Domingo, 29 de Janeiro de 2006

GENTE COMO TU E EU - IV, 5

5. FERNANDA

Há dias vi o André sentado num banco de jardim ao lado de um rapaz que só poderia ser o tal namorado com o qual pensa um dia - passe a ironia - juntar os trapinhos. O André assumia uma postura totalmente descontraída não se furtando a óbvios gestos de ternura tal como pegar na mão do companheiro ou apoiar-lhe a mão na coxa enquanto lhe dava pancadinhas com a testa naquele estilo turra que habitualmente utilizamos com as crianças. O outro aceitava as carícias, mas tinha um ar tímido, quase envergonhado, como se não se sentisse muito à-vontade com aquelas manifestações em local público.

Uma mulher de meia-idade que passeava o seu minúsculo cão ficou especada abanando a cabeça: "Já viu aquilo? Que falta de vergonha! Por acaso, hoje só trouxe o cão, olha se eu tinha trazido os meus netos?!". Eu estava prestes a concordar com ela, mas subitamente lembrei-me da minha mãe, aquela mulher tinha os modos irritantes da minha mãe e isso suscitou em mim uma vontade desenfreada de afrontá-la. Encolhi os ombros e repliquei: "Problema deles, cada um orienta a vida como entende". Perante a cara embasbacada da outra, fiz menção de me afastar, mas fui obrigada a travar o passo quando o André, tendo-me avistado lá do canto isolado onde momentos antes arrolhava com o seu companheiro, levantou o braço numa saudação amigável, gesticulando para que eu me aproximasse. Perante o olhar atónito da mulher, dirigi-me para eles, mas ainda a ouvi dizer, puxando abruptamente a trela do cão: "É tudo a mesma seita, o mundo está perdido".

Quando cheguei junto deles, o André chegou-se um pouco mais para o seu companheiro e bateu com a mão no banco convidando-me a sentar enquanto exclamava: "Olá Fernanda, então hoje não se trabalha?", "Só de manhã, fui ao dentista e apeteceu-me atravessar o jardim, não só para encurtar caminho, mas também para respirar um pouco de ar puro" respondi num tom tão atrapalhado que mais parecia um pedido de desculpas por os ter surpreendido. Que estupidez! Afinal de contas, estávamos num local público. O André é demasiado perspicaz para não se ter apercebido da minha atrapalhação e daí a subtil ironia que me pareceu descortinar no tom da sua voz: "É, faz bem respirar ar puro, embora já não seja assim tão puro. Aqui o meu amigo universitário -apontava para os livros que ele tinha pousados no banco - teve um furo no horário e como eu, na minha qualidade de trabalhador independente, faço a gestão do meu próprio horário, também viemos gozar um pouco do tal ar puro de que você fala". Não mencionou o nome do companheiro. Não sei se o fez prepositadamente ou se foi por simples esquecimento. Naquele jeito de quem fala só para não ficar calada, retorqui: "Claro que hoje em dia há poluição em todo o lado ...". Ele enfrentou-me com uma serenidade que me fez sentir ridícula e imbecil por não conseguir ultrapassar os meus preconceitos e agir com naturalidade e, sublinhando bem as palavras, respondeu: "Aí está uma verdade insofismável, a poluição está em todo o lado, especialmente a poluição humana, como a bruxa do cão que estava ao pé de si, deve ter os neurónios todos poluídos. Antes de você chegar, já ali estava a olhar para nós, eu não acredito em bruxas, mas aquela, se pudesse, deitava-nos o quebranto e fugia montada na vassoura com medo do contágio".

Não estava longe o tempo em que eu própria teria dificuldade em admitir a possibilidade de alguma vez estar ali sentada ao lado de dois maricas que se acariciavam no recanto de um jardim público. Nessa altura, o mais provável era eu ter estugado o passo e debandado antes mesmo de poder ser avistada pelo André, mas o certo é que alguma coisa devia ter mudado porque não só estava ali, como até começava a sentir-me bem. Sentia-me satisfeita com a atitude que tomara, pela primeira vez na vida sentia-me arrojada, como diria a Judite começava a sacudir as teias de aranha que tinha nos miolos . Dei comigo a rir perdidamente porque o André tem muito espírito e, esquecida a animosidade contra a bruxa do cão , deixou a conversa fluir, sem afectações nem artifícios, divertindo-me com episódios picarescos que ele sabia descrever com a graça e a finura de um autêntico humorista. A manhã passou rapidamente e, quando me dei conta das horas, fui obrigada a despedir-me dos meus imprevistos companheiros de banco de jardim porque me aguardava uma tarde de trabalho e: " Eu não sou universitária com furos no horário, nem trabalhadora independente gerindo o meu próprio horário", concluí pondo-me rapidamente de pé e, enquanto o seu tímido companheiro apertava polidamente a mão que eu lhe estendia, o André ignorou-a ostensivamente e pespegou-me um sonoro beijo na face. Não me deixou partir sem antes fazer um convite para mais um serão lá em casa: "Combine o dia com a Judite, a feitura do jantar fica por minha conta, as meninas só têm de comer e depois arrumar a cozinha. Já sabe, comigo, mulher na cozinha só descasca batata e lava a loiça". Recordando aquilo que a Judite costumava dizer sobre as qualidades culinárias do André, retorqui: "Já sei que nunca deixa as suas amigas aproximarem-se do tacho porque lhe estragam o tempero". Ele riu: "É isso mesmo. A Judite não tem grande jeito, mas, dentro da trivialidade, ainda consegue fazer qualquer coisa, agora a Susana, Meu Deus do Céu, nunca vi tamanha nulidade!". Acenei com a mão num último gesto de despedida e fiz menção de me afastar enquanto ele recomendava: "Não se esqueça, combine com a Judite, vou fazer Chateaubriand au Paradis . Soa bem, não soa?". Encolhi os ombros: "É verdade que soa bem, não sei o que é, mas soa bem".

Assim que cheguei, apressei-me a contar à Judite o encontro que tivera, realçando o facto de ter conhecido o rapaz que presumia tratar-se do namorado do impagável André . A minha voz devia estar impregnada de alguma excitação porque ela olhou-me calmamente e respondeu: "E o que é que isso tem de especial? No caso dele, o que não seria normal era encontrá-lo com uma namorada". Apressei-me a esclarecer que não ficara minimamente chocada e que até fora um episódio bem divertido; falei-lhe da atitude escandalizada da mulher do cão e da forma como eu reagi: "Digo-te uma coisa, ainda agora fico banzada com a minha reacção e o mais espantoso é que me sinto bem por ter agido daquela forma, por ter ousado desafiar as convenções. Há uns tempos atrás, teria fugido daqueles dois como o diabo da cruz e hoje, pasme-se, ficámos os três em amena cavaqueira, os três é como quem diz, os dois, eu e o André porque o outro quase não abriu a boca, ele é sempre assim tão acanhado?", "Não sei, não o conheço bem, só o vi duas ou três vezes e, por mero acaso, tal como tu. O André nunca o introduziu na nossa intimidade, penso que o outro ainda tem problemas em se assumir, questões de família, família tradicional, religiosa, essas coisas. Além disso, parece-me um bocado inseguro. O André é diferente, tem uma personalidade muito forte".

A Judite já me tinha contado que aos dezassete anos ele batera com a porta, deixando para trás uma vida confortável em casa dos pais burgueses abastados, conservadores e intolerantes, que renegaram o filho a partir do dia em que ele os estarreceu com esta afirmação categórica: "Pai, mãe, tenho a comunicar-lhes que sou homossexual". Houve gritos, lágrima, desaforos: "Meu Deus que vergonha, pensa nas tias, na avó, nas tuas irmãs, as meninas não podem saber disto, os nossos amigos, o que vão dizer os nossos amigos, valha-me Deus!" pranteava-se a mãe. O pai avançou para ele de punho erguido, rugindo impropérios, esquecendo que os cândidos ouvidos da sua virtuosa esposa não estavam habituados a palavras obscenas: " Paneleiro, um filho paneleiro em minha casa, nunca! Os homens desta família mijam para a parede, mas não levam no cu, seu paneleiro de merda!". E foi assim que o André, único filho varão daquela casa, deixou a família já lá vão doze anos, sem que ao longo deste tempo tivesse havido o mínimo contacto, dando cumprimento às últimas palavras do pai que, enquanto a mãe choramingava, esticava o braço em direcção à porta, berrando: "Põe-te a mexer e não voltes a aproximar-te desta família porque, a partir de agora, já não fazes parte dela". A mãe ainda tentou interferir como mediadora, alimentando a esperança de que tudo não passasse de uma atitude impertinente de jovem em fase de afirmação com o objectivo de afrontar os pais: "Vamos lá com calma - e virava-se para o marido - não vais dar tanta importância a uma parvoíce de garoto, ele ainda não tem idade para saber o que quer, o que lhe faz falta é uma namorada, deixa-o arranjar namorada e logo vês como muda de ideias - e virava-se para o filho - vais ver que quando começares a namorar perdes logo essas ideias malucas, são crises da adolescência, se for preciso, arranjamos um bom psicólogo, é isso mesmo, um bom psicólogo ... ". O André não a deixou continuar e gritou enraivecido: "Não quero porra de psicólogo nenhum, nem vou andar por aí namorando gajas para esconder da família e das tuas amiguinhas foleiras que é de gajos que eu gosto". Era demasiado forte, demasiado brutal para os ouvidos de qualquer mãe, mas para a mãe do André, particularmente vulnerável às aparências e completamente subjugada às instituições e à ordem estabelecida, foi uma hecatombe, uma maldição que se abatera sobre a sua família. No auge do desespero, desfez-se em lágrimas enquanto o marido, ciente da inutilidade de outros argumentos mais válidos, partia para a violência atingindo o filho com um soco e outros lhe sucederiam se o André não tivesse fugido trancando-se no seu quarto para, logo em seguida, enfiar num saco algumas roupas e sair rapidamente daquela casa para nunca mais voltar. Deixava para trás um casal em paranóico desespero, acusando-se mutuamente da falência de educação que poderia ter ocasionado os desvios comportamentais do filho parido macho e cuja obrigação era agir como tal. Aquele filho, coroa de glória de um pai persistente e inconformado que não queria desistir do almejado filho varão, arrostando com a relutância da mulher que já dera à luz três raparigas e temia a perspectiva de pela quarta vez ter de enfrentar a piedosa comiseração de parentes e amigos: "Outra rapariga?!!! Deixa lá, o importante é que seja saudável".

Quando a Judite me contou tudo isto, eu não pude deixar de perguntar: "Como é que um miúdo de dezassete anos, menino protegido e habituado a uma vida confortável, conseguiu desenrascar-se sozinho, sem casa, sem família, sem dinheiro?", "Comeu o pão que o diabo amassou, passou fome, passou frio, fez de tudo para sobreviver e, a certa altura, teve a ajude de alguém que o recolheu, um homem mais velho". A Judite viu estampado na minha cara aquilo que eu estava a pensar - Um velho nojento que se aproveitou do miúdo em situação desesperada - e apressou-se a esclarecer: "Foi um indivíduo impecável que o tratou como um filho. Vivia com um companheiro e compreendeu bem a situação do André porque também já tinha passado pelo mesmo. Uma coisa é certa, proporcionou-lhe estabilidade, um lar e a possibilidade de continuar a estudar. Apesar de já não viver lá em casa, o André continua a ter contactos com ele, visita-o de vez em quando, ultimamente até o faz com mais regularidade porque o companheiro morreu e ele está a atravessar um mau momento".

Não sei porquê, mas estava ansiosa por voltar a casa da Judite e dos amigos. Qualquer acontecimento que alterasse a minha vida rotineira e mesquinha punha-me em alvoroço. Por isso, apressei-me a informar a Judite: "O André convidou-me para jantar, disse para combinar contigo, vai fazer um Chateaubriand Qualquer Coisa, já esqueci o nome", "Á isso são nomes inventados por ele, o prato pode ser o mesmo, mas basta alterar o tempero ou a guarnição para alterar também o nome. O Chateaubriand já foi baptizado e rebaptizado não sei quantas vezes".

O jantar ficou marcado para a semana seguinte. O André brindou-nos com o seu Chateaubriand au Paradis que, segundo ele, devia o nome ao facto de nos elevar para as alturas do incomensurável, do transcendente e misterioso mundo que está para além das nossas mentes limitadas. A Susana soltou uma sonora gargalhada e, como animal hiperracional - as palavras são dela - que sempre fora e seria, pôs termo às exaltações do amigo: "Por que será que tu não reduzes um simples naco de carne à verdadeira dimensão que ele tem?", "Porque eu sou um artista, minha cara, e artista que se preza não pactua com banalidades". Depois do jantar, a Judite e a Susana trataram da arrumação da cozinha, não autorizando que eu limpasse um prato que fosse: "Tu hoje não fazes nada, limitas-te a ser a nossa convidada, ficas aqui sentadinha, conversas com o André o que já não é pouco, aturar este gajo não é tarefa fácil".

Permaneci calada, esperando que fosse ele a tomar a iniciativa de entabular conversação e aquele compasso de espera pareceu-me uma eternidade. Sobressaltei-me ao ouvi-lo disparar à queima-roupa: "Você tem um ar oprimido". Era uma estupidez tentar negar o que era por demais evidente e, ainda por cima, com uma pessoa tão perspicaz como o André. Limitei-me a responder: "Não é só o ar, eu fui criança oprimida, adolescente oprimida e agora que sou uma mulher continuo oprimida". Ele sorriu, mas era um sorriso animador de quem tenta incutir confiança: "Não precisa de ter esse ar envergonhado, o mundo está cheio de gente oprimida, o importante é chegar àquele momento em que temos a coragem de dizer basta, é agora ou nunca! E a partir daí seguramos as rédeas da vida que é só nossa e que ninguém tem o direito de comandar", "Não é fácil - repliquei - penso muitas vezes nisso, em dar novo rumo à minha vida, mas acabo sempre por vacilar, fico amarrada ao maldito sentimento de culpa enquanto oiço as lamúrias da minha mãe e quando olho para o meu pai embasbacado naquela cadeira de rodas", "Nunca é fácil defraudar as expectativas que os outros depositaram em nós. Pensa que foi fácil para mim? Bem lá no fundo, fica sempre uma certa amargura, mas aqui estou, sobrevivi e, fazendo um balanço final, o que ganhei em termos de amor-próprio, o livre arbítrio, o direito de ser eu mesmo em vez de um arremedo de gente, compensa bem o que deixei para trás". Dito isto, falou-me dos seus projectos, do muito que esperava ainda fazer: "Por enquanto, faço umas fotografias para revistas e jornais, umas festas, casamentos, baptizados e outras merdas do género, mas não é esse o meu objectivo. Quando tenho tempo, saio por aí e faço fotografia a sério que vou compilando para um livro que tenho em mente, mas este é um projecto a longo prazo porque, antes disso, tenciono expor os meus trabalhos, material não me falta e o resto que, por sinal, é o mais difícil de obter, também há-de surgir. Eu sou optimista por natureza e confio na minha boa estrela, um dia virá em que poderei viver da minha arte sem ser obrigado a fotografar casórios e festas pindéricas para garantir o meu sustento".

Ele falou, falou e eu, ouvinte compulsiva por defeito de educação, pouco encontrava para dizer, limitando-me a alguns acenos de cabeça acompanhados de pequenas frases intercalares tais como - Pois com certeza ... acho que sim ... faz muito bem - até que a Judite e a Susana, já libertas da cozinha, se vieram juntar a nós. Suspirei de alívio porque no meio da tagarelice das outras duas mais facilmente passaria despercebida a minha inabilidade coloquial. Não é que me faltasse assunto, tinha tanto para dizer se tivesse coragem para me abrir o mostrar tudo o que calcava e remordia no íntimo do meu ser angustiado, mas o medo do ridículo, o horror que tinha à exposição pública das minhas carências, aferrolhava-me o pensamento e o diálogo. Mas eis que no meio da conversa em que cada um confessava os seus desejos mais íntimos e libertários, a Susana se virou para mim: "E você Fernanda, quais são as suas aspirações? Conte-nos alguma coisa a seu respeito, qual a coisa mais ousada que fez até hoje ou que, pelo menos, faria se soubesse que o mundo iria acabar amanhã?". Fiquei meia aturdida com a interpelação dela e gaguejei atrapalhada: "Ora, Susana, que raio de pergunta, não sei onde quer chegar?". Ela soltou uma sonora gargalhada: "Sabe muito bem, mas deixe-me pôr as coisas noutros termos. Toda a gente tem no seu íntimo fantasias inconfessadas que gostaria de pôr em prática se não tivesse a mente atrofiada por anos de educação repressiva. Por isso lhe pergunto, se soubesse que não haveria mais o dia depois de amanhã , qual seria o seu acto mais ousado?". A Judite veio em meu socorro: "Caramba, Susana, isso é um raio de uma pergunta muito estúpida, ninguém seria capaz de fazer o que quer que fosse se soubesse que o mundo iria acabar no dia seguinte, nem mesmo tu, por muito exóticos que sejam os teus gostos. Ficarias tão paralisada de medo como qualquer um de nós". A Susana gesticulava com ambas as mãos, aquelas mãos enormes e voluntariosas, retorquindo impaciente: "Ora que gaita de conversa a tua! Quando eu falei de fim do mundo, era uma figura de retórica para pressionar, ou antes, estimular aqui a nossa amiga a soltar cá para fora os anseios que forçosamente estarão recalcados dentro da sua cabeça. Só lhe faria bem - virou-se para mim - oiça o conselho de alguém que já esteve à beira do precipício, o compartimento onde armazenamos os traumas e as frustrações não se expande indefinidamente e, quando menos esperamos, esgotou a lotação e ... Bum!!! Vamos mesmo ao fundo". O cigarro que segurava entre os dedos ardera até ao filtro e ela esborrachou-o no cinzeiro bruscamente.

O André fez um gesto para que ela se calasse porque a minha estupefacção devia ter suscitado nele um certo movimento de solidariedade, mas eu fiz um esforço para vencer a timidez e exclamei: "Não, não, deixem-na falar, eu compreendo o que a Susana quer dizer e até lhe dou razão. Há montes de coisas na vida que nós não fazemos por falta de coragem, por medo das consequências, por medo de enfrentar os outros, por medo de afrontar as convenções, passamos a vida com medo de tudo, pelo menos comigo tem sido sempre assim. Tenho passado metade da vida a fugir às decisões que deveria tomar e a outra metade a lamentar as decisões que não tomei. Depois consolo-me pensando é o meu destino, não há nada a fazer, cada um é para o que nasce". Soltei um longo suspiro e calei-me aliviada, não só aliviada, mas também espantada por ter conseguido expor-me daquela maneira. Os outros também estavam atónitos com esta demonstração de coragem por parte de uma pessoa que até aí lhes parecera um tanto amorfa. O André ergueu o polegar em sinal de aprovação, mimando-me com uma piscadela de olho enternecida enquando a Susana, soltando um prolongado assobio, batia palmas ao mesmo tempo que dizia: "Muito bem, Fernanda, aí está um bom começo no sentido da regeneração, só conseguimos vencer os traumas que nos afligem conhecendo o nosso avesso porque o invólucro não engana só os outros, também engana a nós próprios ".

É estranho, mas ao regressar a casa, em vez daquele corpo sem alma com que me arrastava todos os dias, sentia que qualquer coisa estava realmente a mudar dentro de mim. Seria a tal regeneração de que falava a Susana? Talvez. Pelo menos naquela noite, sentia que o meu avesso estava leve e arejado, como se tivesse sido objecto de um longo e salutar processo de purgação.

( continua )

publicado por mmfmatos às 12:26
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3 comentários:
De Anónimo a 2 de Março de 2006 às 19:35
O que é que a "menina" anda a fazer que nunca mais escreveu nada?
Beijinho.José S.
(http://ruadobeco.blogs.sapo.pt)
(mailto:jgjs2@sapo.pt)
De Anónimo a 17 de Fevereiro de 2006 às 01:39
Olá , gostei do que li. jinhos fofosIsa
(http:/7singular.blogs.sapo.pt)
(mailto:singularidade@sapo.pt)
De Anónimo a 13 de Fevereiro de 2006 às 22:52
Finalmente voltas a brindar-nos com estes textos maravilhosos. Fui passando, semana após semana e já me tinha convencido que tinhas desistido, até que hoje a minha mulher me alertou para o teu regresso que, a ver pela data, já foi à um par de semanas.
Um beijinho e muita inspiração
José S.
(http://ruadobeco.blogs.sapo.pt)
(mailto:jgjs2@sapo.pt)

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