Domingo, 27 de Novembro de 2005

GENTE COMO TU E EU - III, 7

7. RAMIRO

Parece que a Sidónia vai mesmo ser obrigada a deixar o pátio. Como dizem os senhores da Câmara, vai ser realojada. Vai ter casa de banho e outras modernices , mas vão faltar-lhe os vizinhos, o café do Araújo, a retrosaria do indiano, vai faltar-lhe o empedrado da calçada onde passou os últimos quarenta anos da sua vida, vai faltar-lhe quem lhe dê conversa e, sobretudo, quem lhe pague um copo para lubrificar a goela: "Ó mulher deixa-te de lamúrias, não tens com quem dar ao badalo, mas ficas com uma casa nova, deixas aquela espelunca cheia de rachas", digo-lhe eu para a consolar. Ela arregala os olhinhos matreiros e resmunga: " Olha Miro, não vale a pena estares para aí a tentar levar-me na curva porque eu sei o que é bom para mim e onde me sinto bem, é aqui - e batia com o pé no chão - aqui é que eu me sinto bem, lá ninguém me ajuda, ninguém me dá troco, fico para ali arrumada num canto como um traste velho". Ao dizer isto, coçou a cabeça e escaqueirou-se a rir: "Olha que porra! Vendo bem eu sou mesmo um traste velho, um traste velho sem préstimo, sem ninguém, na ideia dos outros já ando a dever anos à cova", "Cala a boca mulher, ninguém tem nada a ver se tens préstimo ou não, ninguém tem nada a ver com o espaço que cada um ocupa neste mundo e o teu tem sido tão pequeno que, de certeza, alguém te deve estar ainda a dever algum bocado". As minhas palavras deram-lhe logo alento para abusar, estendeu um beicinho mimado e pedinchou: "Enquanto não descubro quem ficou com o bocado que me pertence, dá ordens à Filó para me encher um copinho com aquela pomada que está ali na segunda prateleira para ver se ganho ânimo para aguentar a vida lá naquele pombal onde me querem enfiar". A Sidónia é uma velha sabida e leva-me sempre à certa porque sabe que eu não tenho coragem de lhe negar a vitamina . Não custa muito a quem tem pouco repartir esse pouco com os outros, mas a D. Etelvina farta-se de ralhar comigo: "Olhe, Ramiro, quem dá o que tem, a pedir vem. Ainda se fosse para comer, agora para vinho! Você tira do pouco que tem para alimentar vícios?", "Para a Sidónia, o copinho é meio sustento e depois, D. Etelvina, os pobres também têm direito a ter vícios, digo-lhe mais, têm todo o direito a ter vícios, quanto mais não seja para esquecerem a porcaria de vida que levam", " Ora, desculpas! Quem nunca fez nada na vida, também não merece grande coisa, só colhe quem semeia. Eu também nunca fui rica, mas não me agarrei ao vinho por causa disso, agarrei-me antes ao trabalho, mas trabalhar faz calos e estender a mão à caridade é mais fácil!". A D. Etelvina é boa mulher, mas não tolera as fraquezas humanas.



( continua )
publicado por mmfmatos às 18:54
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De Anónimo a 28 de Novembro de 2005
Eu apagava esta merda. Queres publicidade mete um anúncio no jornal.Sempre-em-pé
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