Domingo, 16 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - I, 1.

( RAÚL, FERNANDA E RAMIRO SÃO AS PERSONAGENS PRINCIPAIS DESTA SAGA QUE PROMETE SER LONGA )


1. RAÚL

Todas as manhãs apanho o mesmo autocarro com um livro debaixo do braço, tentando ocupar o melhor possível a distância que me separa de mais um dia recheado de campainhas estridentes, telefonemas irritantes, ordens, contra-ordens e desordens. Anicho-me no meu lugar, ou antes no lugar que consigo apanhar e, com uma sensação de quase conforto, embrenho-me na leitura. É como se aquele mísero quarto de hora que me separa da secretária repleta de papéis que me aguarda se pudesse prolongar indefinidamente. Vou digerindo cada página do meu livro, alheando-me do entra e sai em cada paragem, talvez porque não estou minimamente interessado naquela massa de gente com que me cruzo todos os dias, talvez porque prefira ignorá-los para não atrapalhar a minha leitura ou então para não me dar ao trabalho de me questionar sobre o que estará oculto naquela multidão desajeitada que se empurra e amontoa na coxia estreita exalando odores desagradáveis que me fazem pensar: "Por que será que esta gente, logo de manhã, tem este cheiro a estábulo? Falta de tempo, falta de água ou falta de hábito? Seja o que for, prejudica a coabitação neste espaço reduzido que todos os dias somos obrigados a partilhar.

Já hoje é Quarta-feira, o dia fronteira entre a semana de trabalho e o tempo de descanso. Não sei por que razão estipulei este dia como marco para o fim-de-semana, mas o certo é que passada a Quarta-feira a semana entra a pique. A perspectiva do fim-de-semana dá-nos sempre a sensação de termos todo o tempo do mundo para pôr em dia as tarefas sistematicamente adiadas, para nos dedicarmos a um sem número de actividades consideradas aliciantes porque nunca temos tempo ou disponobilidade para elas. Sexta-feira à noite é uma sensação gloriosa, restam-nos dois longos dias pensamos nós, há filmes para ver, espectáculos para assistir, livros e jornais para ler. Uma ida ao cinema para variar da projecção em vídeo, sempre é outra coisa a emoção do grande ecrã. Como diz um amigo meu: "Como é possível alguém render-se à dimensão reduzida de um ecrã de televisão!". Realmente, não há como a casa de espectáculos, o apagar das luzes, o afundar na poltrona ... mas eis que começa o rumorejar das pipocas, o sorver na palhinha enterrada no copo de coca-cola e o cheiro a pizza. Não fora esta mistura de sons e a intensidade das ervas aromáticas que polvilham o quarto de pizza do rapazola sentado na cadeira ao lado e talvez eu pudesse voltar a ter aquela sensação mágica que me invadia nas sessões de Domingo à tarde, nos tempos da minha infância, sentado ao lado da minha mãe que muito discretamente, quando as luzes se apagavam, desembrulhava os pãezinhos com marmelada que trouxera para o lanche.

Sábado de manhã, o deambular obrigatório pelo bairro, o ritual da bica sorvida com deleite e a compra do volumoso semanário que todos os Sábados teimamos em carregar para casa enfiado no saquinho de plástico rectangular, embora saibamos que só conseguiremos ler uma terça parte de todo aquele papel. É impossível digerir tanta informação junta - caderno internacinal, caderno económico, caderno de espectáculos, caderno desportivo, cadernos ... cadernos ... cadernos. Se fosse tudo para ler, não restaria tempo para mais nada. Paga-se uma pipa de papel para só ler um terço, mas quando nos pavoneamos pela avenida baloiçando o saquinho rectangular recheado de notícias, sentimo-nos participativos, cidadãos do mundo, fazemos parte da intelectualidade que nos fustiga com as suas frases pomposas nos debates televisivos.

O tempo escasseia e ainda falta a ronda pela livraria mais próxima para ver as novidades ... mais um best-seller, mais um prémio Goncourt, o Pulitzer, o Booker Prize ... quanto custam? Gaita que os livros estão mesmo caros! Será por isso que se lê tão pouco? Em parte talvez seja, mas não só, a questão não é assim tão simplista. Há aqueles que podem e também não compram livros e quando os compram não os lêem, limitando-se a arrumá-los de forma metódica e organizada, na estante de estilo, entre patinhos de porcelana e retratos de família. O vizinho do 4º. Direito que costumo encontrar nas minhas deambulações pelas bancas dos livreiros, dizia-me há dias: "A minha mulher tem uma prima podre de rica que compra livros da mesma forma que compra batatas, ao quilo. Para ela, os livros destinam-se à decoração da estante, pelo que só os compra encadernados e com cores a condizer com a mobília". As novas gerações também estão desligadas da leitura, mas aí a problemática é outra, pertencem à era da imagem - televisão, vídeo, computador, internet ... mal balbuciaram as primeiras palavras e já estavam a manusear toda a gama de jogos electrónicos contra os quais o encantamento da Branca de Neve e as desventuras do Capuchinho Vermelho ficam em clara desvantagem.

Domingo à tarde, que entardecer deprimente!

( continua )

publicado por mmfmatos às 18:34
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