquer coisa que clarificasse aquela situação embaraçosa: "Ora Matilde, não é bem assim, a Isilda ... ". Não sei bem o que ia argumentar, mas ela também não me deu tempo: "É uma chata, já sei, não te esforces para lhe arranjar qualidades que ela não tem". Foi então que resolvi afrontá-la: "E tu, por que razão casaste com o bronco do teu marido?". Longe de se irritar, ela olhou-me fixamente e, com um arrojo admirável, exclamou: "Porque tu não me quiseste e eu cansei-me de esperar". Foi como se tivesse levado um soco no estômago. Fiquei paralisado. Oscilava entre dois estados de espírito - sentia-me lisonjeado e estarrecido. A frontalidade e ousadia dela contrastavam com a minha tibieza. Era uma situação constrangedora e o mais caricato é que eu não conseguia dizer nada, limitando-me a tartamudear coisas sem sentido: "Estás a dizer que ... não é possível ...nunca pensei que ... nunca me passou pela cabeça ... ". Subitamente, consegui ganhar balanço e rematei: "Que disparate, Matilde, quando te conheci tinhas apenas dezasseis anos e eu já tinha vinte e cinco!", "E eu quando te conheci fiquei com o coração aos saltos, achei-te lindo, encantador, eras exactamente o tipo de homem que povoava os meus sonhos de adolescente e tu a tratares-me com aquela condescendência de futuro irmão mais velho - só faltou fazeres-me uma festa na cabeça - de mão dada com a Isilda toda orgulhosa por poder apresentar o namorado à família e eu ali de olhos arregalados, roída de inveja, procurando evidenciar-me e captar a tua atenção".

A Matilde falava sem cessar, acaloradamente, enquanto eu, embasbacado com a declaração daquele amor de que nunca suspeitara, estava remetido ao mais estúpido e embaraçoso silêncio. Então ela contou tudo, expôs-se completamente, sem rebuço nem recato, confessou todos os esforços que fizera para me agradar, as artimanhas que utilizava para estar sempre presente quando eu ia lá a casa, as constantes mudanças na forma de vestir e de pentear, alternando drasticamente entre o estilo mais excêntrico e o mais conservador, enfrentando as reprimendas dos pais e a chacota das amigas que estavam longe de imaginar o motivo de tais metamorfoses. Subitamente, fez uma pausa como se necessitasse de tomar fôlego e exclamou: "Sofri horrores por tua causa para no fim ouvir da tua boca ... lembras-te do que me disseste?", "Não ... não me lembro, o que é que eu disse?", "Claro que não te lembras, mas para mim ... naquela idade, foi o maior vexame da minha vida. Olhaste para mim, com aquele olhar critico do chato irmão mais velho e disseste - És uma miúda muito inconstante, dás cada reviravolta no teu visual que às vezes até penso que me enganei no número da porta e entrei na casa errada. Nunca me senti tão humilhada na minha vida, chorei toda a noite, mas, apesar de tudo, ainda alimentei esperanças até ao dia do teu casamento. Espartilhada naquele reluzente e ridículo vestido de dama de honor que me fazia sentir um embrulho de Natal, ouvi-te dizer o sim e todas as minhas esperanças caíram por terra, quase morri de desespero e jurei a mim própria que haveria de casar com o primeiro basbaque que me aparecesse, mas faltei ao prometido porque cada namorado que arranjava me enfastiava de tal maneira que acabava sempre com tudo antes de poder sequer ter algum relacionamento sério e duradouro. Quando conheci o Zé Pedro ...". Não era minha intenção ser cruel, mas saíu-me involuntariamente: "Encontraste o basbaque que pretendias". Ela deu-me um piparote atrevido na cabeça e exclamou: "Não sejas cínico, a questão é que eu já tinha vinte e dois anos, os sonhos da adolescência estavam desfeitos e entre o converter-me numa solteirona amarga e ressequida e o pedido de casamento do Zé Pedro, optei pelo que me pareceu ser o menor dos males". Deitei uma olhadela para o relógio - a Isilda e a hora de jantar - estava na hora de pôr termo àquela conversa e fi-lo da forma mais desastrada: "Vai-se fazendo tarde e já sabes como a Isilda é, a hora da refeição é sagrada, e já que te ofereceste para me deixar em casa - apontei para a chave do carro - liga essa coisa e vamos embora". Ela não se mexeu, olhando-me calma e ironicamente o que só contribuiu para aumentar a minha insegurança. Ela estava demasiado bonita e eu estava completamente desamparado, mas tentei um último e estúpido recurso: "Vamos acabar com isto, Matilde, tu tens marido e filhos, eu sou casado com a tua irmã, ambos temos compromissos, esquece tudo o que disseste e eu esquecerei aquilo que ouvi". Ela continuava com aquele olhar irónico e, surpreendentemente, ignorando o meu nervosismo, exclamou: "Não sejas pateta, que se lixem os compromissos! Aliás, quem és tu para falar de compromissos? Ou pensas que eu não sei desse teu arranjinho com uma tal Beatriz?". Fiquei gelado de pavor e de estupefacção, não conseguia articular uma única palavra, nem sequer para perguntar como é que ela sabia do meu caso com a Beatriz, mas ela não se fez rogada e antecipou-se: "O mundo é pequeno, eu trabalho com uma cunhada do Semedo e já sabes como são estas coisas, o marido conta à mulher, a mulher conta à irmã que, por sua vez, conta à colega de trabalho que neste caso sou eu". Eu devia estar com uma expressão tão lamentável que ela exclamou, num misto de troça e de piedade: "Por favor Raúl, não faças essa cara, ninguém sabe do nosso parentesco, a minha relação com a cunhada do Semedo é puramente profissional, nem sequer somos amigas, eu é que juntei as peças e foi fácil saber quem era o tal engatatão que andava a papar uma tal Beatriz que afinal é um grande coiro e já lhe anda a pôr os cornos. As palavras não são minhas, só estou a repetir o que a outra disse - apressou-se a acrescentar - mas eu sei de tudo, Raúl, até sei que inventaste uma deficiência nas trompas da minha irmã, mas não te aflijas porque comigo o teu segredo fica bem guardado.". A revelação dos meus segredos mais íntimos e a sensação de estar completamente desarmado e subjugado aos caprichos de alguém que estava a par de todos os meus podres e artimanhas, enredou-me num labirinto de ideias que oscilava entre o pânico do condenado amarrado a um saco de explosivos e o profundo bem-estar provocado pelo alívio de ter finalmente alguém com quem partilhar o pesado fardo de mentiras e angústias que vinha carregando sozinho. Não valia a pena fingir, não precisava de mais subterfúgios, ela sabia de tudo e, como um náufrago que desiste de lutar contra as vagas que não consegue vencer, murmurei vergado pela humilhação e a vergonha: "Não sei o que dizer, deves fazer de mim uma triste ideia e com razão ... ". Ela não me deixou continuar e, colocando-me o dedo indicador sobre os lábios, murmurou: "Chiu, não digas nada, não preciso de justificações, cada um se defende como pode, toda a gente mente neste mundo de hipócritas, é uma questão de auto defesa, se os outros nos aceitassem como somos, não teríamos necessidade de mentir", e soltando uma risada acrescentou: "Começa logo na Maternidade quando visitamos um recém-nascido todo vermelhudo e enrugado e dizemos - Ai que lindo que ele é! Os olhos são da mãe, a boca e o nariz são do pai. Acompanhei o riso dela, aliviado e estranhamente feliz, como se o peso de tantos anos de farsa e desamor tivesse ruído com a eficácia de um edifício arrasado por implosão. Depois, respirei fundo e, atirando a cabeça para trás, cerrei os olhos e deitei fora o ar que inspirara, numa pose de abandono e relaxamento enquanto pensava - Quem me dera que este momento durasse eternamente. Uma mão atrevida deslizou-me pelo peito e eu abri os olhos sobressaltado, sem tempo nem ânimo para evitar o contacto daqueles lábios macios que se apropriaram dos meus, primeiro suavemente e depois com uma voracidade estonteante que me deixou desvairado como se o meu corpo tivesse sido atirado para o reboliço de um carrossel em rodopio. Aturdido entreguei-me à sofreguidão daquele beijo enquanto a mão dela ganhava terreno numa trajectória descendente que me embotava os sentidos e a razão. Um turbilhão voluptuoso e sublime apoderou-se do meu corpo e, apesar da exiguidade do espaço e da incomodidade da posição, a perícia daquela mão que a Matilde conduzia, sem pudor, no sentido da braguilha das minhas calças, fez-me sucumbir à vertigem daquele momento mágico. Foi intenso, mas rápido como um fogacho. Não sei se foi cobardia, recato ou bom-senso que me levaram a travar rapidamente a mão da Matilde e a afastá-la de mim com um gesto brusco, gritando: "Pára com isso, Matilde, estás louca ou quê?!". Ela afastou-se com um safanão enraivecido: "E tu, o que é que se passa contigo? Não te agrado? Preferes essa vaca que te pôs os cornos?". Não gritou histericamente como seria de esperar face à humilhação que acabara de sofrer, mas na sua voz havia um misto de rancor e de mágoa que me sensibilizou e fez lamentar a forma abrupta como me comportara: "Não Matilde, não é nada contigo, tu és uma mulher espantosa, o problema sou eu, ainda tenho a cabeça muito baralhada, preciso de assentar ideias - esbocei um sorriso contrafeito - eu não sou homem que se atire para a frente sem conhecer primeiro o terreno que pisa. Hoje tive um dia tramado e foi óptimo ter-te encontrado, a conversa que tivemos parece ter mudado todo o cenário da minha vida, mas agora tenho de pôr as peças no sítio para voltar a estruturar toda a confusão que vai aqui dentro" concluí apontando para a minha cabeça. Ela voltou a aproximar-se e, afastando-me o cabelo da testa, sussurrou: "Está bem, eu espero, já espero há tantos anos - com o dedo, desenhou um círculo na minha testa - põe os neurónios em ordem e, quando estiver tudo arrumadinho aqui dentro, vais chegar à conclusão de que adiar as coisas não resolve os problemas da vida. Sabes qual é o teu maior problema? É o sentimento de orfandade. No fundo, nunca deixaste de ser o menino único dos papás e sentes-te perdido sem o regaço materno, mas agora tens alguém que estará sempre disposta a acolher-te no seu regaço - myself ", "Eu não sou um rapazinho, Matilde, tenho quarenta e dois anos, não tenho propriamente idade para me refugiar no regaço de alguém que eu conheci quando ainda não passava de uma garotinha rebelde e arrapazada", "Rebelde e arrapazada -repetiu ela - foi o trauma por ter nascido rapariga quando o meu pai queria um rapaz. Se ele não estivesse a contar com o filho varão, eu nunca teria vindo a este mundo, a Isilda foi sempre a preferida dele, a menina prendada e obediente, eu só ganhei estatuto quando casei e lhe dei um neto para compensar o filho que não teve, eu quase não tenho autoridade sobre o garoto porque ele estraga-o com mimos, compra-o com prendas, com a Mariana é diferente, embora tente demonstrar o contrário, é bem evidente a preferência que ele tem pelo Pedro Nuno". Ficou subitamente pensativa como que a recordar algo muito distante e murmurou: "Engraçado ... disseste que eu era arrapazada e isso traz-me à memória um pormenor curioso - só comecei a usar saias a partir do dia em que te conheci, os sacrifícios que eu fiz por tua causa!".

Desatámos a rir ao mesmo tempo e eu acabei por lhe suplicar, gracejando: "Por favor, Matilde, põe o carro em movimento e leva-me para casa antes que a tua irmã vá à policia participar o meu desaparecimento, mas não quero deixar-te, e agora estou a ser muito sincero, não quero deixar-te sem que fiques bem ciente da importância que teve para mim este encontro, eu estava um farrapo e, graças a ti, sinto-me outro, nem imaginas o alento que me deste!". Um sorriso gaiato e a advertência: "E eu vou cobrar, podes crer que vou cobrar. Tu és meu desde o dia em que te vi, já lá vão dezassete anos e continuo com a mesma sensação de ter deixado qualquer coisa incompleta, é a tal história dos sonhos que não se concretizam e que nos deixam sempre a pensar Como teria sido se eu tivesse feito isto ou aquilo? Muitas vezes, durante os primeiros anos de casada, sonhava que estavas deitado ao meu lado e quando acordava - fez uma pausa respirando fundo - caramba, Raúl, nem imaginas a desilusão que eu sentia quando me apercebia de que tinha outro homem na minha cama e que tudo não passara de um sonho. Depois resolvi conformar-me com a situação, repetindo para mim própria que era uma mulher casada, que tu eras o marido da minha irmã, que tinha dois filhos que tu nunca me poderias ter dado, todas essas tretas que argumentamos quando queremos que a razão se sobreponha aos sentimentos e o que é certo é que funcionou, deixei de sonhar que te tinha na minha cama. Funcionou até ao dia em que soube do teu caso com essa tal Beatriz, foi uma reviravolta que voltou a abanar tudo cá dentro, eu não ia perder-te pela segunda vez, por que razão ela e não eu quando afinal fui eu que te vi primeiro!". Esboçou um leve sorriso, um sorriso tímido, ligeiramente inseguro, e concluiu: "Quando te conheci tinha dezasseis anos, agora tenho trinta e três, está na altura de resolver isto de uma vez por todas. Tal como tu, preciso de arrumar as ideias, juntar os cacos que ficaram da minha adolescência para saber ao certo se aquilo que restou não passa de uma obsessão pelo desejo insatisfeito ou se, pelo contrário, é um sentimento suficientemente forte para decidir mudar o rumo da minha vida".

Ela pôs o carro em movimento e, durante o pequeno percurso que distava do local onde nos encontrávamos até à porta da minha casa, poucas palavras trocámos, limitando-nos a simples banalidades sobre o trânsito e o tempo. Despedi-me com um Até breve, ao qual ela respondeu: "Até amanhã e pensa em mim". E eu pensei, deitado de costas, com os olhos fixos no tecto do meu quarto, toda a noite pensei nela.



( continua )
publicado por mmfmatos às 12:46
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Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2005

GENTE COMO TU E EU - IV, 3

3. RAMIRO

O Licínio anda muito macambúzio, quer contar aos pais os projectos que tem para o futuro, mas ainda não arranjou coragem. Eu compreendo o problema dele, por um lado não quer desiludir os pais, mas por outro também não quer desistir do sonho da sua vida e até está certo, a vida é dele não é dos pais. Um dia os velhos morrem e o Licínio lá fica em Lamego, casado com a filha do farmacêutico, de quem nunca gostou, pai de filhos que não desejou e a ensinar garotos que nem sequer estão interessados em ouvir o que ele tem para dizer. Em tempos, até eu achei que seria bom para ele ficar ao pé dos pais, constituir família e ensinar a tal Biologia na escola de Lamego, mas agora já lhe dou razão, não viemos a este mundo para viver os sonhos dos outros, não andamos cá para ter uma vida de empréstimo. Ora aí está uma coisa em que os bichos são mais espertos do que os humanos que querem os filhos atrelados a eles para a vida toda. Os bichos não, criam os filhos, ensinam-nos a caçar e largam-nos na floresta para que sigam o seu caminho. A D.Etelvina olha-me com uma tristeza que eu nunca lhe tinha visto: "Pois é, criam-se os filhos e eles debandam, nunca mais querem saber dos velhos que acabam sós e abandonados, de que serve ter filhos, afinal?", atrevi-me a perguntar: "Como o seu Armando, é isso que quer dizer?". Os olhos dela ficaram muito brilhantes e não era de alegria, pela primeira vez aquela mulher rija e autoritária deixava que lhe visse lágrimas no olhar, pela primeira vez demonstrava a mágoa e o vazio pelo filho ausente, pelos netos que mal conhecia, pela família lá longe que só se deveria lembrar dela quando metia no envelope as fotografias e a carta dizendo que estavam bem de saúde, mas todos muito ocupados, tão ocupados que não dava para " ... ir até aí como gostaríamos, a mãe compreende ... os rapazes ... o trabalho ... talvez para o ano que vem ... a mãe já sabe, se precisar de alguma coisa, é só dizer, nós cá estamos para o que for preciso ... ". Coitada da D. Etelvina! O que ela precisava era da presença deles, mas o seu Armando só deve meter o pé no avião quando tiver de vir ao funeral da mãe, fechar a porta da casa e entregar a chave ao senhorio.

Como um relâmpago, veio-me à ideia a imagem da minha própria mãe quando me dizia naquele tom magoado: "Estou para aqui abandonada, vens cá tão pouco!". E eu sempre a inventar desculpas. Afinal que moralidade tinha eu para criticar o Armando, lá longe no Canadá? Eu estava bem mais perto e deixei a minha velha à mercê da boa vontade dos vizinhos que sempre lhe chegavam qualquer coisa. Senti a garganta apertada como um novelo, uma opressão no peito e uma mágoa tão grande que quase explodi em pranto. Consegui controlar-me e, para consolar a outra, meio engasgado no meu próprio desgosto, gaguejei: "O Canadá não fica ali ao virar da esquina, é difícil, tem de compreender, veja eu aqui mais perto e era raro pôr os pés lá na terra, é assim a vida, o tempo vai passando e a gente sempre a adiar, vou amanhã, vou depois, é assim a vida". Ela olhou-me muito séria: "E agora não tem pena?", as palavras saíram-me a custo: "Tenho D. Etelvina, tenho muita pena, mas agora já não há nada a fazer, já não há remédio". O tal novelo voltou a apertar-me a garganta até que explodiu num soluço que foi quase um grito. A D. Etelvina passou-me um braço pelos ombros e sacudiu-me vigorosamente: "Então homem, o que é isso? Ó Ramiro eu nunca o vi assim, tenha calma, homem! É como você diz, a vida é assim, se adivinhássemos as coisas, não tínhamos de que nos arrepender, fazíamos tudo certo, não cometíamos erros, mas não é isso que se passa, umas vezes acertamos outras não, não podemos passar o resto da vida a carpir mágoas passadas". Voltou a sacudir-me os ombros, num gesto quase maternal: "Então, sente-se melhor? Às vezes é bom desabafar, ficamos com a alma mais limpa". Estava um bocado envergonhado, mas ao mesmo tempo sentia um certo alivio, como se tivesse há muito tempo dentro de mim qualquer coisa fermentada que me roía as entranhas e que, subitamente, saltou cá para fora, deixando-me mais leve, com a alma mais limpa, como ela disse. Respirei fundo: "Estou melhor, isto foi um desabafo, desculpe lá, não sei o que me deu". Ainda ficámos um bocado a conversar, mas nem ela falou mais do seu Armando, nem eu falei mais da minha velha. Ela tem razão, carpir mágoas passadas envenena a vida.



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Domingo, 4 de Dezembro de 2005

GENTE COMO TU E EU - IV, 2

2. FERNANDA

Aquele jantar em casa da Judite foi algo de estranho e assombroso na estreiteza dos meus horizontes. Os amigos com quem ela partilha o apartamento não têm nada a ver com os modelos que eu tenho esquematizados na minha cabeça. Depois do jantar, primorosamente confeccionado pelo André, a Susana preparou o café enquanto a Judite, indiferente aos meus protestos, me estendia um copo de um qualquer digestivo que, citando as suas próprias palavras, dava uma boa disposição do caraças . Não estou habituada a beber e já estava meio estonteada com os dois copos de vinho que bebera à refeição, mas não quis dar parte de fraca. Encolhida numa ponta do sofá, beberricava pequenos goles ouvindo-os tagarelar com o maior à-vontade sobre todos os assuntos proibidos, exibindo-se com arrojo e desfaçatez na plenitude dos seus gostos exóticos. Ela tanto falava dos homens com quem se relacionara como exaltava a arrebatadora paixão que vivera com uma artista dos nossos palcos. Ele parecia mais moderado, mas à medida que a bebida lhe desaparecia do copo, a língua começou a soltar-se dando lugar a confissões despudoradas e à derrocada de todas as defesas que até aí tinham preservado a sua intimidade. Confessou abertamente não sentir a mínima atracção pelo sexo oposto. Gostava das mulheres como amigas, mas a simples ideia de ter um corpo nu de mulher deitado ao seu lado provocava-lhe náuseas. Era uma repulsa instintiva que sentia desde a mais tenra idade: "Não é que eu me lembre, mas até na teta da minha mãe me deve ter custado a mamar" ironizava enquanto a Judite o repreendia: "Não sejas parvo, os homossexuais até costumam ter uma relação muito forte com as mães e vê se te moderas porque aqui a Fernanda já está apavorada". A Susana aplaudia soltando fortes risadas que lhe sacudiam todo o corpo, um corpo robusto de ossatura larga e parco de carnes. Mais alta do que a média, ela tem a compleição de uma atleta e caminha com a postura de alguém que sabe chamar a atenção daqueles com quem se cruza. Eu começava a sentir-me desconfortável, mas tentei disfarçar, balbuciando desajeitadamente: "Pelo amor de Deus, estejam à vontade, eu não sou nenhuma ingénua!". O André olhou-me com um sorriso cáustico: "Ingénua não será, mas preconceitos não lhe devem faltar. Neste preciso momento, deve estar a pensar mas que bicha tão escabrosa! ". Acompanhei as suas gargalhadas estridentes, mais por falta de coragem e por vergonha de mostrar o quanto me sentia contrafeita e pouco à vontade do que pelo comentário em si. Tentando parecer natural e arrojada, ripostei: "Já há quem mude de sexo, quem não se sente bem dentro do corpo com que nasceu, o melhor que tem a fazer é mesmo mudar", "Mas eu lido muito bem com o sexo que tenho, só não o uso da forma dita convencional. Esses indivíduos que se fazem mutilar e se enchem de silicone, são homossexuais que não têm a coragem de se assumirem como tal, daí a necessidade de se esconderem num corpo de mulher. Transexuais, drag queens e outros trastes do género, que fauna é essa afinal?", com o copo estendido na minha direcção e os olhos semicerrados, ele afirmava: "São uns desajustados que não se conseguem definir, pensam que um bom par de mamas e uma bunda avantajada bastam para resolver o problema que têm entre as pernas, mas estão redondamente enganados porque, por muito que cortem, fica sempre por resolver a questão aqui dentro - e batia com o dedo na cabeça - se houver conflito aqui dentro, não é o bisturi que irá resolver a questão".

Involuntariamente, lembrei-me da minha mãe, há tempos, frente à televisão, enojada perante uma manifestação gay onde uma jornalista extremamente jovem fazia atabalhoadamente o relato da situação - Concentração às portas da Assembleia, homossexuais e lésbicas reclamam os mesmos direitos dos casais heterossexuais, querem ver reconhecida a união de facto, querem que lhes seja reconhecido o direito à adopção de crianças, empunham cartazes mais ou menos contundentes, é uma grande manifestação esta que se verifica hoje às portas do hemiciclo, os manifestantes não se furtam à troca de beijos e de carícias que parecem escandalizar alguns transeuntes mais conservadores - a minha mãe abana a cabeça, cruzando os braços sobre o peito: "Este mundo está perdido, aonde chegou a pouca-vergonha! Deviam trancar estes mariconsos e estas relaxadas em qualquer sítio onde não nos envergonhassem a cara!".

Deixei a casa da Judite embrulhada numa tal confusão de sentimentos que, ao enfiar a chave na fechadura da porta, só desejava refugiar-me na quietude do meu quarto para evitar recriminações e comentários do género - Acabou tarde esse jantar, já estava a ficar preocupada, havia muita gente? Essa tua colega vive sozinha? Para a próxima vê se telefonas ... . Teria de inventar qualquer coisa pois seria de todo impossível dizer-lhe - Não, a Judite não vive sozinha, partilha a casa com um rapaz que é maricas e com uma rapariga que é assim assim. De qualquer maneira, seria sempre difícil de explicar o facto da Judite viver sob o mesmo tecto com um homem que não era nem seu marido nem seu irmão. Atravessei a sala apressadamente onde se encontravam a minha mãe e a vizinha coscuvilheira, sentadas lado a lado, ambas embevecidas e absortas com as intrigas da novela. O efeito anestésico dos dramas televisivos jogou a meu favor, nenhuma delas desviou os olhos do pequeno ecrã e eu pude esgueirar-me para o quarto sem interpelações, fechando a porta atrás de mim muito de mansinho para não desafiar a sorte.

No dia seguinte, enquanto passava em revista a agenda do patrão, não consegui evitar o comentário: "Judite, nunca te sentes constrangida?", ela olhou-me de soslaio e, fazendo-se desentendida, perguntou: "Constrangida com quê?", eu continuei a custo: "Quero dizer ... com esta situação ... a conviver assim ... ". Atrapalhada e sem coragem para continuar deixei a frase em suspenso, "A conviver com uma fufa e um maricas, queres tu dizer! Se é isso que pensas por que razão não o dizes, mulher? Ficas sempre a meio de tudo!". Senti-me envergonhada com a frontalidade dela e com a minha cobardia. Gaguejei: "Não precisas de ser tão bruta, não era bem isso que eu queria dizer ... ", mas a Judite não dá tréguas: "Era sim, mas como sempre ficas nas meias-tintas, não consegues afirmar ou negar seja o que for, ficas sempre pelo talvez, mas para teu esclarecimento, a Susana não é fufa, digamos que se entrega aos prazeres da vida sem reservas, venham eles donde vierem. Como ela diz - é preciso experimentar de tudo para se saber o que é melhor . Quanto ao André, o facto de ser homossexual, não faz dele melhor ou pior como pessoa, é um homem que gosta de fornicar com outros homens, só isso. Conviver com eles é tão simples como com quaisquer outros e podes crer que é bem mais fácil coabitar com aqueles dois do que viver como tu, paredes meias com uma insuportável mãe possessiva e um pai inválido e ditador". Senti a cara em brasa. Intensionalmente ou não, a Judite tocara no meu ponto nevrálgico, viver com os meus pais era asfixiante, sentia-me tão manietada como se tivesse enfiada num colete de forças. Respondi humildemente: "Tens razão, a minha vida mete dó". A Judite deu-me um safanão: "Credo mulher! Isso é auto flagelação, não sejas tão depressiva, sai de casa e pronto!", "E vou viver para onde? Não tenho dinheiro para arranjar uma casa", "Partilha a casa com uma amiga ou um amigo, de peferência", "Eu não tenho amigos, Judite", "Não é possível, toda a gente tem amigos, quanto mais não seja dos tempos de escola", "Os meus pais nunca me deixaram levar colegas da escola para casa e muito menos ir a casa deles. A pouco e pouco, deixaram de me convidar porque os meus pais nunca me deixavam ir, nunca convivi verdadeiramente com os colegas de escola, nunca consolidei amizades. Quando a escola acabou, não ficou nada, perdi o pouco contacto que tinha com eles, nunca mais os vi", " Esses teus pais deram-te cabo da vida, foi uma castração total". Senti um arrepio, era isso mesmo, uma castração total e agora não sabia o que fazer da minha vida, sinto um vazio enorme dentro de mim, como se pairasse num mundo de nada, cada vez o sufoco é maior e todos os dias dou comigo a pensar - tenho de mudar a minha vida. " Pois é Judite, gostaria bem de mudar de vida, mas não sei como", "Corta as amarras, mulher, corta as amarras e vai em frente, não deixes que a vida te passe ao lado. O teu problema é que tens medo de arriscar, nunca tiveste namorado?", "Tive, mas um dia fugiu", "Se te parece! Assustou-se com a carga", "Ele dizia que a minha casa tinha um ambiente muito triste, muito soturno, foi-se desligando aos poucos e um dia desapareceu de vez", "Assim sem mais nem menos, sem uma explicação?", "Começou com aquelas histórias de não haver entre nós afinidade de interesses, que nos faltava aquela química indispensável num casal. Isto era o que ele dizia e aqui a trouxa sem perceber que o que ele estava era a dar o fora". A Judite lançou-me aquele olhar de comiseração que me gelava o sangue: "Pois é, esse gajo devia ser um grande traste, mas também te digo, enquanto não deixares aquela casa (e abanava a cabeça) não sei não, com o tempo ainda viras múmia". Encolhi os ombros, esboçando uma espécie de sorriso: "Deixa lá, é para não destoar dos outros dois", "Pois é, deixa-te andar, o tempo vai passando e quando deres por ela já não há remédio, um dia olhas para o espelho e não vais gostar do que vês - pele baça, pés de galinha, pescoço de peru e o pior de tudo é que serão rugas sem história porque passaste pela vida como cão por vinha vindimada".

Talvez a Judite pretendesse espicaçar-me o amor-próprio, incentivar-me para a luta, mas para alguém que nascera sob o signo da derrota, as suas palavras eram pedradas que, em vez de me espevitarem, me amarfanhavam ainda mais. Apeteceu-me ser cruel e, com um risinho mordaz, retorqui: "E tu, Judite, quais são os teus grandes objectivos? Caçar um velho rico que te possa pagar as plásticas? Há-de ser um grande consolo olhar para o espelho, sem rugas nos olhos, nem pelancas no pescoço, mas ter na frente um velho carcomido que mija fora da sanita e se peida quando tosse! E se, ainda por cima, o tal ricaço nunca te cair na rede? Vais passar o resto da tua vida partilhando aquela casa com uma machona e um maricas que te monopoliza a cozinha?".

A Judite corou até à raiz dos cabelos e só então me apercebi que, apesar de ser firme como uma rocha, ela também não era totalmente imune às fraquezas e inseguranças que assaltavam os seres pusilânimes como eu. Esta descoberta deixou-me maldosamente feliz, mas arrependi-me logo. Em mim, o arrependimento, longe de ser uma virtude, é antes um estado de espírito e daí a necessidade atávica de passar a vida a desculpar-me perante tudo e todos. Senti-me mesquinha e envergonhada. Procurando remediar a situação, tentei gracejar: "Não faças caso, tu és uma rapariga cheia de recursos e vais conseguir dar a volta por cima", "Não tenhas dúvida, eu não vou perder o meu tempo e envelhecer a ler o horóscopo, como tu, à espera que ele me anuncie a chegada do príncipe encantado que, entretanto, já se deve ter perdido numa manhã de nevoeiro", exclamou ela em tom agreste e já na posse da sua habitual segurança.



( continua )

publicado por mmfmatos às 12:06
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