Quarta-feira, 30 de Novembro de 2005

GENTE COMO TU E EU - IV, 1

1. RAÚL

Se a Beatriz não tivesse encontrado no cabeleireiro aquela colega de escola, talvez a nossa relação não tivesse descambado desta maneira, mas o facto é que encontrou e eu imagino a conversa da outra tecendo loas às maravilhas da vida familiar, ao seu casamento abençoado com os dois rebentos de sonho , frutos do amor, dois filhotes encantadores que semeavam alegria e eram o orgulho de toda a família . Não contente com a explanação do seu idílico quadro familiar, a outra atirou com a pergunta sacramental: "E tu, Beatriz, continuas solteira?", "Sim ... " respondeu a medo, levemente insegura, quase envergonhada, "Tenho alguém, mas ... por enquanto, não quero compromissos, a vida a dois é complicada". A outra ajeitou-se na cadeira e, entre as borrifadelas de laca com que o cabeleireiro lhe pulverizava a cabeça, lançou-lhe em tom quase desdenhoso: "Deixa passar o tempo e logo vês o trambolhão que apanhas, não há nada mais bonito do que a vida a dois, o casamento, os filhos, não há nada melhor, não sabes o que estás a perder, casa-te mulher, casa-te, aqui onde me vês, namorei um ano o que já estava a ser tempo demais para mim, engravidei aos vinte anos e antes da barriga começar a crescer já eu estava no altar, levei o filhote ao casamento sem ninguém saber, só eu e o maridão" exclamou, soltando risadinhas eivadas de orgulho. Enquanto o cabeleireiro foi buscar o espelho para lhe mostrar a retaguarda do penteado, ela sussurrou: "E esse alguém que tu tens é livre?" e a Beatriz gaguejou: "Não ... é ... é casado, mas está a pensar deixar a mulher, é um casamento sem futuro, completamente desgastado", "Têm filhos?" pergunta a outra, "Não, a mulher não pode","Então, se não a deixa é porque anda a encanar a perna à rã, livra-te dele e vai à procura de outro, mas despacha-te porque não há muito por onde escolher para uma mulher de trinta anos, o que é bom já está agarrado e o que resta é só refugo".

A Beatriz ficou em pânico depois daquela ida ao cabeleireiro. Subitamente, os seus trinta anos adquiriram um peso insuportável, como se só então se tivesse apercebido de que o tempo lhe fugia e foi, nesse preciso momento, que a nossa relação sem compromissos começou a ficar minada pela insatisfação. Foi como se ela tivesse acordado nesse dia e exclamasse frente ao espelho: "Meu Deus, tenho trinta anos! Estou a ficar fora de prazo". Eu a pensar que era o Semedo que lhe andava a meter coisas na cabeça e afinal tudo começou com aquela ida ao cabeleireiro: "Estás redondamente enganado, Raúl Freitas! Já há muito tempo que eu não me ando a sentir bem com esta situação, não foi o encontro no cabeleireiro, há alturas na vida em que despertamos para a realidade, em que desistimos de enganar os nossos próprios sentimentos. Eu tinha a verdade à frente dos olhos, só que não queria vê-la. Decididamente, não quero envelhecer assim, não quero continuar a ser a tua mulher das horas vagas", "Ora, Beatriz, não me venhas com letras de cançoneta barata!", "E tu, não me venhas com as tuas tiradas de intelectualoide de pacotilha, digo e repito, acabou-se a diversão, quero uma vida a sério, com casa, marido e filhos". A ideia de casamento já lhe andava a germinar na cabeça, mas o encontro com a tal colega de infância acelerou as coisas e engrossou os desejos de um lar tradicional com marido, filhos, cão, gato, pássaros e fins-de-semana em família - idas à praia nos dias quentes, deambulações pelos centros comerciais nos dias de chuva. Dei comigo a imaginar-me enchouriçado nas bichas da ponte a caminho da Costa da Caparica ou suportando heroicamente os encontrões dos magotes ululantes que invadem os centros comerciais. Se esta visão de futuro me era insuportável, havia algo bem pior, algo que me deixava paralisado de terror - haveria de chegar o momento em que a Beatriz, vendo que não conseguia engravidar, iria querer aprofundar a questão, saber por que motivo não se concretizava o seu anseio desenfreado de ser mãe e quando esse dia chegasse ... bolas! Parece que o mundo apostou desabar em cima de mim. Ela não irá acreditar que eu desconhecia a minha esterilidade. Como é possível eu explicar-lhe que andou perto de dois anos a tomar a pílula para combater os meus espermatozóides inofensivos?

A Beatriz insiste em dizer que este encontro não teve nada a ver com a sua mudança de atitude em relação a nós pois já há muito que vinha sentindo um certo desconforto e um enorme vazio na sua vida, mas eu continuo a amaldiçoar aquela ida ao cabeleireiro e a tagarelice broeira da tal colega de infância que sacudiram desastrosamente, qual sismo violento, a pacatez do meu quotidiano. Depois da última discussão que tivemos sobre o assunto e após alguns dias em que nos ignorámos mutuamente, limitando-nos ao estrito relacionamento profissional que não fosse possível evitar ou que não pudesse ser tratado por interposta pessoa, resolvi dar o primeiro passo numa tentativa desesperada de pôr fim à abstinência sexual a que estava condenado desde aquele almoço no restaurante em que a Beatriz me deixou vergonhosamente amarfanhado entre os estúpidos crustáceos e a dentuça escarninha do empregado. Aproveitei a ocasião quando a encontrei no elevador com uma rima de listagens debaixo do braço, exibindo uma expressão de sobranceiro profissionalismo que eu interpretei como um entre nós não há mais conversas . Mesmo assim, atrevi-me a dizer: "Beatriz, não podemos continuar assim, sabes bem como eu gosto de ti, vamos almoçar juntos e conversar civilizadamente sobre nós, sobre a nossa vida, sobre o nosso futuro". Até me custa a crer que tenha proferido estas palavras. Ainda não tinha tido tempo de me arrepender e já ela respondia: "Qual futuro? Há algum futuro para nós? Para ti, talvez, vives no melhor dos mundos, uma mulher em casa e outra na cama, mas para mim não, já chega, não vou continuar a comer as migalhas que caem da mesa dos outros". O elevador acabara de parar no 4º. Andar, ela avançou aconchegando as listagens como se carregasse algo de precioso e franqueou a porta com tanta determinação que eu tive de recuar para não ser empurrado. Não me atrevi a dizer mais nada e saí atrás dela acabrunhado como um cachorro a quem acabassem de dar um pontapé. Segui para o mesmo corredor, mas em sentido contrário, na direcção do meu gabinete. Entrei atirando com a porta e deixei-me cair na cadeira olhando com rancor a pilha de papéis que inundava a minha secretária. Ainda tentei pegar num papel, li duas ou três linhas, para o largar de imediato e pegar noutro que me parecera mais acessível para o estado em que se encontrava a minha cabeça. A seguir veio outro e mais outro, sem que me fosse possível organizar aquele amontoado de folhas e muito menos dar-lhe o devido andamento. Vogava eu nesta confusão de ideias e de papéis quando o Semedo entrou e, antes mesmo de ocupar o seu lugar, colocou as mãos em cima da minha secretária, inclinou-se levemente para mim e segredou: "A Beatriz acabou agora mesmo de entrar no gabinete do Rogério Marques, parece que foi ele que a chamou, quer confirmar as listagens da Informática com o trabalho que tu apresentaste, pelos vistos tem mais confiança no trabalho da menina do que no teu. Não deixa de ser chato, mas vendo as coisas pelo lado positivo pode ser vantajoso ter uma amiguinha que merece a confiança do chefe". O Semedo é daquelas que injecta o veneno para depois poder ministrar o antídoto.

Senti o sangue a fervilhar-me nas veias só de imaginar aquele sabujo de cabelo untado, com a minha Beatriz sentada na sua frente, cheio de mesuras: "Muito bem D. Beatriz, era mesmo isto que eu pretendia, fez um trabalho excelente". E a Beatriz toda dengosa exibindo para ele os sorrisos que ainda há pouco me negara e a curva apetitosa dos seios generosamente realçados por uma blusa de decote em bico que se lhe colava ao corpo como uma segunda pele. Blusa que eu lhe oferecera para deleite dos meus olhos e não para satisfazer o olhar guloso de um qualquer pindérico mascarado de executivo. Ó que ódio! Ainda se ela não tivesse vestido aquela blusa!



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Domingo, 27 de Novembro de 2005

GENTE COMO TU E EU - III, 7

7. RAMIRO

Parece que a Sidónia vai mesmo ser obrigada a deixar o pátio. Como dizem os senhores da Câmara, vai ser realojada. Vai ter casa de banho e outras modernices , mas vão faltar-lhe os vizinhos, o café do Araújo, a retrosaria do indiano, vai faltar-lhe o empedrado da calçada onde passou os últimos quarenta anos da sua vida, vai faltar-lhe quem lhe dê conversa e, sobretudo, quem lhe pague um copo para lubrificar a goela: "Ó mulher deixa-te de lamúrias, não tens com quem dar ao badalo, mas ficas com uma casa nova, deixas aquela espelunca cheia de rachas", digo-lhe eu para a consolar. Ela arregala os olhinhos matreiros e resmunga: " Olha Miro, não vale a pena estares para aí a tentar levar-me na curva porque eu sei o que é bom para mim e onde me sinto bem, é aqui - e batia com o pé no chão - aqui é que eu me sinto bem, lá ninguém me ajuda, ninguém me dá troco, fico para ali arrumada num canto como um traste velho". Ao dizer isto, coçou a cabeça e escaqueirou-se a rir: "Olha que porra! Vendo bem eu sou mesmo um traste velho, um traste velho sem préstimo, sem ninguém, na ideia dos outros já ando a dever anos à cova", "Cala a boca mulher, ninguém tem nada a ver se tens préstimo ou não, ninguém tem nada a ver com o espaço que cada um ocupa neste mundo e o teu tem sido tão pequeno que, de certeza, alguém te deve estar ainda a dever algum bocado". As minhas palavras deram-lhe logo alento para abusar, estendeu um beicinho mimado e pedinchou: "Enquanto não descubro quem ficou com o bocado que me pertence, dá ordens à Filó para me encher um copinho com aquela pomada que está ali na segunda prateleira para ver se ganho ânimo para aguentar a vida lá naquele pombal onde me querem enfiar". A Sidónia é uma velha sabida e leva-me sempre à certa porque sabe que eu não tenho coragem de lhe negar a vitamina . Não custa muito a quem tem pouco repartir esse pouco com os outros, mas a D. Etelvina farta-se de ralhar comigo: "Olhe, Ramiro, quem dá o que tem, a pedir vem. Ainda se fosse para comer, agora para vinho! Você tira do pouco que tem para alimentar vícios?", "Para a Sidónia, o copinho é meio sustento e depois, D. Etelvina, os pobres também têm direito a ter vícios, digo-lhe mais, têm todo o direito a ter vícios, quanto mais não seja para esquecerem a porcaria de vida que levam", " Ora, desculpas! Quem nunca fez nada na vida, também não merece grande coisa, só colhe quem semeia. Eu também nunca fui rica, mas não me agarrei ao vinho por causa disso, agarrei-me antes ao trabalho, mas trabalhar faz calos e estender a mão à caridade é mais fácil!". A D. Etelvina é boa mulher, mas não tolera as fraquezas humanas.



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GENTE COMO TU E EU, III, 6

6. FERNANDA


A Judite vai dar-me uma corrida, mas não faz mal, que se lixe! Não é ela que está sempre a dizer que eu sou uma cobardolas, que dou demasiada importância à opinião dos outros? Tenho de contar a alguém senão rebento: "Judite, hoje falei com o gajo, adormeceu no autocarro e eu acordei-o", "Qual gajo? Estás a falar de quem?","O gajo do restaurante, aquele que vem todos os dias no mesmo autocarro que eu. Adormeceu e se eu não o acordasse ia até ao fim da linha. Ouvi-lhe a voz pela primeira vez, e que voz ele tem!". A Judite olhou-me muito séria: "Ó Fernanda, começo a ficar preocupada contigo. Acho bem que te atires de cabeça quando encontrares ou penses que encontraste o teu ideal, mas esse indivíduo ... eu não o conheço, mas tudo leva a crer que deve ter uma vida bem complicada, vê lá, não te metas nalguma enrascada, vai com cautela, olha que esses quarentões não são de confiança, "Ó criatura, eu só estou a dizer que ele tem uma bela voz, ainda não disse que me ia pôr debaixo do homem". A Judite abafou uma risada para não ser ouvida pelo chefão que estava do outro lado da porta: "Não disseste, mas vontade não te deve faltar e também te digo uma coisa, se o baque for muito forte vai em frente, doa a quem doer, acautela-te, mas vai em frente, se achas que vale a pena, arrisca!".

Interrompemos a conversa porque avistámos o Ribeiro da Contabilidade que, sempre que pode, esgueira-se até ao nosso gabinete para poder ver a Judite, inventando sempre qualquer pretexto idiota como procurar alguém que obviamente poderá estar em todo o lado menos aqui: "O Dr. Proença, não viram o Dr. Proença?". A Judite é um bocado cruel no modo como fala com ele: "Oiça lá, ó Ribeiro, não me diga que não sabe que o Dr. Proença foi para o Porto em serviço?". O Ribeiro ficou atrapalhado como um garoto apanhado em falta: "Não, realmente não sabia". Sem levantar a cabeça dos papéis, a Judite continuou impiedosamente: "Então sempre lhe digo que deve ser a pessoa mais mal informada desta empresa". Como ele continuava ali especado na frente dela, esperando qualquer sinal que lhe desse coragem para a convidar, sei lá, talvez para almoçar, a Judite levantou a cabeça e exclamou desabridamente: "Ó Ribeiro, vá lá para a sua secção porque se aquela porta se abre - e apontava a porta do gabinete do patrão - temos sermão e missa cantada. Já sabe que o big boss não quer reuniões na sala das secretárias, quem você procura não está cá, portanto, desande daqui para fora, desculpe lá, mas são ordens". Coitado do Ribeiro! A sua única aspiração é ter uma família, mas foi logo escolher a pessoa errada para fundar essa família pela qual ele tanto anseia. Esta fixação que ele tem pela Judite há-de acabar, tem mesmo de acabar porque, caso contrário, creio bem que ficará a vida inteira à espera e nunca vencerá aquela frustração de só ter tido uma família de empréstimo: "Coitado do Ribeiro, não devias ter sido tão agressiva, ele está mesmo caído por ti, já basta aquele complexo de nunca ter conhecido os pais", "Eu não fui agressiva, Fernanda, mais vale uma verdade dura do que uma mentira suave, eu sei que ele tem um fraco por mim e que é muito bom rapaz, mas não me desperta qualquer interesse, nunca hei-de sentir nada por ele".

Eu já lhe fiz sentir que ele devia tentar esquecer a Judite e lançar as suas vistas para outro lado e lá veio ao de cima o maldito complexo de inferioridade: "Pois é, eu não sou pretendente que lhe sirva, não tenho estatuto, não tenho antecedentes, não tenho atrás de mim uma família como as outras". Senti-me constrangida porque nunca o ouvira falar tão abertamente e porque a sua voz denunciava bem a mágoa que sentia por causa da infância que tivera: "Ó Ribeiro, não fale assim. Você tem de vencer esse complexo, tantas crianças que são criadas sem família! Pelo menos você teve uma família lá na aldeia S.O.S., não foi uma família convencional, mas não deixou de ser uma família que o ajudou a crescer de uma forma saudável. Agora há uma coisa que você tem de ultrapassar, é esse maldito complexo de rejeição", "Não é complexo de rejeição", "É sim, Ribeiro, é complexo de rejeição porque o simples facto da Judite não corresponder aos seus sentimentos, fá-lo logo imaginar que ela o recusa por causa da sua infância. Você não pode continuar com essa atitude perante a vida porque, então, cada vez que alguém lhe recusar alguma coisa, vai sentir-se sempre rejeitado". Ele abanou a cabeça obstinadamente e ripostou: "É tudo muito bonito de dizer quando se teve uma verdadeira família, você não pode compreender porque está a falar de cor, pode dizer o que quiser que não me convence". Eu bem gostaria de tê-lo convencido, mas não consegui. Apesar do panorama que lhe tracei da minha família e de ter afirmado que para ter uma família daquelas, mais valia não ter nenhuma, ele continuou inabalável nas suas convicções e até me criticou: "Não devia falar assim dos seus pais e do seu irmão, não sabe o que está a dizer". Não gostei do comentário, mas no fundo até compreendo o anseio que ele tem de construir a família que provavelmente sempre idealizou quando era criança, o anseio de ter filhos que, na escola, possam falar dos pais da mesma forma que ele ouvia aos outros garotos quando lá andava. A Judite, com o seu notável pragmatismo, afirma: "O Ribeiro pode vir a ter tudo isso, pode semear um exército de meninos por esse mundo fora, mas nunca comigo como parideira", "Nunca é uma palavra demasiado forte. Se conseguires o tal velhinho rico e tiveres a sorte de ele, ainda por cima, ter um prazo curto de validade, ficas rica e viúva em pouco tempo. Já que foste bafejada pela sorte, não te custa nada fazer uma obra de caridade e casar com o Ribeiro". A Judite pegou num pisa-papéis e simulou um gesto de arremesso na minha direcção quando se abriu a porta e o patrão saíu do seu gabinete apanhando-a de braço no ar com a bola de vidro na mão. Ele encarou-a com os meios-óculos ainda mais descaídos do que é costume e resmungou: "Isso é brincadeira ou está mesmo com instintos agressivos?". Apesar do seu habitual à-vontada, desta vez a Judite ficou mesmo atrapalhada, mas procurou disfarçar e, com um sorriso contrafeito, respondeu: "É brincadeira Sr. Dr.", "Foi o que eu imaginei. Em todo o caso, aconselho-a a guardar as brincadeiras para momentos mais oportunos e locais mais apropriados", "Com certeza Sr. Dr. " gaguejou a Judite baixando a bola assassina . Quando ele virou costas, não pude evitar uma risada divertida que contrastava com a carranca um bocado vexada da Judite: "Imagina só que o velho rico que conseguires arranjar lá no tal cruzeiro tem o humor deste e um período de duração alargado, já viste o que te espera?". Ela debruçou-se sobre o teclado do computador e embrenhou-se no trabalho com um seco vamos lá encerrar o assunto .

E ficou realmente encerrado porque quando a Judite assume aquela postura autoritária, não vale a pena insistir e, por outro lado, o meu pensamento já navegava em direcção a outras paragens, mais concretamente, em direcção ao meu sonolento companheiro de transporte que, naquele momento, deveria estar no seu local de trabalho já totalmente desperto à custa de uma bica bem forte. Tentei imaginar o que estaria fazendo, o que estaria pensando, qual o tipo de relação que o ligava à rapariga que o abandonara tão abruptamente no restaurante ... até me atrevi a imaginar que, talvez, também ele estivesse pensando em mim. Embrenhei-me numa toada quimérica, arquitectando sonhos e criando episódios romanescos que puseram a minha cabeça num turbilhão. Felizmente a manhã foi calma e o patrão teve de sair porque se ele estivesse presente, não me furtaria ao vexame de comentários desabridos perante o triste espectáculo que deveria representar a minha expressão aparvalhada, de olhar vago e ausente, totalmente desconcentrada, sem conseguir coordenar ideias nem atinar com qualquer tarefa por mais simples que fosse. O meu estado de alheamento devia ser tão ostensivo que a Judite quebrou o seu voto de silêncio e inclinou-se para mim, fazendo estalar os dedos em frente do meu nariz: "Ei, ei, acorda mulher! Regressa à Terra!". Procurei disfarçar o melhor possível para não trair os meus pensamentos, temendo cobrir-me de ridículo com as insólitas divagações que subitamente se tinham apossado de mim. Comecei a remexer nos papéis atabalhoadamente, fechei a abri gavetas à toa, folheei o mesmo arquivador três ou quatro vezes, carimbei papéis em branco, separei facturas, agrupei-as e prendi-as com clips , voltei a separá-las, voltei a agrupá-las, fazia tudo isto com um ar de espalhafatosa actividade que só a um tolo enganaria. A Judite olhava-me de soslaio e, a certa altura, não se conteve: "Ó Fernanda, tu não estás bem, pois não?" Tens passado a manhã num alvoroço, mexes em tudo e não fazes nada, pareces uma barata tonta. Vê lá se te acalmas antes que eu entre também em parafuso". Fiquei com a cara em brasa, murmurei qualquer coisa sem sentido e, para disfarçar, acabei por sair do gabinete com a desculpa mais prosaica: "Vou à casa de banho".



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Sexta-feira, 18 de Novembro de 2005

GENTE COMO TU E EU - III, 5

5. RAÚL

Tenho de resolver o problema com a Beatriz. Esta zanga está a durar mais do que devia, não posso deixar passar mais tempo, faz-me falta na cama. Desde que nos zangámos, recorri duas ou três vezes à sensaboria trivial que o corpo da Isilda tem para me oferecer. Não é que o seu corpo roliço não esteja ainda em estado apetecível para um homem, mas o seu desejo pela minha pessoa deve ser tão frouxo que sempre que me abre a pernas fá-lo com o tédio de quem está a prestar um serviço cívico e os únicos suspiros que consigo arrancar-lhe são os suspiros de alívio quando saio de cima dela.

Agora estou reduzido às recordações das cenas voluptuosas que vivi no apartamento da Beatriz. Meu Deus, que imaginação ela tinha! Conseguia espevitar todas as fibras sensíveis da minha personalidade indolente: "És um preguiçoso, Raúl Freitas, és um preguiçoso, mas a tua valquíria arranjou uma brincadeira nova e não vai querer meninos preguiçosos" exclamava ela quando eu caía pesadamente na cama, lamuriando: "Ai filha, hoje estou estoirado, aquela Repartição dá cabo de mim". Eu não estava assim tão estoirado, mas nada me excitava tanto como fechar os olhos e oferecer o meu corpo inerte ao arrojo sensual e libidinoso da minha valquíria . Que mãos!Que perícia! Habituei-me de tal maneira à criatividade truculenta da Beatriz e à lascívia das suas travessuras que, quando tenho de tomar a iniciativa, fico tão desajeitado como um rapazinho imberbe no seu primeiro dia. Deve ser por causa disso que não consigo arrancar à Isilda mais do que suspiros de alívio, da mesma maneira que não consigo arrancar a Beatriz da minha cabeça. Ultimamente, ela tinha decaído um pouco, já não se empenhava tanto em trabalhar a matéria que eu despojadamente lhe oferecia. A obsessão da maternidade estiolava a sua genealidade, os anseios de uma pacata e burguesa vida familiar estavam a desvanecer o encantamento picante da nossa relação, mas eu ainda tenho esperança de recuperar a minha antiga vida, não consigo imaginar-me reduzido à lassidão enfastiada da Isilda quando abre as pernas para me receber e às enxaquecas de recurso que pretexta para dar espaçamento às nossas actividades de alcova. Meu Deus, como a vida é complicada! Estava tudo tão equilibrado entre as minhas duas vidas, tinha conseguido construir uma empolgante existência dupla sem alterar a rotina que me é tão cara e, de repente, parece que se abriu uma janela deixando entrar rajadas ameaçadoras contra as quais não tenho energia para lutar. Apetece-me recuar no tempo, voltar à minha infância quando, no Carnaval, mascarado de Super-Homem imaginava que era invencível e sonhavam atravessar os céus em missão de salvamento da Humanidade. Já então me refugiava na puerilidade extravagante dos sonhos para colmatar a falta de iniciativa e ultrapassar a ausência de uma vontade robusta. Agora percebo por que razão, ano após ano, eram infrutíferos os esforços da minha mãe para me fantasiar de outra maneira. Sob a capa do homem voador, eu perdia todos os medos, afastava o pavor do desconhecido, não receava o desafio do inesperado. Pelo menos uma vez no ano, sabia lidar comigo mesmo.

Nos braços da Beatriz, eu fui encontrar um vigor que julgara inatingível, ela devolveu-me a confiança e a virilidade que, no meu íntimo, considerava enfermas pela esterilidade dos meus espermatozóides. O casamento com a Isilda mais não fizera do que adensar os pavores e avolumar as dúvidas de uma infância mal gerida. As fantasias da Beatriz foram a panaceia para as minhas debilidades, era como se eu tivesse voltado a vestir a capa do Super-Homem dos meus tempos de menino.

Dia após dia, juro a mim próprio que vou resolver o problema com a Beatriz, todos os dias expresso mentalmente o mesmo propósito - É hoje, hoje vou resolver o problema com a Beatriz, não passa de hoje, assim que chegar ao serviço vou ter uma conversa muito séria com ela . O problema é que mal cheguei ao serviço, já tinha em cima da minha secretária uma folha de bloco com as garatujas do Chefe de Divisão - Sr. Raúl Freitas tenho urgência em falar consigo, venha ao meu gabinete imediatamente . Lá estava ele à minha espera, sentado à secretária todo emproado, fazendo girar, alternadamente para a direita e para a esquerda, a sua cadeira preta de espaldar alto onde recostava, em atitude de estudada negligência, a cabeça de cabelos lisos, puxados para trás e crivados de gel. Imaginei-o todas as manhãs mordendo a língua enquanto, aplicadamente, de pente em riste, se entregava à árdua tarefa de transformar uma trunfa eriçada e rebelde num penteado convencional de executivo de sucesso. Imbecil presumido! Tudo nele é estudado, não tem uma única atitude espontânea, passa a vida a representar o papel de homem seguro, confiante, auto-suficiente, mas na realidade é um timorato com a cabeça povoada de fantasmas. O que eu daria para poder uma vez na vida esmurrar aquela boca desdenhosa que parece estar sempre a arremessar-me com a sua forçada sobranceria de ressabiado - Eu sou o filho do Marques, mas subi na vida enquanto tu és um medíocre que nunca passou da cepa torta . Ora, que grande coisa! Ser Chefe de Divisão num serviço da Administração Pública. No fundo, também ele é um falhado. Cursou Direito como o pai tanto desejava, mas não conseguiu ingressar na magistratura judicial, como tinham sonhado pai e filho: "É o que lhe digo Dr. Freitas, se o meu rapaz conseguir fazer o curso de Direito, e vai conseguir se Deus quiser, há-de seguir a carreira de juiz, sabe que o rapaz tem mesmo vocação para aquilo, desde pequeno que pende para tudo o que tem a ver com tribunais, sempre que a televisão passa filmes com julgamentos é vê-lo ali todo atento, até parece que bebe as palavras do juiz, eu já o estou a imaginar a bater com o martelinho e com aquela cabeleira ... ", "Ó Marques, os juizes portugueses não usam cabeleira, isso é acessório que faz parte da indumentária dos ingleses". O Marques pareceu um tanto desiludido: "Á, não usam? Mas usam aquelas vestes pretas, a sotaina ou lá o que é, não usam Dr. Freitas?", "Usam, mas não se chamam sotainas, chamam-se becas, os padres é que usam sotainas", "O Sr. Dr. lá sabe essas coisas, também não é para admirar, tem estudos e eu não", "Não é só isso, o meu pai era juiz". O Marques fez um ar de espantada comiseração: "Admira o Sr. Dr. não ter seguido a mesma carreira, o seu pai deve tir tido muita pena, ainda se o neto ... mas o Raúlzinho não tem vocação para o estudo, é uma pena!" e o meu pai que já não sabia o que é que o exasperava mais - se as boas notas do filho do Marques ou a fraqueza das minhas - respondeu desabridamente: "Olhe Marques, essa ideia de que os filhos são seguidores do percurso dos pais é completamente absurda. Se assim fosse, o seu filho estaria condenado a um lugarzinho de oficial administrativo como você". O Marques engoliu em seco, mal disfarçando o despeito e a humilhação suscitados pelo comentário do meu pai: "Infelizmente os meus pais não tiveram posses para me porem a estudar, mas com o meu Rogério não vai ser assim, não sou rico, mas o que tenho dá para ele se doutorar ". O filho do Marques conseguiu o almejado canudo e o pai derramou lágrimas de comoção ao vê-lo de braço no ar sacudindo freneticamente a pasta recheada de fitas vermelhas naquela festa tão linda onde se juntou a estudantada toda , como ele não se cansava de repetir.

Apesar do diploma, o Rogério Marques não deixa de ser um fracassado. Não conseguiu o seu lugar na jurisprudência, não conseguiu o desejado martelinho e, na ausência de réus a quem impor a sua autoridade de julgador, aqui estou eu para alancar com o peso das suas expectativas defraudadas: "Os mapas do pessoal apresentam várias discrepâncias relativamente aos do ano passado, tem de reformulá-los". Com as orelhas em brasa, interrompi-o: "Houve aposentações, transferências para outros Organismos ... ". Ele não me deixou prosseguir e atalhou abruptamente: "Se houve alterações, deveria ter anexado uma nota justificativa devidamente fundamentada, mas confirma-se a minha opinião a seu respeito - iniciativa não é o seu forte". Estendeu-me os mapas com um simulacro de sorriso tão desdenhoso que me deu ganas de apoiar as mãos na sua nuca luzidia e ... zás! Esborrachar-lhe a fuça no tampo da secretária. Em vez disso, segurei as folhas de papel, rodei sobre os calcanhares e dirigi-me para a porta, mas antes de ter conseguido alcançar a maçaneta ainda fui matraqueado pelo comando irritante da sua voz agastada: "Preciso disso pronto até às onze e meia. Às doze tenho uma reunião com o Director de Serviços". Saí sem me dar ao trabalho de responder e fui direito à minha secretária para onde atirei, enraivecido, as folhas de papel enquanto remordia, entre dentes, impropérios contra o sacana do Chefe de Divisão . Sentei-me com estrondo ignorando, deliberadamente, o Semedo que me olhava de esguelha ansioso por saber o que se passara. Tentei concentrar-me na elaboração da nota justificativa, continuando a ignorar o olhar inquisidor do Semedo e o pigarrear da sua garganta que mais não era senão a tentativa infrutífera para captar a minha atenção. Mas ele era tudo menos discreto e acabou por abordar-me com o assunto do costume: "Pst ... ouve lá, pá, já resolveste o problema com a Beatriz?" e perante o meu encolher de ombros: "Não te fiques assim, olha que o tempo passa num instante e - fez estalar os dedos - quando damos por ela, já não há nada a fazer, arranja um filho, ninguém te pode levar a mal, casamento com mulher que não pode procriar está condenado à partida, falta o principal, um lar sem filhos é como um corpo amputado", "Ó Semedo, neste momento não estou minimamente interessado na procriação, já me basta estar de cabeça cheia com a porra dos mapas do pessoal, esse merdas do Rogério Marques quer isto pronto até às onze e meia, parasita de merda!Não sabe fazer a ponta dum corno, mas dá-se ao luxo de criticar o trabalho dos outros". Com olhar atento sobre a porta, o Semedo sussurrava: "Fala baixo, pá, dizem que o gajo costuma escutar atrás das portas", resmunguei: "Não admira, com aquele ar de ratazana dos canos ... o sacana tem todo o estilo de bufo".

Apodar o Chefe de Divisão com impropérios, aliviava-me a tensão nervosa, mas não dava corpo à tarefa que tinha pela frente, por isso, meti mãos à obra e concentrei-me na nota justificativa devidamente fundamentada que a ratazana iria apresentar ao Director de Serviços com mesuras de serviçal: "Aqui tem Sr. Director, como poderá verificar, anexei uma nota justificativa devidamente fundamentada, pois verifiquei haver alterações de vulto relativamente ao ano transacto".



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Terça-feira, 15 de Novembro de 2005

GENTE COMO TU E EU - III, 4

4. RAMIRO

Cheguei a casa aos tropeções depois de ter desabafado as mágoas com a Sidónia no cafá do Araújo. Quando tentava encontrar a porta do meu quarto, dei de caras com o Licínio que me agarrou com energia e me orientou até à cama onde me deixou estatelado, com um suspiro de alívio. Ainda o ouvi dizer: "Ó homem, em que estado você vem!". Não me lembro de mais nada, mas no dia seguinte ele contou-me que felizmente estava acordado, o que foi uma sorte porque pôde evitar que eu errasse a porta e entrasse no quarto da D. Etelvina. Tentei parodiar com a situação, mas no fundo sentia-me envergonhado por ter aparecido naquela figura diante dele. Comecei por dizer umas chalaças, mas acabei por lhe contar tudo - a história da Zulmirinha, a tristeza que eu sentia por causa daquele fim tão trágico e a desolação daquele funeral. O Licínio deixou-me falar à vontade e quando acabei deu-me uma palmada no ombro e disse: "O fim é sempre triste, Ramiro, mas olhe que às vezes é mais difícil viver. Essa desgraçada já não tinha nada a esperar da vida, só sofrimento". Ele até tinha razão, mas o que eu achava mais triste era uma pessoa abalar deste mundo daquela maneira, amaldiçoada pelo irmão que até se mostrava aliviado por a ver metida naquele buraco fundo: "A história já é velha, Ramiro, quando o cão é sarnento todos lhe atiram pedras. Há pessoas que são mesmo assim e olhe que não são poucas, só estão presentes nos bons momentos, nas horas adversas calcam-nos com a bota em cima. Esse homem toda a vida deve ter sentido vergonha pelo facto da irmã ser prostituta e nunca pensou em lhe deitar a mão, mas apareceu agora na esperança de colher algum daquele que ela ganhou à custa das vergonhas que lhe fez passar, só que as contas saíram-lhe furadas. Até tem a sua piada, involuntariamente foi uma partida que a Zulmirinha pregou ao irmão".

Gostei de ouvir o Licínio. Nunca o julguei capaz de falar desta maneira, sempre o achei um rapaz frio, virado lá para as coisas da Biologia e sem interesse pelos sentimentos das pessoas. Ainda por cima, criado em Lamego e com padres na família porque a padralhada fala muito no perdão dos pecadores, mas quando se trata de pôr em prática a caridade cristã a história muda de figura. O padre lá da minha terra até se recusava a acompanhar os funerais daqueles que não morriam em estado de graça . A D. Etelvina que é boa mulher, mas cheia de preconceitos, diz que ele tinha muita razão porque quem viveu sempre de costas voltadas para Deus e morreu sem ouvir a sua palavra também não merecia ser acompanhado por um dos seus ministros na Terra . Neste aspecto, estamos sempre em desacordo porque o padre é um homem como os outros, não é Deus para poder avaliar quem é que morre em estado de graça: "Imagine, D. Etelvina, que alguém se arrepende dos pecados nos seus últimos momentos e já não está em estado de se manifestar? Quem é o padre para decidir quais são aqueles que merecem ser perdoados?", "Deus se encarregará de decidir se ele merece ou não ser perdoado, mas o sacerdote não pode adivinhar o que vai no pensamento dos outros e está no seu direito de não acompanhar aqueles que, em vida, sempre renegaram Deus e recusaram os preceitos da Igreja". Eu acredito em Deus, mas essa história de Céu e Inferno é que não se encaixa muito bem na minha maneira de ser porque, se pensarmos bem, no Inferno estamos nós enquanto andamos cá na Terra. Será que depois de andarmos por aqui a penar tanto tempo, Deus ainda tem coragem de pespegar com as nossas alminhas no Inferno? E há ainda a história do Purgatório. A minha velha costumava dizer que raro é aquele que antes de ir para o Céu não tem de passar primeiro pelas penas do Purgatório e, por isso, ela rezava tanto pelas alminhas que lá estavam.

O Licínio teve educação religiosa e tem dois tios padres, mas o estudo da Biologia deve-lhe ter dado volta ao miolo porque as ideias dele a respeito de Deus são diferentes de tudo o que tenho ouvido. O Licínio e as suas ideias andam a baralhar o esquema todo que eu tinha encaixado na mona. Aquilo que ele diz sobre as nossas origens e a criação de outros Mundos, dá que pensar, são coisas muito complicadas, era bem mais simples descender de Adão e Eva e viver num Mundo onde Deus olhasse por nós. Assim já não sei o que pensar, nem no que hei-de acreditar. A D. Etelvina põe tudo nas mãos de Deus Ele castiga quando deve e perdoa quando entende . O Licínio é de poucas falas e, em geral, não entra em discussões destas, mete-se no quarto a marrar nos livros ou então junta-se com os colegas na casa dum e doutro para prepararem os trabalhos lá do curso, mas desta vez botou cá para fora as suas ideias: "Ora, D. Etelvina, eu não sei se Deus existe ou não, mas caso exista, está acima de tudo e de todos, vela pelo equilíbrio e mantém a harmonia do Universo enquanto nós somos como formiguinhas que habitam uma parte minúscula desse Universo, o nosso planeta não é mais do que um grãozinho de areia perdido na imensidão do espaço. Somos tão pequenos que o olhar de Deus nem consegue alcançar-nos. Eu recuso-me a imaginar um Deus à nossa escala, observando tudo o que fazemos, somos demasiado insignificantes para que Ele se aperceba da nossa existência".

A D. Etelvina ficou apavorada ao ouvir tamanho desmando - um Deus que não dava conta dos nossos actos, nem atendia as nossas necessidades?! De mãos postas em direcção ao Céu, temendo talvez que ele lhe caísse em cima, exclamou vermelha de indignação: "Ó Licínio, isso é uma blasfémia! Como é que você pode dizer que Deus não nos vê? Deus está em toda a parte, vela por nós e dá conta de todas as acções que praticamos, as boas e as más, ninguém escapa à justiça divina". O Licínio alargou os braços e respondeu: "Que grande livro Ele teria de ter para registar todos os pecados da Humanidade!", "E a alma? Também não acredita na alma? Será que você é daqueles que pensam que tudo acaba com a morte e não há castigo nem recompensa?", "A morte é a passagem de um estado para outro, a matéria decompõe-se e as partículas partem para outras formas de vida, transformam-se noutros elementos da Natureza". Mas a fé da D. Etelvina não se deixa abalar: "Isso é a matéria, mas a alma, a alma é imortal e é isso que nos distingue dos outros animais", "O que nos distingue dos outros animais é o facto puramente acidental de termos evoluído de forma diferente, a alma é a invenção arrogante de quem rejeita as suas próprias origens, quer queiramos quer não, os nossos antepassados mais remotos soltavam grunhidos e andavam de quatro". Esta foi demais. De cabeça bem alçada e o dedo esticado na direcção do herege , ela exclamou: "Olhe Licínio, se você quer descender do macaco é lá consigo, que lhe faça muito bom proveito, mas eu não! Sou um ser humano criado por Deus, à sua imagem e semelhança, com as imperfeições de todo o ser humano, mas capaz de escolher entre o bem e o mal, é essa a liberdade que Deus nos deu e que muitos não sabem usar". O Licínio podia ter ficado por ali, mas não, tinha-se-lhe soltado a língua e até parecia que sentia prazer em espicaçá-la: "Ora aí está uma coisa que eu não entendo - por que razão um ser perfeito iria criar uma obra imperfeita? Só encontro uma explicação, Ele criou-nos num dia em que estava de mau humor, o que não se admite, um ser perfeito só deveria produzir obras perfeitas. Seria um sossego para nós e para Ele". Antes que ela tivesse tempo de lhe responder, levantou-se, deu-lhe uma palmadinha no braço e acrescentou: "Com esta me vou, amanhã tenho uma prova e ainda quero estudar qualquer coisa antes de me deitar, reze por mim já que eu não posso". E lá se fechou no quarto.

Numa coisa o Licínio tem razão. Se tudo foi criado por Deus, se é Ele que comanda tudo e que orienta as nossas vidas, não tem feito lá grande trabalho. Este mundo anda na maior das embrulhadas, uns fazem rebentar guerras em tudo o que é sítio, outros espalham gases para a atmosfera e envenenam rios, se Deus foi o Criador de tudo, não devia consentir que os homens destruíssem a sua obra. A Sidónia diz que é melhor eu não pensar nestas coisas porque não vou chegar a conclusão nenhuma e ainda posso dar em maluquinho: "Vai por mim Miro, não penses nessas coisas complicadas de Deus e do Mundo porque por muito que penses, nunca vais entender nada, são mistérios, homem, são mistérios, os espertos estudam, estudam, põem-se para aí com invenções de que o mundo começou assim e assado, mas bem sabem eles como é que foi!". A velha é capaz de ter razão porque as explicações do Licínio também não me convencem muito, ele fala do princípio das coisas como se tudo tivesse acontecido num grande caldeirão onde chocalhava um caldo desatinado sem forma nem sentido para, de repente, estoirar em todas as direcções espalhando e juntando poeiras ao acaso até formar este Mundo e os outros Mundos que ninguém conhece. Claro que isto é a minha maneira de falar porque o Licínio usa outros termos, emprega umas palavras que eu não consigo repetir, mas isso não quer dizer que não tenha percebido o suficiente para chegar à conclusão de que estamos perdidos e isolados na enormidade do espaço: "Ó Sidónia, tu sabias que a Terra anda a flutuar no meio de pedregulhos maiores que cidades? Se calha haver um choque ... pfuuu! Vai tudo para o maneta, acaba-se o Mundo", "Deixa lá que também não se acaba grande coisa, mas enquando dura vai-se comendo e bebendo, principalmente bebendo. A propósito de bebida, não pagas qualquer coisa aqui à tua amiga que está cheia de securas?", "Mete a boca na torneira que isso passa, "Estás a ficar muito soberbo desde que acompanhas com esse tal estudante", "Tu é que estás a ficar muito abusadora, pensas que isto é algum poço sem fundo?Nesta altura do mês, já só dá para beber fiado", "Fiado ou não, ele escorrega bem de qualquer maneira, só que a mim ninguém fia a ponta dum corno". Quando quer e quando precisa, a Sidónia consegue tocar o coração duma pessoa, dar de beber a quem tem sede é uma obra de caridade, não está escrito se é água ou vinho. Levanto o braço na direcção do balcão: "Ó Filó, serve aqui a Sidónia e põe na minha conta". Ela lançou-me um olhar que tinha tanto de agradecido como de matreiro: "Obrigada Miro, és um santo, estava tão precisada deste alento, ainda há bocado tive uma tontura que vi tudo baldeado à minha volta, faltaram-me as forças e foi a falta disto - ela batia com o dedo no copo - dizem que faz mal, mas pela parte que me toca, o que me faz mal é vê-lo longe, pode fazer mal a alguns, mas para mim é meio sustento, não há melhor vitamina", "Ó Sidónia, tu és uma velha podre de feia, mas até tens umas ideias que são de aproveitar, ali a doutora da farmácia bem pode mudar o cartaz que tem na montra, em vez do frasco das vitaminas põe lá um pipo de vinho com esta frase por baixo - Deixe as drogas dos comprimidos e meta-se nos copos que é mais saudável ". Eu ria, mas ela, pelo contrário, estava muito séria e, levantando um dedo sentenciou: "Não te vás sem resposta que o meu pai que Deus tem só foi numa vez ao médico e nunca mais lá voltou porque ele lhe receitou uns comprimidos e disse - Você vai tomar estes comprimidos, mas enquanto durar o tratamento não pode beber . O que ele havia de ter dito! O meu pai deixou lá a receita e respondeu ao médico - O Sr. Doutor vai-me desculpar, mas isso não é tratamento para um homem de trabalho, eu posso passar sem os comprimidos, mas sem a pinga é que não aguento . Nunca mais foi ao médico e morreu cheio de saúde", "Cheio de saúde, mulher? Se tivesse cheio de saúde não tinha morrido!", "Cheio de saúde, sim, meu palerma, morreu de velhice, quem em novo não vai de velho não escapa, o homem não podia ficar cá para semente, mas que foi rijo e são até chegar a sua hora, isso é que ele foi!". Não sei porquê veio-me à lembrança a Zulmirinha, tão escanzelada, com aqueles olhos esbugalhados, o queixo bicudo e a boca mirrada pela falta de alguns dentes. A Sidónia não gosta que eu fale nela: "Xô, xô! Cala essa boca, deixa os mortos descansados que eu não os quero por cá a apoquentarem-me", "Ó mulher, os mortos não fazem mal a ninguém, "Mas andar a chamar por eles, também não dá saúde nenhuma - e aponta para o copo - isto sim, isto é que dá saúde, vê lá como eu estava toda azamboada, tinha a cabeça a rodar que nem um cata-vento e assim que esta pinga abençoada escorregou cá para dentro, fiquei como nova". A Sidónia é uma velha sabida, não se importa de falar no pai, na mãe e, às vezes, até fala no defunto que lhe ia às trombas, mas quando se trata da Zulmirinha fica toda arrepiada: "Ouve lá, Sidónia, tu tens medo que a Zulmirinha te venha cá apoquentar? Andavas sempre a dizer mal dela, não é? E agora tens medo". Ela estremeceu: "Eu nunca disse mal dela, dizer a verdade não é dizer mal, ou és capaz de negar que ela foi sempre uma grande pu ... abrenuncio!Não se fala mais nela e pronto, paz à sua alma para onde quer que tenha ido".

Fazendo fé nas teorias do Licínio, os restos da Zulmirinha espalharam-se por aí, se calhar até andam por cima das nossas cabeças sem que a gente dê por isso. O monte de ossos que a pele mal segurava ficou lá no buraco escuro, mas deve realmente haver em nós qualquer coisa que se liberta dos restos condenados à podridão, faz-me bem pensar que assim seja, fazia algum sentido vir a este mundo para acabar tudo com uns palmos de terra em cima? Se fosse assim, não havia nada que me destinguisse dos rafeiros lá da rua e dos gatos da Sidónia. A D. Etelvina deve ter razão quando diz que somos um produto de Deus e se Ele nos criou é porque tem algum destino para nos dar, ninguém se dá a tanto trabalho para nada, não fazia sentido. Se virmos bem, tudo na Natureza tem a sua utilidade, o homem encarregou-se disso, ora por que razão iria Deus criar o homem se não tivesse um destino a dar-lhe? Não sei o que será, mas que Ele deve ter alguma coisa em mente, lá isso deve. É bom acreditar que assim seja porque é bastante triste não avistar mais nada para além do fim e daquele buraco escuro para onde nos atiram à pressa.



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Domingo, 13 de Novembro de 2005

GENTE COMO TU E EU, III, 3

3. FERNANDA

É a primeira vez que o Sr. Fulano de Tal não abriu o seu precioso livro. Parece muito acabrunhado e, ainda por cima, de óculos escuros num dia tão pardacento. Será para esconder algum olho esmurrado? Terá sido a mulher ou a amante? Será que a menina é casada e o marido descobriu que andava a partilhar a mulher com outro? Meu Deus, já pareço a alcoviteira da minha vizinha do lado! Nem sequer sei quem era a mulher que estava com ele no restaurante. As suposições da Judite é que me induziram a pensar que se trataria da amante, mas tirando o facto de ter havido entre eles uma discussão, nada mais sei sobre aqueles dois. Provavelmente, o homem está com um conjuntivite e eu com esta encenação folhetinesca de drama passional barato. Não, conjutivite não deve ser, está com a cabeça descaída como se tivesse adormecido. Segunda hipótese: Uma noite mal dormida. Os óculos escuros destinam-se a encobrir o inchaço dos olhos e, ao mesmo tempo, pode passar pelas brasas sem dar nas vistas. Uma noite mal dormida, porquê? Preocupações familiares ou um Domingo de arromba que se prolongou pela noite fora? Caramba, lá estou eu outra vez, isto já se está a transformar numa obsessão. Com tanta gente dentro deste autocarro, por que será que só aquele indivíduo é que desperta a minha atenção? O meu horóscopo diz que esta semana vou estar sob a influência de uma forte tensão de Júpiter o que promete boas perspectivas de um relacionamento harmónico com o sexo oposto. Talvez seja esta a minha grande oportunidade, o fulano adormeceu e como estamos quase a chegar à paragem eu, gentilmente, toco-lhe no braço e acordo-o. É simples, é discreto e até pode ser que resulte. Santo Deus! A Judite tem razão, tenho de deixar de ler o horóscopo. Em todo o caso, acredite-se ou não no horóscopo, com tensão de Júpiter ou sem ela, acho que devo acordar o homem, não vá ele parar ao fim da linha sem dar por isso: "Olhe, o senhor desculpe, não é aqui que costuma sair?". Não sei se o abanão foi muito forte, mas o que é certo é que ele acordou bastante sobressaltado, devia estar mesmo pegado no sono: "Uuum! O que foi? Á, a paragem! É aqui mesmo, obrigado minha senhora, adormeci, que estupidez, nunca me tinha acontecido". Apesar da atrapalhação, tem uma voz agradável, quente, profunda. Incomoda-me um pouco a história dos óculos escuros, não poder sentir-lhe o olhar. Dizem que os olhos são o espelho da alma, não será exactamente assim porque se fosse, não haveria tanta gente atraiçoada neste mundo, mas, em todo o caso, gostaria bem de lhe sentir o olhar, mesmo com os olhos empapuçados por uma noite mal dormida. O horóscopo pode ser uma balela, uma imbecilidade, uma alienação destinada a alimentar os sonhos de seres insatisfeitos e inseguros, mas eu desejo ardentemente que o signo dele não esteja sob uma influência desarmónica de Saturno, de Urano ou de qualquer outro astro que entre em rota de colisão com o meu Júpiter.



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Quinta-feira, 10 de Novembro de 2005

GENTE COMO TU E EU - III, 2

2. RAÚL

Aquele Domingo em casa dos pais da Isilda não foi melhor nem pior do que é costume. A minha cunhada estava exuberante como sempre, produzida da cabeça aos pés, como se estivesse naquele almoço, em família, apenas de passagem para qualquer outro evento social mais exigente em matéria de imagem. Não sei se ela se aprimora tanto para realçar os seus atributos de mulher vistosa ou para salientar o facto de ter arranjado um marido que ganha mais do que o marido da irmã, o qual, além de não lhe ter proporcionado os prazeres da maternidade, também não lhe pode proporcionar os prazeres de uma vida financeiramente desafogada. O meu cunhado, um alarve de punhos largos e estômago dilatado, é proprietário de um bem sucedido negócio de ferragens e não perde uma única oportunidade de realçar as suas qualidades empresariais e o papel que o sector da economia privada representa na sociedade, contrapondo-lhe sempre o parasitismo estagnador (verdadeiro cancro de uma sociedade que se quer moderna e competitiva) dos serviços prestados por aqueles que nada produzem limitando-se a roçar o rabo pelos assentos da Administração Pública. Uma estrondosa gargalhada e uma forte palmada nas minhas costas, logo seguidas da frase apaziguadora: "Ó Raúl, não quero dizer que seja o teu caso, tu se calhar até fazes parte da meia dúzia que trabalha, mas há que reconhecer que a maior parte desses gajos só lá anda a chular o dinheiro dos nossos impostos".

Além dos dichotes grosseiros do meu cunhado, aquele Domingo em família ainda me reservava outras provações que eram as investidas selváticas dos filhos dele - um fedelho com oito anos que se comporta como um tiranete chantagista, a quem o avô faz as mais incríveis cedências, e uma garota de cinco anos que passa o tempo a vestir e a despir Barbies com espampanantes roupas fluorescentes e que solta gritos estridentes à minima contrariedade. Com a total complacência dos pais, dos avós e da própria tia, tornaram-se uns pequenos monstros que saltam por cima dos sofás, arrastam e pontapeiam móveis, derrubam jarras e atacam as gavetas das guloseimas, deixando por todo o lado um rasto peganhento a que não escapam os estofos das cadeiras, os cortinados e as nossas próprias roupas. Às vezes ainda me arrisco a dizer: "Não há ninguém que saiba dar um bocado de educação a estas crianças?". Os meus sogros olham-me de esguelha e, embora não digam nada, adivinho o que estão a pensar: "Como não tens filhos teus, detestas os dos outros"; o meu cunhado não se faz rogado e atira sem contemplações: "Ouve lá pá, o que é que tu sabes de garotos?Nunca foste capaz de fazer nenhum!"; a minha cunhada puxa para ela os dois anjinhos como que a querer protegê-los do lobo mau e sentencia: "Quem não tem filhos, sabe sempre educar muito bem os filhos dos outros"; a Isilda, em vez de me dar razão, alia-se aos outros: "São crianças, não podem comportar-se como adultos, as crianças são mesmo assim".

O almoço, arroz de tamboril, estava óptimo porque a família da minha mulher é intragável, mas, em compensação, a comida lá em casa é sempre boa e, quando o tacho fumegante foi colocado no meio da mesa, os adultos, esfregando as mãos, soltaram exclamações de regozijo enquanto os garotos berravam que não gostavam de peixe , logo sossegados pela minha sogra: "A avózinha já sabe que os meus tesourinhos não gostam de peixe, mas como a avózinha é amiga, fez bife com batatas fritas para as minhas riquezas ". Os tesourinhos berraram ainda mais alto, mas desta vez de alegria, bateram palmas, entornaram a coca-cola e atiraram-se às batatas fritas, com uma voracidade canina, retirando-as da travessa à mão-cheia, suavemente repreendidos pela mãe: "Ó filhotes, mas que maneiras são essas? Vamos lá portar como deve ser. Se comerem tudo direitinho, com muito juizo, depois do almoço a mamã leva-os ao shoping e compra-lhes uma prenda, tá ... ? "

Depois do almoço, a minha sogra e a Isilda foram arrumar a cozinha, a minha cunhada esgueirou-se estrategicamente para o Centro Comercial com o pretexto de cumprir a promessa feita aos tesourinhos . Irá aparecer três horas mais tarde com outro batom para ela, com uma daquelas massas gelatinosas que é suposto ser um brinquedo, mas que só serve para o garoto arremessar de encontro às paredes ou a tudo o que lhe aparecer pela frente e com um conjunto de escova, pente e rolos para a garota arrepelar os cabelos da Barbie. Enquanto o meu sogro adormece no sofá, o meu cunhado, na sua qualidade de benfiquista, tenta espevitar-me com observações maldosas e chocarreiras sobre a trepa que o Sporting irá levar nesse dia para não perder o hábito . Noutra ocasião, estes comentários ter-me-iam acirrado os ânimos, mas desta vez só me provocaram calafrios porque me trouxeram à memória a imagem da Beatriz que eu imaginava naquele momento, sozinha no seu apartamento, cheia de ódio, magicando vinganças e gritando impropérios. Depois da cena do restaurante não voltei a falar com ela, dizendo para comigo que o tempo se encarregaria de arranjar uma solução para o nosso problema, ou antes, o problema dela porque pela parte que me toca nunca chegou a haver problema. Não tivesse ela entrado nesta crise existencial que lhe está arrasando os nervos e a nossa relação continuaria a navegar em águas mansas em vez deste turbilhão cheio de sobressaltos e de cenas patéticas. Eu bem tento, mas não consigo pensar noutra coisa e, no meio da algaraviada do meu cunhado, levantei-me abruptamente e dirigi-me para a porta com uma desculpa atabalhoada: "Vou à rua comprar tabaco". O outro deve ter pensado que aquilo era desagrado por causa dos comentários acerca do meu clube e ficou lá de boca aberta enquanto eu batia com a porta. Fui até ao fundo da rua, dobrei a esquina e distanciei-me o suficiente para me livrar de olhares e ouvidos indiscretos. Liguei para a Beatriz, mas foi em vão, ela não atendeu. Deambulei durante meia hora para acalmar aquela sensação de sufoco que me oprimia o peito tentando distrair-me com o movimento no jardinzito lá do bairro, onde os casais de namorados exibem os seus amores encavalitados uns nos outros, o que é louvável em termos de economia de espaço, dado que os bancos não abundam no jardim e sempre sobra lugar para qualquer velhote necessitado de repousar as pernas trôpegas e que não se sinta ofendido com o reboliço contorcionista de pernas, braços e bocas de um qualquer casalinho que ostenta sem pejo as suas vertigens amorosas.

Quando regressei, a cozinha já estava arrumada, o meu sogro ainda dormia, o meu cunhado de pernas esticadas e a camisa desabotoada quase até ao umbigo, deliciava-se com o Rambo III que passava na televisão pela décima ou vigésima vez e a Isilda ajudava a mãe a transportar para a sala pratos com salgados, sandes e doces que a minha sogra preparara para o lanche porque os tesourinhos quando chegassem da sua incursão ao Centro Cormecial viriam esgalgados com fome. Mal cheguei, o meu cunhado exclamou com um sorriso malicioso: "Demoraste, pá! Já estava a pensar que tinhas feito como o outro que saíu para comprar tabaco e nunca mais voltou". Fez uma pausa esperando uma reacção da minha parte que não chegou, a piada era tão estafada que nem dava para um esboço de sorriso. Seguiu-se o comentário venenoso do costume: "Tenho-te a comunicar que o Sporting já está a perder". Apeteceu-me esmurrá-lo e partir-lhe quantos dentes tinha naquela boca escancarada que ria aos solavancos, fazendo estremecer a barriga meia descomposta e atulhada de arroz de tamboril.

Quando soou a hora do lanche, pai e filhos grudaram-se na mesa atirando-se à comida com uma tal sofreguidão que faria inveja a qualquer alcateia de lobos esfaimados. A minha cunhada, mais comedida e preocupada com a linha, debicava pequenas tostas dietéticas com pedacinhos de queijo, cujo rótulo garantia terem apenas 30% de gordura. O marido teimava em meter-lhe pela boca dentro uma colherada de bolo coberto de natas e, perante a resistência dela, exclamava: "Ó mulher, come! Põe os olhos na tua irmã toda roliça, uma mulher torneada tem outro encanto" e virando-se para mim: "Que isto não te pareça mal, ó cunhado! Eu respeito a Isilda como uma irmã, nada de confusões, mas o meu forte nunca foram mulheres magras. Quando conheci a Matilde, ela era bem mais cheia, mas depois começou a dar-lhe para as dietas, deve ser para imitar essas top model mortas de fome que andam a passar modelos todas desengonçadas. Eu farto-me de lhe dizer que não há nada que chegue a uma mulher de rabo grande e com um bom par de mamas, sim porque um homem gosta de ter onde se agarrar, mas a televisão estraga tudo quando nos mete pela casa dentro aquelas escanzeladas embrulhadas em roupas que ninguém veste!". A Isilda, apesar dos elogios do cunhado, não parecia lá muito lisonjeada com as alusões às suas formas roliças porque, no fundo, sempre invejara as figuras esculturais divulgadas pelas capas das revistas e as beldades loiras que enchem os ecrãs das televisões anunciando sabonetes. Por seu lado, a Matilde também não parecia nada satisfeita com os comentários demolidores do marido sobre a esbelteza da silhueta que mantinha à custa de tantos sacrifícios e que via confrontada de forma tão negativa com a figura bojuda da irmã, mas preferiu deixar o assunto sem resposta e virar-se para a filha que tinha a boca atafulhada de pudim: "Mariana, não enchas a boca dessa maneira e já chega de doces por hoje!", "Só faltava essa! Deixa a garota comer à vontade ou também queres pô-la a dieta?", "Olha Zé Pedro, tu cala-te porque eu já não estou com paciência para te aturar, a garota já comeu demais e não quero que a minha filha se transforme num texugo sem forma nem feitio!". A garota não gostou que a mãe lhe tirasse da frente uma taça com mousse de chocolate e desatou aos berros: "Eu quero provar a mousse, eu quero provar a mousse!". O irmão deitou-lhe a língua de fora e , enquanto batia com as mãos na mesa, cantarolava: "Vais ficar uma texuga, vais uma texuga, vais ficar uma texuga ...", logo admoestado pelo pai que lhe impôs silêncio enquanto consolava a filha que continuava a berrar, já não por causa da mousse de chocolate, mas porque não queria ficar uma texuga : "É mentira fofinha, o Pedro Nuno está só a brincar contigo, a minha menina vai ser sempre muito linda, o papá é que sabe".

Restabelecida a concórdia, viveu-se um período de acalmia, conversou-se sobre umas tantas banalidades, mas quando alguém fez alusão ao Carnaval que estava próximo e a Matilde se pôs a descrever as máscaras que estava idealizando para os filhos, os ânimos voltaram a exaltar-se porque os garotos estavam em total desacordo com as opções da mãe. Esta queria o rapaz fantasiado de Pagem - como o que estava na montra da loja em frente - enquanto ele garantia que nem amarrado iria usar aquele calção tufado e os collants de maricas , afirmando peremptoriamente que ou se vestia de Batman ou não vestia máscara nenhuma . A garota tinha a máscara escolhida pelos pais desde as férias do Verão que eles passaram na Holanda, donde trouxeram um traje completo de holandesa já a pensar no Carnaval, mas a miúda não gostava do fato e muito menos das socas que lhe transtornavam o andar. Além disso, vira num dos postais que os pais trouxeram da Holanda uma velha gorda ao lado de uma vaca, com um balde de leite na mão, que estava vestida daquela maneira. Se antes já não gostava do fato, depois daquela visão campestre passou mesmo a detestá-lo e, para mais, o que ela queria era mascarar-se de princesa com uma cabeleira loira aos caracóis, diadema de pedrinhas e vestido comprido cheio de folhos, de rendas, e com mangas de balão. Assim, seguindo o exemplo do irmão, apresentou também o seu ultimato ou a roupa de princesa ou nada .

Felizmente chegou a hora de pôr termo à reunião familiar. O Domingo aproximava-se do fim e, como sempre, os meus cunhados foram os primeiros a sair. Com o pretexto de que na Segunda-feira é dia de escola e as crianças têm de ir cedo para a cama, a Matilde consegue sempre escapulir-se, deixando a mãe e a irmã a braços com as rimas de pratos e copos sujos para lavar e arrumar, já para não falar do reboliço que grassa pela casa toda - migalhas de bolo pelo chão, papéis de rebuçados espalhados por todo o lado, napperons enrodilhados, tapetes de esguelha, almofadas tombadas - marca indelével da presença destruidora dos adoráveis tesourinhos . A Isilda que na presença da irmã não tem coragem de dizer nada, assim que ela vira costas, começa logo a resmungar enquanto carrega a loiça para a cozinha esbarrando com a expressão carrancuda da minha sogra, sempre pronta a desculpar a filha mais nova porque a Matilde, coitadinha, tem muito trabalho, anda muito cansada, tem o emprego, tem os filhos, tem a casa, é certo que tem empregada, mas ela também não dá conta do recado ... . Há sempre palavras de desculpa em relação à filha preferida, à filha que lhe deu netos. À Isilda, doméstica e sem filhos, só resta limpar e arrumar o rasto de devastação deixado pelos outros. Cada Domingo em casa dos pais, torna a Isilda mais azeda, mais rancorosa e eu pressinto que grande parte desse rancor e azedume está concentrada nos meus testículos estéreis, pois tivesse eu podido engravidá-la e talvez a Matilde não gozasse de tantos privilégios e atenções no seio daquela família. O pai não é tão ostensivo na sua preferência pela filha mais nova, mas a comiseração que demonstra em relação à filha mais velha é tão humilhante e arrasadora que só contribui para lhe estimular a falta de auto estima.

No regresso a casa, apeteceu-me espicaçar-lhe o amor-próprio: "É sempre a mesma coisa com a tua irmã, come e abala, nem um prato levanta da mesa". Por incrível que pareça, a Isilda virou-se contra mim e acorreu em defesa da irmã com a mesma veemência da mãe: "A Matilde é empregada, tem os filhos, não tem a mesma disponibilidade que eu e, além disso, não me custa nada ajudar", eu voltei à carga: "Se não te custa ajudar por que é que refilas quando ela sai? Os filhos são dela, ela que limpe a porcaria que eles fazem". A resposta foi pronta e agressiva: "Como tu não tens família, não compreendes que eu tenha afeição pela minha, já que não tenho filhos, dedico-me aos sobrinhos, sempre é uma compensação e se posso ser útil, tanto melhor".

A Isilda mal-amada agarra-se desesperadamente à família (da qual pelos vistos eu não faço parte) para que esta necessite dela, cede-lhe os seus préstimos para a tornar dependente de si e, em contrapartida, essa dependência alimenta na Isilda a necessidade que ela tem de justificar a sua presença neste mundo, como se de uma missão se tratasse. Não é, contudo, uma entrega espontânea e desinteressada, é uma atitude ambígua e doentia, um dar-se toda para alimentar a sua própria existência, um abdicar da sua condição de ser autónomo para forçar a estima que não lhe oferecem voluntariamente, é a desistência de si própria para comprar o amor dos outros. Viver em função dos outros, foi a única forma que ela arranjou de ultrapassar o desamor que tem por si própria.

As divagações sobre as desventuras da minha mulher, fizeram-me esquecer as minhas próprias desventuras que não são pequenas e, só quando parei à porta de casa, realizei que no dia seguinte era Segunda-feira e que a questão inacabada com a Beatriz voltaria a atormentar-me. Deitei-me, fazendo um enorme esforço para não pensar no assunto, mas a sensação de sufoco voltara e as têmporas começaram a latejar. Tinha uma necessidade premente de descansar, mas a minha vida estava numa tal desordem que era quase de madrugada quando consegui adormecer, assolado por pensamentos alarmantes e quase desejando que, durante o sono, qualquer catástrofe se abatesse sobre o meu tecto. Mas não, o mundo não acabou, o tecto continuava no mesmo sítio e eu acordei todo amassado, como se tivesse levado uma grande tareia, os olhos papudos de mal dormido e a boca com sabor a papéis velhos. Dirigi-me para a casa de banho e tentei, debaixo do chuveiro com água bem quente, recompor a minha figura devastada.

( continua )
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Sábado, 5 de Novembro de 2005

GENTE COMO TU E EU - III, 1

1. RAMIRO

Há três dias que a Zulmirinha não aparece no café do Araújo. Perguntei à Sidónia se sabia alguma coisa, mas ela respondeu-me: "Não sei nada da vida dela, eu sou muito pobrezinha, apanho as minhas trabuzanas de vez em quando, mas nunca gostei de fazer amizade com putas, se ela fala comigo eu respondo, mas nada de grandes confianças. A última vez que a vi, estava encostada à porta da retrosaria do indiano a falar sozinha". Perguntei à Silvéria, à Esmeralda, ao Gualdino e a mais uns tantos que frequentam o café do Araújo, mas ninguém lhe sabe do paradeiro o que é muito estranho porque a Zulmirinha nunca deixou de aparecer. Até quando calha arranjar algum cliente, aparece sempre, mostrando o dinheiro fresco enquanto pede uma sandes de paio e uma cerveja.

Já pensei ir bater à porta daquela espécie de casa onde ela vive. Digo espécie de casa porque é mais o que está caído do que o que está em pé. O senhorio deve estar à espera que o prédio caia de vez, de preferência com a Zulmirinha lá dentro. Os outros inquilinos já saíram todos, uns aceitaram as indemnizações, outros preferiram ser realojados num prédio lá para os lados da Buraca, mas ela teimou em ficar. É a única moradora daquele monte de ruínas e mais tarde ou mais cedo vai ter de sair nem que seja à força, um dia destes ainda lhe metem o buldózer pela casa dentro e levam tudo de reboque. A Sidónia diz que ela é teimosa que nem uma mula e que ainda acaba por ficar na rua com os tarecos todos à volta: "Aparecem aí bem cedo e enfiam-lhe a máquina pela porta dentro, apanham-na a dormir e atiram com ela pela borda fora em cima da cama e tudo, afinal do que é que a tipa está à espera? Não lhe disseram já que tem de sair?Os outros já sairam todos!Ou ela pensa que pode lá ficar para semente?E então semente daquela, abrenuncio!". Enquanto falava, a Sidónia ria toda tremeliques, torcendo e retorcendo a boca desdentada: "Não cuspas para o ar que ele pode cair-te em cima, a barracaria do pátio também está destinada a ir toda abaixo e depois sempre quero ver onde vais meter a gataria toda que tens lá em casa" respondi. Ela ferve logo quando alguém lhe fala dos gatos: "Vão comigo para onde eu for, são os melhores amigos que eu tenho e se não poder levar os meus gatos, ninguém me arranca do pátio", "Vai ser uma coisa jeitosa no dia da entrega da chave quando fores apertar a mão ao Presidente da Câmara com os gatos em fila atrás de ti, já estou a imaginar as apresentações - este é o Malhado, Sr. Presidente, este é o Pirata, este é o Bombocas, este é o Fidalgo, este é o Calaças , não te esqueças de pôr um lacinho a cada um com as cores do emblema da cidade, dá mais sainete e o Sr. Presidente fica todo satisfeito". Tudo pode servir de brincadeira e ela alinha com todo o tipo de gozação, mas toquem-lhe no assunto dos gatos e aí a mulher fica brava, grita, insulta e só não bate porque não tem tamanho para isso: "És uma grande besta, por isso a tua mulher te trocou por outro, não tens sentimentos, só não te chamo cornudo porque, apesar de seres um grande cabrão, tenho pena de ti porque eu ainda tenho os meus meninos, os meus gatinhos, os meus companheiros, mas tu não tens nada, és um ... és um ... olha és um monte de merda com pernas" e saíu porta fora fazendo gestos e arrastando os pés ao mesmo tempo que repetia: "Um monte de merda com pernas, um monte de merda com pernas". É sempre assim quando vem à baila a conversa dos gatos, quem a quiser tirar do sério é só alvitrar que lhe vão tirar os bichos. Fui até à porta e ainda lhe gritei: "Á, é assim que me tratas, sua velha maluca! Estou a avisar-te que vais ter ordem de despejo para estares preparada e ainda me tratas mal, depois vem cá ter com o Ramiro e vais ver a corrida que levas!". Ela fez um gesto com a mão de não me chateies e continuou rua acima sem sequer se virar. Amanhã vai aparecer mansa que nem um cordeiro, agarra-se ao meu braço e implora: "Miro, Mirinho, não estás zangado comigo, pois não? Eu gosto muito de ti. Ouve lá, aquilo do pátio ir abaixo é mesmo verdade?".

A Zulmirinha não voltou a aparecer. Quando as escavadoras chegaram para começarem a demolição, encontraram a porta encostada e lá dentro estava ela esticada no chão, morta há vários dias e coberta de formigas. Não, não foi suicídio, apesar de tudo a desgraçada estava agarrada à vida. A casa estava toda revolvida, alguém entrou ali para roubar, por incrível que pareça, eram só trastes velhos tão arruinados como a pobre da Zulmirinha, mas por um fiozito com uma cruz que lhe arrancou do pescoço e meia dúzia de tostões que ela costumava guardar numa caixa de lata enferrujada, deu cabo da desgraçada, é preciso estar muito desesperado para matar por tão pouco: "Foi gajo da droga, só pode ter sido, devia estar desvairado para arranjar algum para a dose do dia, eu conheço-os bem, para conseguir a dose são capazes de tudo" alvitra o Gualdino que tem um irmão toxicodependente a quem já perdeu o rasto: "Também pode ter sido algum marmanjo que ela tenha metido lá em casa" alvitra a Esmeralda: "Vou mais por aí" apoia a Silvéria estendendo o beiço com ar entendido: "Cá por mim, deve ter sido alguém a mando do dono do prédio, ela não queria sair ... já tinham ido todos embora ... estava tudo parado por causa dela ... " cochichou a Sidónia com a voz arrastada e piscando um olhinho matreiro que logo se tornou assustado quando eu a avisei: "Põe-te a deitar essas bacoradas cá para fora e ainda vais bater com os costados no xadrez, mesmo sendo uma velha tonta ainda dá para te guardarem lá durante uns três dias". Ela começou a tremelicar e arrimou-se ao meu braço como quem busca protecção: "Ó Miro, eu não estava a falar a sério, tu já sabes que eu digo estas coisas, mas não é a sério".

O corpo da Zulmirinha, ou o que restava dele, foi para o Instituto de Medicina Legal para ser autopsiado e chegarem à conclusão a que todos nós já tínhamos chegado - morte violenta. Disseram que a polícia ia investigar o caso, mas cá por mim não vão investigar nada, devem ter atirado com o processo para dentro de um daqueles ficheiros metálicos com grandes gavetões porque com tantos problemas bicudos que a polícia tem para resolver, o que representa a morte da Zulmirinha, velha, miserável, escanzelada e, ainda por cima, puta? Vai ser mais um caso sem solução.

Foi o funeral mais triste a que assisti, não quero dizer que haja funerais alegres, mas este foi particularmente triste porque lhe faltava dignidade, como se estivessem a enterrar um cão ou um gato, como se quisessem desembaraçar-se depressa de um objecto incómodo e indesejável. A Zulmirinha saiu deste mundo da mesma forma que entrou nele - incomodando os outros. Quando ela nasceu, o pai olhou-a e exclamou enraivecido: "Uma rapariga! Para que é que eu quero isto?". O irmão, único familiar que apareceu no funeral talvez por ter pensado que ela teria alguma coisa que ele pudesse herdar, mal disfarçava o ódio que lhe ia lá dentro porque afinal não havia nada para herdar e ele ainda ia ter de pagar o funeral. Enquanto o caixão descia à terra, resmungou entre dentes: "Nunca prestou para nada, nem puta soube ser, chegou a ganhar mais numa hora do que aquilo que eu ganhava num dia e ainda sou eu que vou ter de pagar aí o caixote" e apontava com o queixo o caixão que já estava lá no fundo enquanto o coveiro puxava as cordas. Antes de começarem a deitar-lhe terra para cima, virei as costas e fui-me embora. Enfiei-me no café do Araújo, convidei a Sidónia para se sentar comigo lá na mesa do fundo: "Anda daí princesa, vamos apanhar uma cardina que pago eu". Ela não se fez rogada e lá ficámos, copo a mim, copo a ti, fazendo considerações sobre a porcaria da vida que só faz sentido quando se leva com uns copos à mistura : " Olha Miro, o que é preciso é começar porque quanto mais se bebe mais apetece beber e digo-te uma coisa, quem não gosta de vinho, não gosta de Deus, por isso não se faz missa sem vinho". Com a voz cada vez mais empastada, a Sidónia citava cenas da Bíblia onde o vinho tinha sempre o seu lugar: "Nas bodas de Canã, Cristo transformou a água em vinho, vê lá se lhe deu para transformar o vinho em água! E na Última Ceia, achas que se ele desse água aos apóstolos em vez de vinho podia dizer Bebam que este é o meu sangue ? Ninguém ia acreditar, faltava a cor, mas como era vinho conseguiu enganá-los e eles beberam convencidos que estavam a beber o sangue de Cristo". Eu já estava com as ideias um tanto turvas, mas fiquei admirado com os conhecimentos que ela tinha da Bíblia: "Ó Sidónia, não te sabia tão religiosa!", ela tinha os olhos semicerrados e a língua meia entaramelada: "Não sou muito religiosa, mas tenho os santos da minha devoção e quando era garota fui obrigada a andar na catequese". Quando eu era garoto, também fui obrigado a andar na catequese e não me lembro de ter aprendido aquelas histórias da Bíblia da mesma maneira que ela, mas também não admira porque as minhas ideias já estavam demasiado toldadas para eu conseguir discorrer o que quer que fosse. A única coisa que sentia era uma tristeza muito grande porque não conseguia tirar da cabeça a imagem daquele buraco muito fundo para onde atiraram com a Zulmirinha e quanto mais eu bebia mais fundo o buraco ficava, quase prestes a engolir-me também: "Já te disse que o sacana do irmão ficou todo chateado por ter de pagar o funeral?", "Já, já disseste isso umas poucas de vezes, mas o homem até tem razão, a gaja passou a vida toda a abrir as pernas a uns e a outros e nem conseguiu deixar dinheiro para o caixão! E agora vamos lá acabar com a conversa porque eu não gosto de falar dos mortos, ela era uma grande puta, mas já lá está e que fique muito tempo sem mim. Esta vida é uma porra, mas como ninguém sabe como é a outra, deixem-me cá andar e que nunca dê a moléstia na raiz da cepa". A Sidónia levantou a garrafa e riu, riu, riu até às lágrimas.

( continua )
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Sexta-feira, 4 de Novembro de 2005

GENTE COMO TU E EU - II, 5

5. FERNANDA

Olha quem está ali! O Senhor Fulano de Tal e aquela deve ser a mulher, afinal é muito diferente do que eu imaginava e parece bastante mais nova do que ele: "Judite, estás a ver aquele indivíduo ali ao fundo? É o tal que costuma vir comigo no autocarro, olha, olha! Ele e a mulher estão a discutir e a coisa parece que está feia porque ela levantou-se e vai-se embora, nem chegou a almoçar, deu-lhe a birra e ia levando a loiça toda atrás". A Judite abanou a cabeça e exclamou num tom de comiseração: "Ouve lá. Fernanda, onde é que tu tens vivido até agora? Algures noutro planeta porque na Terra é que não andas de certeza. Mas será que tu não vês que aquilo é arranjinho ! Cabe na cabeça de alguém pensar que aqueles dois são marido e mulher?Só na tua. Aquela é a amásia criatura! ". Será? Diverte-me pensar que o Senhor Fulano de Tal anda a enganar a mulher e se hoje vim parar ao mesmo restaurante que ele (eu nem costumo almoçar aqui) é porque algo mais do que uma simples coincidência me puxou para este lugar e logo no dia em que ele brigou com a menina, sabe-se lá se os nossos caminhos não se estarão a cruzar por qualquer desígnio do destino: "Ó Fernanda não estejas a olhar para o homem de forma tão ostensiva! Ainda vai pensar que te estás a atirar a ele", corei até à ponta dos cabelos e dei uma risadinha sobressaltada. Para disfarçar a atrapalhação, respondi como se tudo não passasse de uma brincadeira: "E se estivesse? Se o destino me trouxe até aqui, talvez haja uma razão oculta, nem tudo são coincidências nesta vida". A Judite é muito céptica e a palavra destino põe-lhe os nervos em franja: "Lá estás tu com a tua paranóia do destino, deixa de ler a página do horóscopo porque isso só te faz mal". Não tive coragem de admitir a minha inabalável crença no destino: "Parva, não vês que estou a brincar?". Ela encolheu os ombros pouco convicta, mas deu-me o benefício da dúvida: "Espero bem que sim porque se continuas a deixar as coisas entregues ao acaso, não vais chegar a lado nenhum e quando deres por isso já perdeste o combóio". Senti um arrepio porque a Judite acertou mesmo no alvo. É isso que eu sinto muitas vezes - que perdi o combóio e que estou parada num qualquer apeadeiro desconhecido sem saber que caminho tomar; procuro, procuro e não encontro saída. O ambiente lá em casa está cada vez mais insuportável; a minha mãe asfixia-me com aquele jeito muito especial que ela tem para desenvolver em mim o sentimento de culpa mal eu esboço o mais leve movimento de libertação como no fim-de-semana em que fui à Serra da Estrela. Quando regressei, no Domingo à noite, tinha à minha espera um coro de lamentações tão grande como se todas as desgraças da Humanidade tivessem desabado em casa nos três dias em que estive ausente: "Só eu sei como me vi aqui sozinha, o teu irmão não apareceu" - o Mário nunca aparece, salvo quando precisa de dinheiro - "a mulher está com uma grande gripe" - a mulher do Mário tem sempre gripes providenciais nas alturas críticas - "o teu pai esteve num desassossego que eu nem fui senhora de pregar olho e, para mais ajuda, tive uma daquelas enxaquecas como há muito tempo não tinha" - sempre desconfiei das enxaquecas da minha mãe - "quem me valeu foi a vizinha aqui do lado, criam-se os filhos e nos momentos de aflição é com os estranhos que nos vemos". Imagino os desabafos que ela terá tido com a vizinha e, embora diga a mim própria que isso pouco me incomoda, não é verdade porque apesar do esforço que faço, a opinião dos outros a meu respeito afecta-me um bocado, mesmo que se trate da vizinha ignorante e coscuvilheira que mora no andar do lado.

O Senhor Fulano de Tal continua a comer nas calmas, não parece muito preocupado com a saída intempestiva da companheira, deve ser um daqueles safados egoístas para quem os sentimentos dos outros não contam, come e bebe que nem um nababo como se estivesse no melhor dos mundos: "Fernanda, lá estás tu a olhar para o homem outra vez! Parece que te deu volta ao miolo!", desviei o olhar e concentrei-me no pudim de gelatina que o empregado acabara de pôr na minha frente: "Simples curiosidade, estava a pensar no que se terá passado para ela sair daquela maneira, será que não é mesmo mulher dele?", "Claro que não! A mulher está neste momento a tratar-lhe das camisas e a pensar no que vai fazer para o jantar e a amásia saiu toda enfurecida porque o garanhão não lhe quer pagar a viagem às Caraíbas ou qualquer outra coisa do género. Agora que já sabes tudo sobre a zanga daqueles dois, vamos pedir as bicas e a conta porque, tanto quanto eu sei, o patrão não nos dispensou da parte da tarde".

Antes de sair, ainda deitei um último olhar ao Senhor Fulano de Tal e, nesse preciso momento, ele levantou a cabeça da salada de frutas que comia vagarosamente e, por uma fracção de segundos, os nossos olhares cruzaram-se. Reconheceu-me, tenho a certeza que me reconheceu, afinal de contas todos os dias viajamos no mesmo autocarro, o contrário é que seria para admirar. O olhar dele tocou-me particularmente, será imaginação minha ou será mesmo que ele me olhou com algum interesse? Já estava no escritório, sentada à secretária, tentando concentrar-me no trabalho e aquele olhar ainda continuava encasquetado na minha cabeça: "Fernanda, Fernaaaaaaaaada!!!", "Caramba Judite, até me assustaste, estás maluca ou quê? Se o chefão te ouviu, ainda aparece por aí a perguntar se estamos no recreio", a Judite encolheu os ombros: "Se eu não te acordasse e ele te apanhasse com essa cara de sonâmbola ainda era pior, ia pensar que te meteste nos copos ou então na passa ", tive de inventar qualquer coisa para não explicar a verdadeira causa da minha abstracção: "Estava distraída a pensar no que vai lá em casa, o ambiente está cada vez mais turvo, a minha mãe cada vez mais chata e eu estou a atingir o ponto de saturação", "E muito tens tu aguentado, eu não era capaz de viver assim, ficava velha em pouco tempo, é desgastante viver num clima desses".

A Judite partilha uma casa alugada com outra rapariga e um rapaz: "Dividimos a renda da casa, mas cada um preserva a sua intimidade. O André é fotógrafo, a Susana é tradutora e eu sou empregada de escritório, um trio muito diferente, mas que vive em perfeita harmonia porque nos respeitamos mutuamente". Já trabalhávamos juntas há quase um ano quando ela me disse que o André era homossexual, temendo talvez os preconceitos que eu ainda tenho relativamente às práticas sexuais menos convencionais: "Eu sei o que vais dizer, não vale a pena discutir o assunto porque eu sei que não estás preparada para encarar com naturalidade uma orientação sexual que estás habituada a encarar como aberração". Realmente, no meu esquema mental, os homossexuais não são tidos como pessoas normais, aceito o facto com tolerância, com bonomia, sem animosidade, mas com naturalidade é que não. A Judite tem uma grande admiração pelo André porque ele é inteligente, talentoso, é um daqueles amigos que está sempre disponível quando precisam dele e, sobretudo, realça ela em tom de galhofa: "Tem um atributo muito importante que é um talento muito especial para a cozinha e uma jeiteira danada para o arranjo da casa enquanto que eu e a Susana somos umas nulidades nessas matérias", "Quer dizer que o desgraçado é a empregada lá de casa", "Aí é que tu te enganas, ele é o mestre, o monitor e nós as ajudantes que descascam as batatas, cortam as cebolas, esmagam os alhos, lavam a hortaliça, enfim, damos o nosso contributo, mas só a nível de mão-de-obra não qualificada. O André costuma dizer que nos quer bem longe das panelas porque até o nosso olhar lhe dá cabo do tempero".

Só uma coisa me surpreende, por que razão um homossexual assumido escolheu partilhar casa com duas raparigas em vez de o fazer com o seu companheiro, visto que ele tem um companheiro que o visita de vez em quando. Já fiz esta pergunta à Judite, mas ela respondeu-me com evasivas: "É um bocado complicado, por enquanto não é possível, é isso que vai acontecer mais tarde ou mais cedo, mas por enquanto não, é muito complicado, um dia explico-te". Foi tudo o que consegui saber.

( continua )
publicado por mmfmatos às 19:38
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