Segunda-feira, 17 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - I, 2.

2. FERNANDA

Todas as manhãs aquele indivíduo que eu baptizei como o "Sr. Fulano de Tal", enfia a cabeça naquele malfadado livro, até parece hipnotizado, não vê nem ouve nada do que está à volta, se calhar nem vai a ler, é só disfarce para não dar o lugar a qualquer velhota trôpega que entre no autocarro. A verdade é que ele também não vai sentado em nenhum dos lugares destinados a deficientes físicos, idosos, grávidas e acompanhantes de crianças de colo e, além disso, não me parece o género de pessoa que possa ceder à tentação altruísta de abdicar do seu lugar. Uma coisa é certa, para além daquele livro irritante, nada parece atrair a sua atenção. Nós aqui apertados como sardinha em lata e ele desfolhando página após página, tão alheio e insensível como se estivesse na sala de espera de um consultório médico ... Ui, que travagem mais brusca! O estafermo do motorista tem o pé pesado. Nem assim o "Sr. Fulano de Tal" levantou os olhos do maldito livro. Será que está lendo algum romance pornográfico? Um quarentão solitário em busca de prazeres solitários. Será? Estou para aqui a adivinhar quando nem sequer sei se ele é um quarentão solitário. Quarentão será, mas solitário já é invenção minha, provavelmente até se trata de um modelar chefe de família com mulher e filhos. Se bem que podemos sentir-nos solitários no meio de uma imensa multidão, portanto, por que não haverá ele de se sentir solitário entre a sua roliça cara-metade e a sua insuportável descendência? Espero bem que sim porque o "Sr. Fulano de Tal" desperta em mim uma tal irritação que prefiro imaginá-lo um ser frustrado, bisonho e fastidioso, um pobre diabo curvado às imprecações da mulher e aos desaforos dos filhos. A leitura transporta-o para o mundo dos seus sonhos, eleva-o para outra dimensão, permite-lhe saltar para outra vida, ser outro homem, traçar o seu próprio destino, esquecer a estreiteza do salário, a mediocridade do dia a dia, os meses que se sucedem monótonos, mas vertiginosamente, como se a vida fugisse num sopro, sem dar tempo sequer para agarrar um pedaço de bem-estar.

É uma sensação desconfortável não poder parar os ponteiros do relógio para reinventar a nossa existência. Não é sem razão que ouvimos tanta gente dizer: "Se eu pudesse voltar atrás e saber o que sei hoje". Mas também há quem responda: "Voltaria a fazer tudo da mesma maneira". Cambada de hipócritas. Pela parte que me toca, mudaria tudo e se tivesse poderes para isso, começaria por nascer noutra família e noutro país. Não estaria certamente aqui emprensada nesta amálgama de gente, entre sovacos exalando transpiração e narizes que fungam expelindo micróbios de gripes mal curadas. Ainda apanho uma carraspana o que não me dava jeito nenhum, só aturar a cara enfastiada do patrão quando me apresentasse ao serviço depois de passar três dias de molho encharcando lenços e engolindo xaropes para atacar uma tosse renitente. É sempre a mesma conversa: "Então menina, outra vez doente! O que foi agora? Está com boa cara ... ". Sinto vontade de responder: "Não me queixo da cara, o meu problema é a garganta", mas limito-me a dizer: "Estive muito engripada". Ele observa-me com um olhar de suspeição, tentando descortinar na minha cara qualquer indício que contrarie a minha alegada doença. Resmunga entre dentes qualquer coisa como: "Umm! Pode ser, pode ser ... agora traga-me o café, ligue-me ao chefe da divisão X, contacte o chefe da repartição Y, faça expedir a correspondência que pus na sua secretária, passe-me este relatório urgentemente" e estende-me uma rima de papéis manuscritos, tão riscados e emendados, com tantas setas para cima e para baixo, pescando e repescando frases e palavras, ora para o topo ora para o meio até se afundarem no rodapé envoltas num grande círculo. Dir-se-ia que toda a irritação se descarregara na esferográfica com a qual fizera as garatujas que eu era obrigada a decifrar. Antes de sair do gabinete, ainda o oiço dizer, retomando o assunto anterior: "E lembre-se de uma coisa, a falta de assiduidade é sinónimo de desleixo e ausência de brio profissional".

Parvalhão, cretino, este ano estive doente duas vezes e nunca por período superior a três ou quatro dias, tivesse ele de usar os transportes públicos atafulhados de gentalha mal lavada e cheia de mazelas! Este aqui ao lado tresanda a aguardente, deve ser o mata-bicho da manhã, só o bafo dele dá para embebedar os outros.

( continua )
publicado por mmfmatos às 11:42
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