Sexta-feira, 28 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - II, 4

4. RAÚL

A Beatriz ficou possessa quando lhe disse que tinha de passar o Domingo com a Isilda e os pais dela. Insultou-me amaldiçoando a hora em que se ligara a um fracassado como eu, desfiou uma série de frases arrasadoras e finalizou com a acusação do costume: "És um traste!Um traste e um hipócrita. Passas a vida a dizer que nada te prende em casa, mas tremes todo quando a querida mulherzinha levanta a grimpa". Ouvi tudo cabisbaixo, expressão contrafeita e olhar de sonso como convém a um cobardolas. Foi um dia para esquecer, um daqueles dias em que tudo parece desabar sobre nós. A minha pobre cabeça já estava num mísero estado por causa dos mapas com o levantamento do pessoal que o Chefe de Divisão me mandou elaborar com carácter de urgência e que ao fim de três dias ainda estava na grade dos assuntos pendentes. Foi logo nesse dia que o Director Geral se lembrou que os famigerados mapas ainda não lhe tinham chegado às mãos e chamou rispidamente a atenção do Director de Serviços que já se tinha esquecido do assunto, mas fingiu estar em cima do acontecimento e descarregou a sua fúria sobre o Chefe de Divisão exigindo a entrega do trabalho nesse mesmo dia. O Chefe de Divisão, por sua vez, que também já não se lembrava de nada, baixou a cabeça humildemente perante o seu superior hierárquico, atribuindo o atraso à lamentável negligência do subalterno a quem encarregara da tarefa e atirou-se a mim que nem um cão raivoso: "Oiça uma coisa Sr. Raúl Freitas (o tratamento de Sr. Raúl Freitas em vez de Sr. Freitas indicia a aproximação de artilharia pesada) quando eu lhe entrego um trabalho com carácter de urgência, não é para ficar a marinar na sua secretária, é mesmo para fazer!". Engoli em seco e gaguejei: "Ó Sr. Dr. eu já fiz sair a listagem com os dados necessários para a elaboração dos mapas, mas há um problema com o programa e o histórico aparece com falhas nas progressões das carreiras", "Então contacte a Informática e resolva o problema, já o devia ter feito, mas iniciativa é coisa que você não tem!" berrou cada vez mais agastado e ainda mal refeito da humilhação que sofrera perante o Director de Serviços. A palavra Informática pôs-me a cabeça num torvelinho. Tinha andado toda a manhã a evitar a Beatriz, cada vez que o telefone tocava saía da Repartição e deambulava pelo corredor com uma pilha de papéis na mão após ter advertido o Semedo: "Se for a Beatriz, diz-lhe que fui a despacho", e agora aquela ordem contacte a Informática soava-me como um clarim de guerra. Odiei o enfatuado do Chefe de Divisão. Sempre lhe tive uma certa aversão, um certo despeito por ser obrigado a receber ordens do filho do Marques, o Marques que por ironia do destino foi subalterno do meu pai: "Este inútil pensa que me mete medo!Não vale a ponta dum corno, lambe botas, sacrista. Lá nas Finanças era o pai dele que recebia ordens do meu" resmunguei entre dentes enquanto o Semedo sentenciava: "Pois é, mas ele tem o canudo e tu não".

O canudo do filho do Marques parece que vai perseguir-me a vida toda. Como se não bastasse ter ouvido, durante anos, o meu pai elogiar o filho do Marques e a sua dedicação ao estudo numa tentativa infrutífera de me incentivar também a estudar: "O Marques disse-me hoje que as notas do filho já saíram. Sabes qual foi a nota mais baixa que ele teve? Um dezasseis". As minhas notas que andavam sempre a roçar a fasquia causavam o desespero do meu pai, mas eu estou convencido que aquilo que o irritava ainda mais era o arzinho triunfante com que o Marques afirmava: "O meu rapaz não me dá preocupações nenhumas com os estudos, nunca foi preciso mandá-lo estudar, se continuar assim vai para a Universidade, ele fala em seguir Direito, vamos lá a ver ... e o seu, Sr. Dr., tem tido boas notas?". O Marques sabia bem que eu nunca tinha boas notas, mas fazia questão de ouvi-lo da boca do seu próprio chefe, dava-lhe um certo gozo e era como que uma compensação - o meu pai era o chefe, mas o filho dele era melhor do que o filho do chefe. O meu pai limitava-se a responder, um tanto contrafeito: "O meu está um bocado fraco em matemática, mas ainda pode recuperar porque ele não é parvo nenhum, mas dispersa-se muito e, além disso, é preguiçoso, os professoras dizem que se ele se aplicasse mais poderia ser um bom aluno porque cabeça tem ele". Era preciso salvar a imagem do filho medíocre que o Marques procurava denegrir com a ostentação do seu filho prodígio. Eu terminei o liceu a muito custo e o filho do Marques, quatro anos mais novo do que eu, ultrapassou-me e seguiu em frente à conquista do seu almejado canudo: "Sr. Freitas apresento-lhe o Dr. Rogério Marques que, a partir de hoje, é o novo Chefe de Divisão de Planeamento e Avaliação dos Recursos Humanos". Entre tantos departamentos do Estado, ele tinha logo de cair no mesmo em que eu trabalhava. Dir-se-ia que o velho Marques tinha atingido o cume das suas aspirações - o seu filho, o seu Rogério, dava ordens ao filho do Dr. Freitas.

O berro contacte a Informática incomodava-me duplamente - por ter vindo de quem veio e, pior que tudo, por me obrigar a enfrentar a Beatriz. Começava a sentir-me encurralado, mas não havia escape possível, disquei a extensão da Informática e, do outro lado: "Informática, bom dia, fala Beatriz". Desvanecera-se a esperança que ainda alimentava de que fosse qualquer outro a atender. Sussurrei humildemente: "Sou eu, o Raúl, preciso que me vejas o que se passa com o programa ... ", não me deixou terminar: "Já decidiste?", fiz-me desentendido: "Decidir o quê, Beatriz?", do outro lado do fio a voz dela soou quase tão autoritária como a do Chefe de Divisão: "Sobre nós, que mais havia de ser?". Parecia que o mundo inteiro se coligara contra mim, logo contra mim, um pacífico cidadão que só queria levar a vida sem sobressaltos. Reunindo os pedaços de dignidade que me restavam perante a sobranceria dela, ripostei: "Tenho um trabalho urgente, liguei-te para tratar de assuntos de serviço, as questões particulares ficam para tratar lá fora". Consegui adiar o confronto, mas só até à hora do almoço porque assim que saí da Repartição lá estava ela à minha espera junto à porta do elevador.

Escolhi o recanto mais isolado do restaurante pois já pressentia a aproximação da tempestade. Ainda eu estava com o cardápio da ementa nas mãos e já ela, nada interessada nos pratos do dia e nas sugestões do chefe que eu lhe lia aplicadamente, começava com a conversa obsessiva de casa, família, filhos, festas de aniversário, sem contar com o cão, o gato e o canário ... e eu tentando acalmá-la, fazendo-lhe sinais para que baixasse a voz porque ninguém tinha necessidade de saber da nossa vida. Eu fazia por aparentar uma serenidade que estava longe de sentir porque a perspectiva do momento em que teria de dizer que o Domingo estava comprometido, deixava-me em tal estado de pânico que só o guardanapo que enrolava e desenrolava nos dedos húmidos impedia a exibição das mãos trémulas de nervosismo. Estupidamente ainda alimentei a secreta esperança de que a Beatriz não soubesse que o Sporting jogava nesse Domingo, mas depressa caí na realidade - ela tinha o calendário dos jogos porque o Semedo que acompanha os meus amores clandestinos com um gozo perverso, ofereceu-lhe o calendário com todos os jogos da temporada, arvorando aquele risinho sacana de solidária cumplicidade como quem lança um alerta toma lá e não te deixes enganar .

O momento chegou quando mais uma vez a adverti de que não estávamos no local, nem aquela era a altura própria para discutir assunto de tamanha gravidade. Foi então que ela disse peremptoriamente: "Está bem, no Domingo em minha casa, não passa desse dia". Com os olhos fixos no aquário dos crustáceos ao fundo da sala, balbuciei: "Neste Domingo não pode ser, a Isilda quer ir a casa dos pais, tenho de ir com ela, a irmã e o marido também vão, não posso mesmo faltar". Não pude evitar os arremessos, os insultos e, receoso do escândalo em pleno restaurante, deixei-me ficar tão mudo e quedo como os crustáceos do aquário até que ela, cansada com a minha falta de reacção, começou a choramingar indiferente aos olhares indiscretos dos empregados que já cochichavam entre si. Peguei-lhe na mão tentando acalmá-la, mas ela retirou-a com um movimento brusco: "Não me toques, não me toques que eu não respondo por mim! Vai fazer festas à legítima que deve estar bem carenciada. Não vais continuar a enganar-me, para mim chega!". Fingindo-me ofendido, exclamei: "Eu nunca te enganei (tirando o facto de ela andar a tomar a pílula há dois anos sem necessidade, sempre tivemos uma relação sincera) o nosso relacionamento teve sempre regras bem definidas que tu aceitaste sem reservas e até te sentias muito feliz, dizias sempre que tínhamos a vida ideal, não compreendo esta mudança, não sei o que te deu, Beatriz, estávamos tão bem assim!". Ela lançou-me um olhar de desprezo e desferiu uma daquelas frases pomposas: "O mundo é composto de mudança e quem não muda embrutece, eu tenho energias e capacidade para evoluir, coisas que um fóssil como tu não pode entender, passa muito bem!". Levantou-se de rompante e se eu não segurasse a toalha, tudo o que estava em cima da mesa teria sido arrastado com ela. Senti as têmporas a latejar, era urgente dizer qualquer coisa que a acalmasse, qualquer coisa que remediasse a situação, qualquer coisa que repusesse o estado de graça em que sempre tínhamos vivido, mas a minha cabeça estava em polvorosa e a palavra mágica não surgiu. A única coisa que me ocorreu foi a frase mais imbecil que alguém poderia ter dito num momento tão crucial: "Até logo, depois falamos com mais calma. Entretanto, não te esqueças das alterações que te pedi para a elaboração dos mapas do pessoal. O Chefe de Divisão quer isso hoje sem falta". Ela trespassou-me com um olhar onde a cólera, a indignação e a incredulidade fervilhavam com tal intensidade que, por momentos, cheguei a pensar que iria esbofetear-me, mas em vez disso ela inclinou-se para a frente e apoiando as mãos na mesa ciciou: "Vai à merda!". Estremeci como se tivesse levado com uma cuspidela na cara e, enquanto ela saía pela porta fora, eu fiquei para ali, incapaz de reagir, expressão bacoca e olhar perdido no aquário dos crustáceos até que a voz do empregado me despertou: "Já vi que a senhora não vai comer e o senhor o que é que vai querer?". De bloco na mão, sorriso mal contido e olhar de infinito gozo, estava perfilado na minha frente aguardando a decisão. A minha vontade foi dizer-lhe também: "Vá à merda!", mas em vez disso entreguei-lhe o cardápio da ementa e pedi: "Uma dose de bacalhau com grão e meia garrafa de Borba".

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publicado por mmfmatos às 19:34
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GENTE COMO TU E EU - II, 3

3. RAMIRO

O Licínio ainda não saiu hoje do quarto. Tem muito que estudar e a D. Etelvina que dá muito valor à educação até lhe leva copos de leite, é um menino mimado este Licínio. Veio de Lamego para estudar e, de vez em quando, os pais telefonam para saberem como está o filho. A mãe aproveita sempre para pedir à D. Etelvina para lhe olhar pelo rapaz que quando o estudo aperta até se esquece de comer . Quando o Licínio vai a Lamego, a mãe nunca se esquece de preparar uma encomenda bem recheada de queijos, enchidos, presunto e outras atenções destinadas à D. Etelvina. Quando o Licínio chega, até eu afio o dente porque a D. Etelvina é generosa e nunca deixa de repartir comigo as especialidades que o nosso estudante traz da terra: "Ó Ramiro, traga essa garrafa da Bairrada que está dentro do armário e venha petiscar qualquer coisa"; e lá abancamos os dois na mesa da cozinha onde ela já colocou num cestinho com pão caseiro cortado às fatias e pratos cheios de rodelas de paio, tiras de presunto e pedaços de queijo. Eu afinfo-lhe com o tinto da Bairrada enquanto ela acompanha com chá de cidreira. O Licínio é que não dá para estas "farras". Entrega à D. Etelvina o saco que a mãe mandou cheio de coisas boas e, antes de se meter no quarto, senta-se um bocado enquanto nós comemos, conta uma ou outra novidade lá da terra, o casamento da prima, o baptizado do neto da madrinha, a ordenação do amigo que frequenta o seminário de Braga, as obras que o pai está a fazer no sótão da casa para ele, Licínio, poder isolar-se com os seus livros, o seu computador e a sua música.

Eu penso que o pai ainda não deve saber que o filho, quando acabar o curso, quer ir para Paris fazer investigações no tal Instituto de que eu não fixei o nome. Acho que o Licínio devia dizer-lhe que não tem ideias de ir dar aulas para Lamego e, assim, o homem escusava de gastar dinheiro a fazer obras num sótão onde ele nunca vai estar. Já lhe dei a entender que ele devia ser sincero com o pai e falar-lhe dos seus projectos. Se os contou a mim que não sou da família ... , " É mais fácil, Ramiro, consigo é mais fácil, agora com os meus pais é outra conversa, vai ser uma cena, eles estão a contar que eu fique a viver lá, não vai ser fácil, nada fácil. Eles inventaram uma vida para mim à medida dos seus sonhos, querem um filho doutor para ir com eles ao Domingo à missa, provocar inveja nos vizinhos e casar com a Guidinha Martins que é fútil e desmiolada, mas é filha do doutor da farmácia. É esta a vida que eles idealizaram para mim, mas não é aquela que eu quero, nunca me passou pela cabeça tirar o curso de Biologia para me enterrar em Lamego a dar aulas numa escola infestada de garotos insolentes e, ainda por cima, casado com a Guidinha Martins ". O Licínio tem razão, não vai ser fácil para os pais aceitarem a ideia de verem o filho abalar para o estrangeiro, em vez de ficar em Lamego, constituir família e ampará-los na velhice. É complicado, é sim senhor e, por isso, eu continuo a achar que o Licínio bem podia ter escolhido um curso que desse para advogado ou para engenheiro, um curso que desse para trabalhar aqui, em vez de andar a estudar coisas que não se sabe para que servem ou que, pelo menos, só servem para fazer investigação lá fora.

A verdade é que também não consigo imaginar o Licínio a ensinar numa escola. Não sei se é de ele passar a vida com a cabeça enfronhada nos livros ou se é mesmo feitio, mas acho-o um bocado impaciente no trato com as pessoas. Não estou a vê-lo a aturar garotos, a repetir a mesma coisa hoje, amanhã ... e, para ser sincero, também não lhe vejo grande jeito para explicar as coisas de forma que as pessoas entendam. Não é que ele não queira explicar aos outros aquilo que sabe, como eu cheguei a pensar quando me dava aquelas respostas atabalhoadas, num tom muito seco e impaciente. Até pensei que, por eu ser um ignorante que não passou da primária, ele não estava para desperdiçar o seu tempo, gastar cera com ruim defunto , como se costuma dizer, mas não é nada disso, é mesmo falta de vocação: "Ó Ramiro, desculpe lá, não leve a mal, eu gostava de lhe explicar melhor, mas não consigo, eu não tenho o dom de comunicar" disse-me uma vez em que me viu um bocado ofendido com uma resposta mais brusca que me deu quando eu, afinal, só queria saber o significado da frase que ouvi numa conversa entre o engenheiro e o empreiteiro lá da obra, por este andar, só para as calendas gregas é que isto vai ser inaugurado . Percebia-se pelo sentido que calendas gregas queria dizer nunca mais , mas o que eu pretendia saber era a razão por que se empregavam estas duas palavras para dizer nunca mais . O Licínio gaguejou, meteu os pés pelas mãos, falou dos romanos que tinham calendas e dos gregos que não tinham calendas e eu cada vez mais baralhado porque se os gregos não tinham essas tais calendas por que é que lhes chamavam gregas? Foi aí que ele gritou exasperado: "Olhe Ramiro, eu tenho mais que fazer do que estar para aqui a falar de coisas que você não entende. O que é que lhe adianta saber, a você que passa a vida a colocar mosaicos, o que são as calendas gregas?". Na altura, fiquei mesmo ofendido, mas como ele pediu desculpa e explicou que não tinha o dom de comunicar, não me senti tão rebaixado porque afinal o defeito não estava só na minha cabeça dura, estava também na língua dele que não era capaz de soltar cá para fora aquilo que tinha encaixado na sua cabeça inteligente à custa de muitos anos de estudo.

A D. Etelvina que, tirando a vida de médico, acha que não há profissão mais bonita do que a de professor, costuma dizer (repetindo o que costumava dizer o patrão da tal casa rica onde trabalhou): "O professor é como o aventureiro que desbrava terra inculta". Embora ela não tenha estudado porque, naquele tempo, as mulheres não eram destinadas ao estudo e, além disso, os pais não tinham posses, andou na escola o tempo suficiente para aprender a ler, a escrever, a fazer contas, a conhecer os rios de Portugal e os seus afluentes, assim como os reis da primeira à última dinastia. Tudo isto também eu aprendi e ainda me lembro de muitas coisas, mas a diferença é que enquanto eu nunca mais peguei num livro, a D. Etelvina continuou a fazer as suas leituras e a interessar-se pelo que vai por esse mundo fora: " Eu tenho esta idade, mas frequentei a escola porque os meus pais, apesar de pobres, ligavam muito à educação. Graças a isso não fiquei analfabeta como as demais da minha idade e ainda hoje recordo a professora que me ensinou as primeiras letras. Naquele tempo aprendia-se à força de réguada, mas comigo nunca foi preciso e se os meus pais fossem pessoas de posses eu até tinha feito o liceu. Já o meu Armando fez o liceu completo e se não estudou mais foi porque não quis pois tanto eu como o pai bem nos esforçámos para que ele fosse para a Faculdade".

O Armando é o filho da D. Etelvina. Não o conheço porque vive no Canadá e já há anos que não vem a Portugal. A última vez que cá esteve foi para o funeral do pai e veio sozinho. É casado com uma canadiana e trabalha numa rádio em Toronto, numa daquelas estações que transmitem programas para os emigrantes portugueses. De longe em longe telefona, de tempos a tempos escreve e envia fotografias dos filhos que ela mete em molduras e espalha pelas prateleiras do móvel da sala por ordem de idades. Na prateleira de cima, quando ainda eram bebés, ao colo dos pais, dentro da banheira, empoleirados na cadeira com o prato da papa à frente e a boca toda besuntada. Na prateleira a seguir, quando deram os primeiros passos, em cima da cama agarrados a ursos de peluche do mesmo tamanho que eles, o primeiro aniversário de chapeuzinho em bico feito de cartolina às cores enfiado na cabeça inclinados para o bolo cheio de creme com a vela já apagada. Na prateleira do meio, as brincadeiras na neve de barrete e cachecol às riscas, a seguir montados num trenó, no cavalo de baloiço, na primeira bicicleta. Na quarta prateleira, já espigadotes com um grupo de amigos no campo de férias, com o pai à beira do lago segurando canas de pesca, nas traseiras da casa jogando a bola para a tabela de basquete. Na prateleira de baixo, o mais velho já aparece atrelado à namorada enquanto o mais novo, com um capacete de viseira e um fato todo enchumaçado, mostra uma bola em forma de melão.

A D. Etelvina conheceu os netos quando ainda eram miúdos e vieram com os pais passar férias a Portugal. A partir daí, só os tem visto crescer dentro das molduras que cobrem as prateleiras do móvel da sala: "Se eu quisesse estava com eles no Canadá. Quando o meu Inácio morreu, o Armando bem me quis levar, mas eu é que não ia deixar a minha casa e a minha terra. Até a Cynthia - a minha nora chama-se Cynthia - se fartou de ralhar com ele quando o viu aparecer sem mim". Não sei se ela diz estas coisas para me convencer ou para se convencer a ela própria. Uma coisa é certa, nem o filho nem a nora nem os netos cá vêm há um ror de anos e quando o Armando telefona é para dizer que nesse ano ainda não é possível cá vir porque a Cynthia não tem férias na mesma altura que ele, porque o colega lá da rádio partiu uma perna e ele teve de adiar as férias, porque prometeu ao Patrick - o neto mais velho - pagar-lhe a viagem à Califórnia, porque o Jeffrey - o neto mais novo - vai com a equipe disputar uma taça qualquer com uma escola que fica na outra ponta do Canadá.

Não sei se isto tem alguma coisa a ver com o caso, mas uma coisa é certa, a D. Etelvina não concorda nada com as ideias que o Licínio tem de ir para Paris e não se cansa de dizer que o melhor era ele ficar a dar aulas em Lamego, casar, ter filhos e criá-los ao pé dos pais. Eu acho que ela tem muita pena dos netos que tem e não tem, os netos que só viu uma vez e já não conhece, os netos que afinal são dois estranhos porque só os viu crescer através das fotografias que tem nas prateleiras do móvel da sala.

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publicado por mmfmatos às 11:45
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Terça-feira, 25 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - II, 2

2. FERNANDA

Não vou conseguir convencer a minha mãe da necessidade que tenho de passar um fim-de-semana fora do ambiente desta casa. Ela vai reclamar porque ficará sozinha a tratar do velho, mas será justo sacrificar todos os momentos livres para tratar de um pai inválido? Afinal de contas, o marido é dela e não meu. Quando casou ficou vinculada aos sacrossantos deveres para o bem e para o mal, na saúde e na doença . Desta vez não vou ceder, vou aceitar o convite da Judite para ir com ela à Serra da Estrela, desta vez não vou recusar, há tanto tempo que ela me anda a convidar: "Não sejas parva, vais passar o resto da tua vida agarrada à cadeira de um pai inválido? A tua mãe que o faça, a obrigação é dela. Além disso está sã e escorreita e, como tu mesma dizes, é rija que nem um pêro. Por favor, não caias nessa de ceder à chantagem emocional". A minha mãe foi sempre fértil e muito imaginativa em matéria de chantagem emocional: "Não me digas que vou ficar para aqui sozinha com o teu pai neste estado? Se eu era capaz de fazer uma coisa destas à minha mãe quando tinha a tua idade!". Apetece-me responder que ela nunca viveu com a mãe o tempo suficiente para fazer o que quer que fosse, que nunca lhe dedicou uma terça parte do tempo que eu já lhe dediquei a ela, que metade da minha vida foi passada entre estas paredes ouvindo as suas lamúrias.
A Judite tem razão, não vou continuar a viver como se a invalidez do meu pai tivesse de ser vivida e partilhada por mim, impedindo-me de desfrutar os prazeres a que tenho direito, já me bastou ter abdicado de tudo o que gostava em vez de enfrentar o autoritarismo do senhor absoluto que impunha sempre a sua vontade e a todos comandava antes de ser atacado pela esclerose que lhe incapacitou os movimentos e a mente. A Judite costuma dizer: "Os rapazes têm o tempo da tropa, mas tu tens tido tropa a vida inteira". Ela conseguiu resumir numa frase curta e simples o ambiente opressivo que me envenenou a infância e a adolescência, toda a sensação de sufoco e impotência que me invadia perante as imposições ditatoriais que a autoridade paterna exercia sobre mim, em nome de uma moral hipócrita e caduca. A Judite, com a sua natureza rebelde, vê na minha passividade uma anomalia gerada por defeitos de educação que, como ela diz, é urgente corrigir: "Eu sei que há traumas de infância que nos acompanham a vida toda, mas é sempre possível ultrapassar certas limitações, desde que acreditemos em nós próprios e na possibilidade que temos de mudar o rumo dos acontecimentos. Não me venhas com essas teorias fatalistas do destino, cada um constrói o seu próprio destino. Para a tua mãe já não há recuperação possível, toda a vida se deixou subjugar pelo tirano do teu pai, já antes tinha sido subjugada pelo pai dela, foi só passar da tutela de um para a tutela do outro, mas tu ainda estás em idade de te libertar, ainda estás a tempo de segurar as rédeas da tua vida e não estejas à espera que venha alguém fazer isso por ti. Eu, por exemplo, quando quiseram pôr-me a trela, zarpei logo de casa para fora, eu cá não sou animal de estimação".

A Judite tem razão, vou soltar o meu grito de liberdade, desta vez não vou ceder, diga a minha mãe o que disser vou mesmo à Serra da Estrela: "Mãe, este fim-de-semana vou à Serra da Estrela com a Judite, vamos aproveitar o feriado de Sexta-feira e regressamos no Domingo à noite". Pronto, está dito! Agora é aguentar o contra-ataque: "Quer dizer que vou ficar estes três dias sem ninguém que me ajude? É para isto que se criam os filhos?". Começa a chantagem emocional, mas desta vez não fica sem resposta: "O Mário também é filho, pode dar uma ajuda", "O teu irmão é casado, tem a vida dele", "Eu também tenho direito à vida, o Mário nunca teve obrigações, mesmo quando era solteiro nunca teve obrigações, as obrigações foram sempre todas para cima de mim, mas isto vai acabar, estou farta! O Mário tem a vida dele, mas quanda precisa de dinheiro sabe vir cá bater à porta e a mãe vai sempre escorregando porque, claro, o menino tem a vida dele, não pode ter privações, pode andar na boa vai ela e só tem direitos enquanto eu não posso arredar pé daqui e só tenho deveres. Não há dúvida que a partilha de bens está bem feita!". Não sei como arranjei coragem para dizer isto tudo, mas agora estou um bocado intimidada porque a minha mãe ficou a olhar para mim com uma expressão tão arrasadora que o sentimento de culpa está quase a sobrepor-se ao sentimento de rebelião que me levou a reivindicar os meus direitos.

Mas não! Desta vez não posso capitular, não tenho coragem de enfrentar o desprezo da Judite, não posso chegar amanhã ao escritório e dizer-lhe que afinal não posso ir à Serra da Estrela. Até parece que estou a ouvi-la: "És uma parvalhona, só vives em função dos outros, julgas-te muito boazinha, mas o que te falta é garra para enfrentar as situações, és tão amorfa que nem mereces viver, acorda mulher! Faz alguma coisa por ti.". Não, decididamente não posso ceder. Se arranjei coragem para lançar cá para fora parte do rancor que me tem minado a existência, tenho de arranjar coragem para ir até ao fim: "Não vale a pena vir com recriminações para cima de mim, não vale a pena fazer-se de vítima, não vale a pena fazer choradinho porque eu não vou desistir, é assunto arrumado, concorde ou não, eu vou na mesma!". Sinto-me aliviada e orgulhosa, tomei uma atitude. Sexta-feira rumo para a Serra da Estrela pese a quem pesar.

O meu pai, parcialmente paralisado, o olhar errático, a fala lenta e mal articulada, já não tem trambelhos para nada, perdeu a pose autoritária que, outrora, me tolhia de medo enquanto a minha mãe assume uma expressão indignada como se eu estivesse em vias de cometer um crime de alta traição, mas já se deve ter apercebido que a filha com que está lidando não tem a passividade do costume e experimenta uma estratégia nova: "E logo agora que não tenho andado nada bem, fincou-se-me uma dor no ombro esquerdo, não sei o que será isto ... ". Tem uma saúde de ferro, mas vai tentar o estratagema da doença, eis uma forma de apelar ao sentimento filial, fazendo-me sentir culpada por abandoná-la numa altura crítica. Faço-me desentendida: " É da mudança de tempo, isso passa". Ela lança para o tecto um olhar de mártir: "Passa, então não passa, só o esforço que tenho de fazer para levar o teu pai à casa de banho! Durante toda a semana dou conta do recado sozinha e agora, pelos vistos, nem no fim-de-semana tenho quem me ajude". Não vou responder, não vale a pena, há pessoas com quem não há hipótese de dialogar e a minha mãe é dessas pessoas, não há nada que eu possa argumentar, não há nada que eu possa invocar, ainda que eu fosse dona da mais rica oratória do mundo não conseguiria encaixar nada de novo naquele cérebro recheado de ideias obsoletas e preconcebidas. O melhor que tenho a fazer é fechar-me no meu quarto e gozar antecipadamente a perspectiva de um fim-de-semana sem grilhetas nem lamentações. O regresso a casa é que não vai ser fácil, mas agora não quero pensar nisso.

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publicado por mmfmatos às 19:32
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Sábado, 22 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - II, 1

CAPÍTULO II

1. RAÚL

A Isilda ficou de trombas. Cheguei atrasado para o jantar, o arroz de pato estava quase frio e teve de voltar para o forno. Não me dignei telefonar e, ainda por cima, voltei a desculpar-me com um trabalho de última hora que, pela cara dela, já não está a colar muito bem. Provavelmente não acreditou na minha justificação o que não me preocuparia se não fosse o facto, esse sim importante, de alterar a minha rotina caseira, a qual eu procuro preservar a todo o custo. Não se trata de salvar um casamento que perdeu há muito qualquer hipótese de salvação, mas sim a estabilidade psíquica que um indivíduo indolente como eu necessita de ter. Qualquer alteração à minha rotina caseira, pode fazer ruir todo o esquema que arquitectei metodicamente ao longo de quinze anos de matrimónio que, para os de fora, é exemplar por ser duradoiro e, para nós, é insípido por não haver qualquer tipo de atracção ou mesmo reacção entre os dois. Não há zangas nem reconciliações, não há amor nem ódio, vivemos numa assumida monotonia, numa paz podre que não tem altos nem baixos, fruto da indiferença e do desinteresse. Avançamos na vida como dois caminhantes cautelosos, evitando percursos arrojados e torneando obstáculos.

Não posso correr o risco de alterar o ritmo desta engrenagem perfeita, é urgente refrear as exigências da Beatriz. Ultimamente, as atitudes dela causam-me uma certa preocupação. Tem acessos de mau humor, mostra-se caprichosa, procura reter-me quando não deve, como hoje, por exemplo. Se não fosse ela, não teria atrasado a hora do jantar, nem teria de aturar as ventas da Isilda. Francamente não entendo o que se está a passar, ia tudo tão bem! Aquele comentário Estou farta de ser a outra é completamente absurdo, passamos juntos a maior parte do dia, até lhe dispenso alguns Sábados e Domingos enquanto a Isilda me julga sentado na bancada de Alvalade a torcer pelo Sporting. O que é que a Beatriz quer mais? Que ideias malucas estará aquela cabeça a magicar? Estamos tão bem assim!

Antes, tudo estava bem para ela, achava estimulantes os nossos encontros clandestinos, troçava das instituições, repudiava as convenções, referia-se à Isilda como sendo a minha mulherzinha escrava das panelas e do ferro de engomar enquanto ela era a minha Mulher, dona dos meus sonhos românticos, musa inspiradora das minhas fantasias eróticas. E é essa mesma Beatriz que subitamente começa a falar de casa, família, filhos, festas de aniversário ... o que se terá passado naquela cabeça? A Beatriz de outros tempos sofreu uma tal mutação que até me deu a sensação de estar a ouvir outra pessoa quando ela me atirou com este desabafo exasperado: "As minhas amigas já estão todas casadas, estou farta de assistir aos casamentos das outras, estou farta de cantar os Parabéns a Você nas festas de aniversário dos filhos dos outros. Qualquer dia deixo de tomar a pílula e, quer tu queiras quer não, deixo-me engravidar". E eu, fazendo a minha encenação: "Beatriz, uma decisão dessas só pode ser tomada a dois", mas ela parecia tresloucada e começou a gritar num acesso de histeria: "O que tu queres é empatar, estás bem acomodado nesta vida a três, para ti é o ideal, a legítima para a cozinha e para as camisas e aqui a concubina para a cama, mas não penses que eu me fico assim, não vou envelhecer a contemplar a felicidade dos outros, já que a legítima não tem barriga capaz de gerar, não vou deixar que a minha murche antes de conceber qualquer coisa, sim, porque aqui dentro está tudo bem, é terra fértil à espera de semente!" e a Beatriz batia com as mãos no ventre com uma firmeza e uma segurança que me assustaram.Será que o Semedo andou a meter-lhe coisas na cabeça? Eu dou cabo daquele cretino.

Tentei chamá-la à razão, explicar-lhe que a felicidade é um conceito subjectivo, construído à medida de cada um, que não existe um modelo uniforme, que ela se estava a comportar como uma vulgar doméstica alienada por ideias pré concebidas e estereótipos ultrapassados. Terminada a prelecção com um: "Estamos tão bem assim, para quê complicar as coisas? Nós não precisamos dessas tretas para sermos felizes", pensei tê-la convencido, mas enganei-me pois ela voltou à carga ainda mais agastada: "Talvez tu não precises, mas eu sim. Quero experimentar essas tretas como tu lhe chamas, quero uma casa, um filho, até um cão, um gato ou um canário e, acima de tudo, não quero um homem que só me acompanha nos fins-de-semana em que joga o Sporting". Que ideias mais descabidas! Foi o Semedo, só pode ter sido ele.

O que vou eu fazer com esta nova Beatriz? Por agora, não quero pensar mais no assunto, não vou estragar a digestão do jantar, este arroz de pato está uma delícia, não há dúvida que a Isilda é boa na cozinha. Ela está a olhar para mim com uma insistência incomodativa, será que desconfia de alguma coisa? Ficou com o garfo no ar, parece que vai falar e ... fala mesmo, mas que alívio! Limita-se a dizer: "Para a próxima vê se telefonas". Se calhar não desconfiou de nada, até pode ter sido impressão minha, a Isilda é tão pateta! " Mesmo com tanto trabalho, deves ter tempo para um telefonema" acrescentou com voz afectada. É pateta, mas sabe cravar a ferroada, o melhor é fazer de conta que não ouvi, ignorar a provocação, fazer-me de parvo: "Este arroz de pato está uma delícia e então hoje que estou esfomeado ... quando trabalhar até mais tarde, tenho de passar a comer qualquer coisa a meio da tarde para entreter o estômago". Não consigo encará-la, mas sinto-lhe o olhar espiando os meus movimentos, está a enervar-me ao ponto de me fazer perder o apetite, sinto um aperto no estômago e o arroz começa a atravancar-me a garganta, tenho de me controlar, controla-te Raúl, ela não desconfia de nada, é demasiado pateta: "No Domingo, temos de ir a casa dos meus pais", está a testar-me, tenho de agir com naturalidade: "No Domingo, joga o Sporting, já tenho bilhete e já combinei com o Semedo, não vai ser possível acompanhar-te, mas tu podes ir na mesma, levo-te lá e sigo para o estádio". Bolas! A Isilda está hoje muito estranha, tem um ar desconfiado, só me faltava que agora também ela viesse com exigências, a Beatriz de um lado e a Isilda do outro, não vou conseguir lidar com duas crises ao mesmo tempo, até parece que se coligaram as duas para me chagarem o juizo: "Não sei de que me serve ter um homem em casa, há sempre qualquer coisa quando se trata de me acompanhares, nem para isso ... ", não chegou a concluir, mas é demasiado óbvio: "Nem para isso serves" esteve quase a sair-lhe pela boca fora, mas a frase ficou suspensa, talvez adiada, como tudo entre nós. Caramba! Espero bem que isto não passe de uma borrasca, é isso mesmo, uma borrasca, a Isilda não é mulher de grande intuição, mas em todo o caso, talvez seja melhor tomar algumas precauções e não esticar muito a corda: "Pronto, eu vou! Vendo o bilhete e vou, não se fala mais nisso".

Terá sido a atitude mais sensata para evitar um confronto indesejável com a minha mulher, mas o pior vai ser amanhã quando a Beatriz souber que, apesar do Sporting jogar no Domingo, ela terá de ficar em casa ou de passear sozinha na Marginal.

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Sexta-feira, 21 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - I, 9

9. RAMIRO

Olha a Filó vai ali à frente, já me viu, está a acenar com a mão. É uma mocinha porreira, ela e a Sónia, também gosto da Sónia. Passam o dia naquele balcão e têm sempre bom modo, mesmo nas horas de maior aperto. Depois da bucha do almoço, estou lá sempre caído, no café do Araújo, para tomar a bica da ordem e dar dois dedos de conversa com a malta do costume. É um bocado bem passado, dizem-se umas larachas, cada um deita cá para fora o que lhe vai na alma, somos todos da mesma laia, ninguém se sente diminuído quando vê em exposição os seus infortúnios e as suas misérias. É o único sítio onde não me sinto ofendido quando alguém exclama: "Ó Ramiro estás cada vez mais burro, não admira que a mulher te tenha posto os cornos". Todo o ressentimento, toda a raiva que ainda me arrepanha as entranhas quando penso na Ofélia, parece que se evapora quando me junto com a malta do costume na mesinha lá do fundo, no café do Araújo. Até dou comigo a responder: "Homem com cornos não é defeito, só prova que tem bom gosto e sabe arranjar material que também agrada aos outros".

Os trolhas negros da mesma terra do outro que me chega os baldes da massa, também se juntam no café do Araújo e arreganham as bocarras, rindo a bom rir, quando me ouvem falar assim: " Tchiiii ... seu Ramiro! Não deixa cara dela em estado de agradá a outro, carega ela di porada. Seu Ramiro és homem bom, mas bom di mais é moleza" dizia um que dá pelo nome de Natalino, enquanto enfiava a bagaceira pela goela abaixo. Na terra dos cegos, quem tem um olho é rei e, entre os trolhas negros que vivem carregando baldes de massa, eu sou um mestre, tenho o meu ofício de ladrilhador e até me dou ao luxo de querer ensinar a minha arte àquele que me dá serventia: "Se não queres ser trolha toda a vida, presta atenção ao que eu faço, não é só chapar com a massa no mosaico, tem que haver perfeição nos acabamentos, vês o corte destes cantos? Até parece que nasceram assim". Ora, na minha qualidade de mestre também tenho que saber impor algum respeito: "Não é assim que se resolvem as coisas Natalino. Na altura, passei-me da cabeça e dei-lhe uns bofetadões, mas daí a desfigurar a mulher também não, o desprezo é a melhor arma". O Natalino abanou a cabeça: "Nááá ... se a mia Dorinda enfeitasse mia cabeça, ia ter que levar tratamento no hospital", " Não digas isso, homem, também estás a criar uma filha, já imaginaste se daqui a uns anos ela põe os cornos no marido e o gajo lhe deixa a cara feita num bolo?". Ele coçou o queixo e, por momentos, ficou pensativo, acabando por responder: "Seu Ramiro, essa minina Neusa é a luz dos meus olhos, se algum filho di puta, cornudo ou não, pusesse a mão nela, não ia ficá cá pra contá como é qui foi", "Porra, Natalino, assim também é demais, não exageres, tu és um homem pacífico que eu bem te conheço!", exclamei, mas o Natalino olhou-me muito sério, com o branco do olho quase vidrado, e respondeu, espaçando bem as palavras: "Digo e repito, se esse cão deixasse cair a manápula na carinha linda da mia Neusa, ia-se arepender de tê nascido, ia até rogá praga na própria mãe por tê botado ele no mundo". Dei-lhe um palmadão nas costas: "Sendo assim, já compreendes porque é que eu deixei a cara da Ofélia inteira. Nunca se sabe quando é que pode aparecer um pai desvairado como tu". Os outros riram à gargalhada e ele acabou por acompanhá-los enquanto dizia: "Seu Ramiro, quando as coisas tocam a gente, até parece que o miolo pega fogo e o homem vira bicho" e eu rematei: "Pois é Natalino, mas tu és um bom homem, a Dorinda é uma jóia de mulher, a Neusinha é um encanto de menina e a gente vai beber uma rodada à saúde delas que aqui o Ramiro vai pagar". A alegria foi geral e, de copos no ar, gritámos hips e hurras em honra da Dorinda e da Neusinha.

E é por isto que eu me sinto outro homem no café do Araújo. Além da "malandragem" lá da obra, há a Zulmirinha e a Sidónia que me olham como se eu fosse o herói das suas vidas. A Zulmirinha, uma puta que já devia estar reformada, mas que ainda continua rua acima e rua abaixo na esperança de encontrar clientes que não se importem de se deitar com aquele monte de ossos escaqueirados e cobertos de pelancas encortiçadas. Clientes daquele género que diz: "Com um saco enfiado na cabeça, são todas iguais".

Até para ser puta é preciso ter sorte e esperteza. A Zulmirinha foi bonita e jeitosona, arrebanhando a melhor clientela da zona, mas todo o dinheiro que ganhou foi parar às algibeiras do chulo que a sugou toda a vida para a largar logo que ela deixou de ter préstimo. A Zulmirinha gosta de mim porque eu sou dos poucos que não goza com a sua miséria, às vezes até lhe dou algum para a bucha do dia, mas não pode ser sempre e faz-me pena, lá isso faz, especialmente quando ela me encara com aquele olhar espavorido de desespero e diz: "Ramiro, eu hoje tenho que arranjar um homem, tenho que arranjar um homem!".

A Sidónia é a velha mais feia e raquítica que eu já alguma vez vi. Vesga, com meia dúzia de pelos mal semeados na cabeça, vestida com roupa que lhe vão dando (diz ela que todas as medidas lhe servem), sapatos a chinelar e às vezes uma meia de cada cor. Desde o princípio que parece ter-me adoptado e há risota geral quando ela se agarra ao meu braço, compadecida com a minha situação de abandonado, e afirma: "Eu era bem mulher para tomar conta de ti, fazia-te a comida, tratava-te da roupa, era bem mulher para isso, não sou como essa badalhoca que te abandonou". A Sidónia foi casada com um bêbado que todos os dias, anos a fio, lhe deixava cair em cima uma dose de arrochadas que por diversas vezes a obrigaram a procurar curativo nas Urgências do hospital. Por essa altura, já a Sidónia se habituara também a meter o gargalo à boca e não era difícil que lá no hospital acreditassem nas desculpas que ela inventava: "Ó mulher, se você continua a beber assim, brevemente já não tem trombas para partir!" dizia-lhe, às vezes, o médico de serviço. E ela ria, ou fingia que ria, piscando o olho vesgo que no meio dos vergões e do nariz partido, já nem parecia tão defeituoso.

Às vezes, ponho-me a falar à D. Etelvina dos momentos que passo lá no café do Araújo e acabo sempre por apanhar um sermão: "Você, a conviver com gente dessa, não aprende nada. Que diabo, você ainda é um homem novo, bem podia procurar outras companhias, até aqui em casa, com o Licínio, podia aprender alguma coisa, ele anda na Universidade, tem outras conversas, não é como no café desse tal Araújo". Não vale a pena explicar-lhe que para manter conversa com o Licínio, era preciso primeiro que eu percebesse o que ele diz. O Licínio é o outro hóspede da D. Etelvina e é estudante de Biologia. Antes de o conhecer, eu não sabia que havia estudos desses, mas ele explicou-me: "Biologia é o estudo dos fenómenos da vida, bio quer dizer vida, percebe?". Perceber eu percebo, só não sei para que serve tal estudo e, por isso, perguntei: "E o que é que você vai fazer com um curso desses, vai trabalhar em quê? Eu sou burro, mas dá para perceber para que servem os médicos, os engenheiros, os advogados, os arquitectos, os juizes ... agora essa coisa de Biologia serve para quê?". Pareceu-me que ele não gostou muito da pergunta, mas respondeu: "O biólogo, ao estudar os fenómenos da vida, pode transformá-la, melhorá-la. Investigação, investigação é o que eu quero fazer". Não percebi o que é que o estudo da vida tem a ver com a investigação, realmente não percebi aquela história da investigação, investigar o quê? Quem investiga são os gajos da Judiciária e não me parece que ele tenha vocação para trabalhar na bófia . Até falou em ganhar uma bolsa de estudo para um Instituto qualquer que há em Paris. Eu não quis dar parte de fraco, mas fiquei sem perceber o que é que o Licínio vai fazer com o curso que anda a tirar, mas também não admira porque eu tenho a cabeça dura e nunca dei nada para as letras, como dizia a minha velha. É por isso que não vale a pena conversar com o Licínio, é por isso que me sinto tão bem no café do Araújo.

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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - I, 8

8. FERNANDA

Bolas! Um engarrafamento. Só faltava isto. Se chego atrasada, lá terei de ouvir o cretino do patrão: "A que se deve o atraso? Outra vez os transportes? Já vai sendo tempo de arranjar outra desculpa". Ó que raiva! Às vezes dou comigo a imaginar-me herdeira de uma inesperada e providencial fortuna que me permitisse entrar no gabinete daquele estafermo anunciando a minha demissão com a pose mais arrogante e altaneira que se possa imaginar. Mas essas coisas só costumam acontecer nos filmes. A realidade é bem diferente. Se o trânsito continuar empastelado, vou entrar humildemente, balbuciando desculpas com os olhos em alvo para não enfrentar a carranca mal humorada do homem que, para mal dos meus pecados, é a fonte da minha subsistência.

O "Sr. Fulano de Tal" é que não parece nada preocupado. Deve ter horário flexível, para estar com um ar tão descansado só pode ser isso. Ou então não sofre desta maldita subserviência que me acompanha desde que nasci. A Judite, minha colega de trabalho há aproximadamente quatro anos e mais jovem do que eu, está sempre a atirar-me em cara com a "maldita subserviência" e, embora eu invoque a necessidade de conservar o emprego, a lei da oferta e da procura, a crise que grassa por esse país fora, ela continua a afirmar com aquele seu arzinho insolente: "Quanto mais te rebaixas, pior. Quem muito se curva, tudo lhe aparece". A Judite tem a a desenvoltura e a coragem que eu gostaria de experimentar nem que fosse por um dia. Talvez por isso o patrão a respeite como nunca me respeitou. Sim, porque quando a Judite chega atrasada não se põe na frente dele com aquele ar embezerrado e idiota que eu tenho sempre que sou obrigada a enfrentar a sua cólera, "E não penses que eu não preciso do emprego, mas isso não é razão para andar com a espinha dobrada e de nariz no chão", afirma ela tentando transmitir-me alguma vitalidade.

A Judite costuma dizer que a sua verdadeira vocação era ser rica, mas que houve engano e nasceu na casa errada, o que não lhe fez, contudo, perder a esperança de enriquecer: "Eu não sou como tu, tenho aspirações, um dia vou sair desta penúria nem que tenha de me entregar a um velho rico, ficar a vida toda a correr para os saldos e a contar os tostões é que eu não fico. Meu Deus, Fernanda! Não olhes para mim dessa maneira, parece que eu disse alguma monstruosidade. Há para aí tanto velhinho rico a precisar de carinho e tanta menina pobre a precisar de conforto ... ou tu achas que essas damas que aparecem nas revistas do jet set, cheias de jóias e lantejoulas, ao lado de maridos todos caquéticos e descapotados casaram por amor?". Claro que não, a Judite tem razão, ninguém pega em velhinhos pobres: "Põe os pés na terra, os velhos ricos também não despontam por aí como os cogumelos. Os que existem já foram agarrados". A Judite costuma dizer que eu sou uma desmancha-prazeres, mas desta vez deu-me razão, acenendo com a cabeça algo desalentada: "Aí é que está a gaita! E sabes o que é que dificulta ainda mais as coisas? É o facto de eles frequentarem locais que eu não tenho dinheiro para frequentar e é nisso que eu tenho de investir - contrair um empréstimo para renovar o guarda-roupa e comprar um bilhete para um cruzeiro num paquete de luxo. Aí está a solução! No regresso já venho pendurada no meu velhinho milionário. Depois até pode ser que arranje alguma coisa para ti, já que tu não tens habilidade".

Nunca sei ao certo quando a Judite fala a sério ou a brincar, mas uma coisa eu sei, não será sem luta que ela se entregará à banalidade de uma existência igual à maioria, metida num andar de três assoalhadas num bairro suburbano, hipotecado por toda uma vida, onde quase só irá para dormir, tentando fazer esticar um orçamento familiar deficitário no meio de correrias que se resumem sempre ao mesmo espaço triangular - casa/infantário/trabalho, trabalho/infantário/casa - carregando criança e saco de fraldas enquanto abre caminho num qualquer autocarro, apinhado de gente como este, para usufruir do privilégio de um dos lugares destinados a idosos, deficientes físicos, grávidas e acompanhantes de crianças de colo. Quando lhe chamo a atenção para os olhares embevecidos com que a contempla o Ribeiro da Contabilidade, ela revira os olhos, num trejeito cómico, e exclama: "É mesmo de um homem assim que eu preciso! Juntam-se duas misérias para fundarem uma dinastia de tesos".

O Ribeiro não esconde que o seu maior sonho é a constituição de um lar estável e da família que nunca teve. Órfão desde os três anos, criado numa dessas aldeias S.O.S., com irmãos de empréstimo e uma mãe de empréstimo, anseia ter uma família verdadeiramente sua. Apesar da dedicação e do carinho que devota aos irmãos de criação e à única mãe que conheceu, tem lá no fundo aquela mágua de ter sido sempre "mais um filho" e nunca "o filho". Aprendeu a partilhar tudo , com saudável espírito comunitário, mas isso não impediu o germinar de uma justa aspiração individualista que se traduz na construção do seu próprio mundo. Mas, para a Judite, o Ribeiro representa tudo aquilo de que ela pretende fugir - a tal "vidinha" num bairro/dormitório suburbano.

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Quarta-feira, 19 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - I, 7

7. RAÚL

Ó que seca! Não sei porquê, mas hoje não consigo concentrar-me na leitura, há qualquer coisa no ar que anda a preocupar-me, a Beatriz anda diferente, cheia de mistérios e insinuações, irritadiça, é isso, irritadiça é o termo e o que me preocupa é que não consigo descortinar a razão da sua mudança de comportamento. Por outro lado, cada vez sinto mais necessidade de fugir de situações que me alterem a rotina e nada é mais pernicioso para uma rotina bem vivida do que as discussões. Esta minha indolência tem aumentado com a idade, a contestação é uma atitude tão cansativa! Na realidade, já ultrapassei a idade da contestação, canalizo as energias para actividades mais interessantes. Lá na repartição, até consegui criar áurea de conquistador, espiam-me os movimentos, os telefonemas: " Ó Freitas, está uma chamada para ti na ext. 1215, é a gaja dos CTT, pelo menos parece a voz dela, não sabia que ainda estavas nessa ... ". O Semedo tem sempre aquele arzinho de cumplicidade a que junta uma piscadela de olho cada vez que atende telefonema de mulher que me seja dirigido. Até pode ser a empregada da Técnosom, Sonotécnica, Electrotecnosom ... ou qualquer outra coisa do género a informar que o meu televisor já está arranjado, mas o Semedo transforma em conquistas tudo o que for voz de mulher do outro lado da linha, arquitectando romances clandestinos e atribuindo-me toda uma panóplia de aventuras de causar inveja a qualquer sultão desses romances melados que povoam os sonhos de costureiras e balconistas. Eu encolho os ombros e desminto: "Não é nada do que estás a pensar, pá! É da empresa Técno...tal, por causa do televisor". Tenho o cuidado de emprestar às minhas palavras um ar tão pouco convicto que ainda faz aumentar mais as suspeitas do Semedo: "Está bem! Chama-lhe nomes, tens sorte que aqui o rapaz é uma tumba, mas se chega alguma coisa aos ouvidos da Beatriz ... ela já se anda a queixar com falta de assistência, diz que anda a tomar a pílula para nada; claro que não foi a mim que o disse, mas já sabes como são as confidências entre mulheres, cada uma passa à outra e vai pedindo segredo".

A Beatriz, com quem mantenho uma relação à quase dois anos, trabalha no Departamento de Informática, dois andares abaixo, e como toda a gente lá no serviço ignora que eu sou estéril. O Semedo, pai de família orgulhoso da sua prole e para quem um matrimónio sem filhos é como um circo sem palhaços, diz-me repetidamente, referindo-se à Beatriz: "Se eu fosse a ti, engravidava-a, havia de convencê-la. Já que a tua mulher não pode ter filhos ...". A pretensa esterilidade da Isilda é a única versão compatível com a minha popularidade de macho robusto pois nunca tive a coragem de admitir, perante os outros, a minha incapacidade para transmitir os genes que me foram legados pelos meus progenitores. Primeiro timidamente, o que foi encarado como manifestação de pudor e respeito pela "pobre Isilda", alvitrei uma qualquer deficiência nas trompas que impossibilitava a gestação do tão ambicionado herdeiro. Com o decorrer do tempo, passei a afirmações mais categóricas e, até agora, tenho conseguido salvaguardar a imagem que emprestei a mim próprio, resistindo heroicamente às investidas do Semedo que não desiste da sua campanha a favor dos prazeres da paternidade com frases decalcadas de manuais e revistas: "Os filhos representam a continuidade, aliviam a angústia provocada pela precaridade do ser e a inevitabilidade da morte, os filhos é que dão sentido à vida, com eles fica cumprida a principal função do homem" e termina sempre com o mesmo conselho: "Engravida a Beatriz, pá, aproveita o forninho enquanto ele está quente, não deixes passar o tempo, olha que a vida é curta ... "

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publicado por mmfmatos às 19:37
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Terça-feira, 18 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - I, 6

6. RAMIRO

A serigaita enjoada tem um perfume esquisito, parece o cheiro das fumigações que a bruxa do 3º. esquerdo espalhava pelo prédio todo quando eu vivia no 3º. direito com a dita que me pôs os cornos: "Bruxa não! A D. Olímpia deita cartas e olha que tem dado tudo certo" gritava a Ofélia, cada vez que eu me insurgia contra as visitas regulares que ela fazia ao 3º. esquerdo, deixando lá parte do meu salário. Nunca cheguei a saber o que se passava naquelas sessões, mas quando descobri o par de cornos com que a Ofélia me enfeitou, cheguei à conclusão de que a tal Olímpia cartomante, enquanto embolsava o meu dinheiro, também atirava com o filho, um calmeirão inútil e estróina que trocava os dias pelas noites, para cima da minha Ofélia que ao que parece não opôs grande resistência e entrou com facilidade na cama do garanhão, o qual ainda por cima passava lá as manhãs enquanto eu galgava cedo para pegar no batente com que pagava o sustento da casa e as sessões da bruxa.

Como já vem sendo tradição nestes casos, todo o prédio, para não dizer todo o bairro, soube antes de mim. O romance Ofélia/Octávio só chegou ao meu conhecimento quando já tinha sido motivo de conversas, risos e chacota por parte da vizinhança toda. A Ofélia gritou a sua inocência, esbracejou, arrepelou-se toda, jurou pela alma da "santinha da mãe que já lá está ...", guinchou e esperneou, protegendo a cara com as mãos das lambadas enfurecidas que eu lhe descarregava em cima. A sensação de trazer estampada na cara a palavra "cornudo" ( não sei se era impressão minha, mas cada vez que me cruzava com algum dos vizinhos, parecia notar-lhe um olhar de gozo que me arrepiava a espinha) levou-me a procurar outro sítio para morar. Foi nessa altura que mudei para uma rua, no quarteirão a seguir, onde aluguei o quarto à D.Etelvina numa daquelas casas antigas de corredor estreito e comprido para onde dão todos os quartos, com portas altas encimadas com bandeiras de vidro.

Não me tenho dado nada mal. A velhota é asseada, tem sempre o quarto num brinquinho e às vezes até me deixa petiscar do tacho dela que não é nada mau porque a velha foi, em tempos, cozinheira em casa de gente rica e sempre lhe ficou o dedo apurado para o petisco. Para mais eu vinha habituado às caldibanadas da Ofélia que, diga-se de passagem, não tinha jeiteira nenhuma para a cozinha e era abandalhada no arranjo da casa; além de ser boa na cama, não lhe conheci outros dotes de mulher. Tirando aquela mania de me querer casar, a D. Etelvina até faz boa companhia. Às vezes, ao serão, quando não me apetece ir até à tasca, fico sentado ao seu lado em frente à televisão, obrigatoriamente mudo até acabar a telenovela porque a hora da telenovela é sagrada para ela.Quando esta acaba e eu estou com pachorra para a ouvir, conta-me histórias quase tão velhas como ela. Recorda os tempos em que havia hortas em Lisboa, vendedoras pelas ruas apregoando "figuinhos de capa rota", as leiteiras que iam de porta em porta vendendo leite que transportavam em recipientes de alumínio, a água de Caneças que se vendia em bilhas de barro, o marçano que percorria todo o quarteirão, de lápis na orelha, fazendo o role das encomendas que depois carregava ao ombro em grandes cestos para entrega ao domicílio: "Você não tem destas recordações - diz-me ela - viveu sempre na aldeia". Ao que eu respondo: "Não tenho essas, mas tenho outras, D. Etelvina, porque na aldeia também se nasce, cresce e morre". Agora morre-se mais do que se nasce porque os jovens foram-se embora e os velhos lá ficaram esperando que os filhos e os netos apareçam, uma vez por ano, uns da França outros da Alemanha, para matar saudades da terra que os viu nascer, mas que não lhes deu o sustento a que tinham direito e que se viram obrigados a procurar noutro sítio.

Ninguém devia ter necessidade de deixar as suas raizes para ganhar o pão de cada dia e amealhar uns tostões para poder levantar as paredes de uma casa. Muitos acabam por construir a casa com que sonharam e onde passam um mês de férias no Verão, mas por quanto tempo? Os filhos já não falam a língua dos pais, andam noutras escolas, noutros mundos, e não lhes passa pela cabeça deixar os países onde foram criados para acompanhar os pais no regresso a uma terra que nada tem para lhes oferecer e com a qual já não têm qualquer afinidade. Às vezes ponho-me a falar destas coisas com a D. Etelvina, mas ela não concorda comigo, acha que as raízes são muito importantes, que há sempre o regresso às origens e que a terra dos nossos antepassados é a nossa verdadeira terra. Para mim, isso é conversa fiada; a nossa terra é aquela onde nos sentimos bem, aquela onde construímos a nossa vida e isso das origens e dos antepassados não enche barriga.

Pelo menos, é o que acontece comigo, já não me lembro quando fui à terra pela última vez. Quando a minha velha era viva ainda lá ia de vez em quando e agora tenho pena de não ter ido mais vezes, parece que a estou a ouvir: "Vens cá tão pouco, estou para aqui abandonada, não estás assim tão longe ... ". Realmente a distância, uns escassos 200 km não era a razão do meu afastamento, mas faltava-me a vontade, parecia que já nada me ligava à terra que me vira nascer e onde vivera alimentando sonhos de adolescente e esperanças num futuro bem diferente desta vida mesquinha que levo. Se calhar, foi o fracasso das minhas aspirações que me afastou de lá. Tivesse eu conseguido prosperar como o Celestino e talvez as coisas fossem diferentes, aí seria bom passear pela aldeia, sentir os olhares dos meus conterrâneos , uns de inveja, outros de admiração, mais um abraço, mais uma palmada nas costas, até o Edmundo teria perdido aquele ar todo arrogante sempre que a minha velha se ia lá aviar de mercearias pedindo humildemente: "Pode pôr na conta Sr. Edmundo? No fim do mês acertamos tudo". Sempre foi um emproado aquele Edmundo, à custa do role vendia tudo mais caro, mas fazia sempre aquele ar enfadado, embora a minha mãe acertasse ali as continhas todos os meses, nunca ficou a dever um "tusto", mas o paspalho só ligava a quem tinha algum no bolso e como tinha o filho na Universidade já se estava a ver pai de doutor. Pois é, se o meu rumo tivesse sido diferente ... mas assim, o que ia eu lá fazer? Sentir à minha volta os olhares de gozo das gentes da terra? Até parece que os estou a ouvir: "Quem não vale aqui, também não vale lá, quem sai aos seus não degenera, já o pai só dava rendimento a emborcar copos, este vai pelo mesmo caminho". Não era fácil aguentar o desprezo dos outros e, só por isso, não fui lá mais vezes, mas agora tenho pena e já não há remédio porque a minha velha já não está lá para eu a poder visitar.

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publicado por mmfmatos às 19:04
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GENTE COMO TU E EU - I, 5

5. FERNANDA

Aleluia! O "Sr. Fulano de Tal" levantou a cabeça do seu famoso livro e parece que está a olhar para mim. Vendo bem tem olhos de engatatão, até que o maduro é jeitoso, sempre gostei de homens com cabelos grisalhos nas têmporas, dão um certo ar, só é pena que não tenha a galantaria dos antigos cavalheiros. No tempo da minha mãe seria impensável um homem não dar o lugar a uma senhora. Agora até nos empurram para alcançar o lugar antes de nós, aqui está um aspecto da igualdade entre os sexos que eles aceitaram sem reservas.

Quando algo corre mal no serviço, é ouvi-los logo atirar à laia de profecia: "Isto está cheio de mulheres, como é que pode funcionar em condições!". Pelos vistos, o acesso das mulheres ao mercado de trabalho espatifou a eficácia das instituições. Quando a eficiência de uma mulher é de tal forma inegável e evidente que se torna impossível contestar, avançam com a condescendência do senhor feudal que, excepcionalmente, aceita no seu castelo o trovador talentoso, mas plebeu: "É tão competente como qualquer homem". Mas ela que se cuide porque ao mais pequeno deslize, lá estarão os profetas da desgraça: "Nem outra coisa era de esperar! Mulheres em lugares destes nunca poderia dar certo, as mulheres nasceram para ser mandadas e não para mandar". O meu pai costumava dizer: "Nem mulher que saiba latim, nem mula que faça iiiiiiim!". Para o meu pai, as mulheres fora do reduto do lar transformavam-se em aberrações da natureza, pior ainda, tornavam-se mulheres perdidas, sem respeito por elas próprias nem pelos maridos, aos quais competia garantir o sustento do lar enquanto elas estavam destinadas às tarefas caseiras, à criação dos filhos, mantendo a harmonia do lar com os dotes que todas as mulheres prendadas tinham obrigação de possuir.

As teorias do meu pai sobre o papel da mulher na sociedade foram responsáveis por esta insatisfação que há-de acompanhar-me a vida toda e que ainda dói como um espinho bem cravado no local mais íntimo e recôndito do meu subconsciente. Ao princípio era uma angústia, uma raiva mal contida, mas sobretudo um desprezo por mim própria pela cobardia que não me deixava enfrentar a sua tacanha tirania e que muito lá no fundo me fazia amaldiçoar o progenitor que tinha. Dei comigo várias vezes a pensar: "Se ele morresse era um alívio", mas logo rejeitava este pensamento com um sentimento de culpa que ainda era mais doloroso do que a frustração pelos sonhos que acalentara desde sempre e que não conseguira realizar por me faltar coragem para enfrentar a autoridade paterna. E, no entanto, as minhas aspirações eram bem prosaicas, sempre sonhara ser enfermeira, profissão que para ele tinha foros de libertinagem - horários nocturnos, contactos com médicos pervertidos, a contemplação de corpos desnudados, a linguagem "desbragada" que era, afinal, chamar as coisas pelos nomes que constam dos manuais de anatomia. Segundo ele, além de doméstica, só havia uma profissão digna de uma mulher decente - professora.

Não estudei enfermagem e como não tinha vocação para o ensino, perdi os anos mais energéticos da minha vida ajudando a minha mãe nas lidas caseiras e só quando ele foi empurrado para a aposentação vitimado pela incapacidade de uma esclerose múltipla, tive liberdade para procurar emprego, mas já era tarde para realizações pessoais. Só me restava aceitar qualquer empregozeco que ajudasse a equilibrar a economia doméstica muito debilitada com a doença do meu pai e com a escassez da sua mísera pensão de reforma antecipada. Há momentos na vida que são decisivos e é preciso saber agarrá-los. Se por falta de coragem ou por inépcia não conseguimos dar o salto entre a acomodatícia mediocridade do ramerrão e o empolgante entusiasmo que nos empurra para a concretização dos nossos sonhos, ficamos para sempre presos nas grilhetas da nossa incapacidade, fica-nos para sempre aquele sabor amargo de ter passado pela vida sem lhe ter tocado. Fazer e fracassar dói, mas não chegar a fazer deixa sempre um tal vazio que nada pode preencher.

Não sei por que me deu hoje para isto, o que lá vai, lá vai, não vale a pena chorar sobre o leite derramado, nem todos merecem as benesses da vida, às vezes penso que o conformismo mata, pelo menos mata a capacidade e a vontade de lutar, ora ... que imbecilidade a minha! O conformismo é a própria negação da capacidade de lutar. O indivíduo lutador nunca se acomoda, mesmo derrotado nunca se acomoda e vai até ao fim, morre se for preciso na busca incessante do ideal que norteou a sua existência. Por outro lado, não sei se isso será mérito ou demérito porque aceitar aquilo que a vida nos pôde dar, ou para ser menos fatalista, aquilo que tivemos talento para alcançar, também é uma forma de sobrevivência. Para citar alguém, de quem já esqueci o nome: "Mais vale um imbecil vivo do que um génio morto". Tenho aqui um exemplo disso neste "Bafo de Bagaço" que me está abalroando as costas.

( continua )
publicado por mmfmatos às 17:58
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GENTE COMO TU E EU - I, 4

4. RAÚL

Ó que gaita! O motorista parece que vai bêbado, só trava em cima da paragem. Se isto não fosse tão cheio, já havia gente a rebolar pelo chão. Felizmente arranjei lugar sentado, mas com tantos solavancos nem consigo ler em condições, dizem que faz mal ler nos transportes e talvez seja verdade, mas perdoa-se o mal que faz pelo bem que sabe, é o único sítio onde ninguém me incomoda, onde consigo ler descansado. Que situação bizarra não ter outro lugar mais recatado para me entregar à leitura do que este autocarro apinhado de gente! Parece caricato, mas para quem conhece a minha casa é plenamente compreesível - uma mulher cuja tagarelice explode nas alturas mais inoportunas, com os assuntos mais carenciados de interesse, já não suporto mais a indigência mental da minha mulher. Entre o preço do peixe e da fruta, a artrose do marido da vizinha, os diabetes da filha da porteira, o correio sentimental das revistas coscuvilheiras e o vilão da telenovela, eu perco a concentração, fico cobardemente entalado numa cadeia de frases disparadas de supetão, imaginando quão feliz me sentiria se ela fosse subitamente atacada pelo vírus da mudez, mas tal vírus não existe, entre milhões de vírus que pululam este vasto planeta, logo havia de faltar o que mais jeito me dava.

Ela sempre foi oca e superficial, mas quando a conheci foi o que me atraiu, achava-lhe graça, fazia-me bem ao ego ter uma bonequinha para manipular, uma cabecinha tola para moldar, eu sofria do que se poderá chamar o síndroma de Pigmalião. Com o decorrer do tempo, a missão que me empolgara perdeu a graça. A falta de talento do professor e a abstrusa indiferença da aluna por tudo o que ultrapassasse o seu universo doméstico, redundaram num fracasso total. Os diálogos transformaram-se em monólogos e os momentos a sós com ela tornaram-se cada vez mais penosos. Mais penoso ainda é aquele sentimento de desprezo que vejo estampado no seu olhar sempre que vem à baila o assunto relacionado com os filhos que não tivemos. Durante muito tempo eu atribuíra a falta de um filho à esterilidade dela, mas quando o médico lhe garantiu que o seu aparelho reprodutor não sofria de qualquer anomalia que justificasse a ausência da tão desejada gravidez, as suspeitas viraram-se para a operacionalidade dos meus testículos. Com enorme relutância, submeti-me aos testes necessários e o veredicto foi implacável para as minha prerrogativas de macho - os meus espermatozóides eram tão fracos e diminutos que não tinham eficácia para emprenharem quem quer que fosse. A partir daí, ela nunca mais deixou de me olhar daquela maneira, como se quisesse dizer: "Pedaço de galho seco, nem semente tens para dar".

Ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro ... faltam-me todos os atributos de um verdadeiro homem ... ora! Preconceitos, frases feitas, convencionou-se que todos os homens terão de se reger segundo os cânones ancestrais - pai, família, tribo, religião ... que se lixe a tradição! Uma vantagem tenho eu, os meus testículos estéreis não podem emprenhar ninguém, posso rebolar-me à vontade com A, B ou C, sem que haja o perigo de me baterem à porta com um filho nos braços reclamando pensão de alimentos ou a pedir dinheiro para o aborto. Não tenho as alegrias, mas também não tenho as tristezas. À guisa de compensação, aventuras extra matrimoniais não me têm faltado ... agora mesmo, se quisesse engatar aquela ruiva artificial, era só acusar o toque porque ela não para de olhar para mim, está a fazer-me o rente e eu a ver, uuum ... até que tem um perfume agradável, mas um bocado enjoativo, deve ser daquelas fragrâncias das body shop - vanilla, blueberry, musk, ananya, satsuma ... qualquer coisa desse género.

Estão muito na moda os produtos das body shop, as mulheres lá da repartição fazem grande publicidade aos tais produtos ditos naturais, o mito, a ilusão da eterna juventude!... "Não têm químicos" dizem elas mostrando um boião de creme à base de algas, cujo rótulo promete adelgaçar cochas opulentas de celulite, um frasco de óleo à base de aloé vera, um gel de banho, misto de tília e aveia, gérmen de trigo e polpa de abacate que lubrificam, hidratam, rejuvenescem, tonificam, enrijam e esticam a pele. É uma tentação para as cútis ressequidas, enrugadas e flácidas ou em vias disso. A ilusão vendida pelas body shop deve render muito dinheiro a avaliar pela avidez extasiada com que desfilam as mulheres de pele murcha pelos escaparates repletos de produtos aliciantes que prometem o retorno à juventude perdida. A devastação produzida pelo tempo é irreversível, mas como um náufrago que se agarra à tábua de salvação, elas agarram-se a máscaras de argila, de pepino, de cenoura, cremes de manteiga de cacau, de calendula, óleos de mele, tónicos de orquídea e camomila, procurando desesperadamente encontrar na profusão luxuriante da natureza a fórmula mágica que devolva à sua fisionomia, a que os anos emprestaram aquele aspecto mole e ondulado de balão que perdeu o ar, os contornos rígidos e bem delineados de outrora.

( continua )
publicado por mmfmatos às 12:30
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