Segunda-feira, 17 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - I, 3

3. RAMIRO

Porque será que esta gaja vai com um ar tão enjoado? Se calhar queria ir sozinha nesta geringonça, não deve gostar de andar apertada a "madame", quem quer viajar à larga vai de taxi, cá por mim tem gostos de princesa, mas tem bolsa de pelintra. Paciência minha linda, estamos todos no mesmo barco, se eu tivesse cheta também não estava aqui, ainda estava a dar a primeira volta na cama, metido em vale de lençóis, mas como dizia a minha avó, quem não trabuca não manduca. O maço aqui do rapaz nunca deu para grande coisa, pelo menos era o que dizia a professora lá na escola e também a minha velha não estava muito interessada num filho "com jeito para as letras" como ela dizia, só que aprendesse a ler e fizesse a primária já era bom porque quanto mais depressa começasse a trabalhar melhor, não ganhava vícios e como o que o esperava era uma enxada nas mãos, não precisava de grandes estudos. Não tive os estudos, mas assim que pude livrei-me logo da enxada, com grande pesar da minha velha: "Ai, filho! O que vais tu fazer para Lisboa? Aqui sempre tens umas terrinhas para amanhar!". Mas eu não lhe dei ouvidos: "Terra pequena nunca fez homem grande, ninguém ganha dinheiro a cavar e eu vou mas é cavar daqui para fora". E ela a insistir: "Mas filho, sempre ouve pobres e ricos, quem nasceu para chinelo, nunca chega a ser sapato". E não é que a velha tinha razão! Nunca passei de chinelo, levantando e baixando a picareta, partindo pedra, empilhando tijolo, amassando cimento, carregando baldes andaime acima e andaime abaixo. Sempre tinha razão a minha velha. O melhor que consegui até agora, foi passar à "arte de ladrilhador", pelo menos trabalho debaixo de telha e tenho um trolha negro para me dar serventia.

Quando deixei a aldeia tinha sonhos de grandeza, corria atrás de miragens de opulência, via-me instalado ao volante de um carrão como o do Celestino empreiteiro que, mal sabendo ler e escrever, se pavoneava com a "patroa" carregada de ouro à volta do pescoço e cheia de anéis tipo "cachucho" nos dedos curtos e sapudos. O Celestino também nunca tinha dado nada para as letras, mas de contas sabia ele, não precisava de papel e lápis, mas tinha a tabuada toda no bestunto e foi sempre somando o danado, pela vida fora foi sempre somando. Transpirava abundância por todos os poros, espetando a barrigana inchada que tombava sobre o cinto descaído onde já não havia mais furos para alargar.

Foi o modelo da minha juventude. Se ele conseguira por que haveria eu de fracassar, contas de cabeça também eu sabia fazer: "É como te digo meu rapaz - dizia ele batendo na barriga como se fosse um tambor - o que é preciso é olho vivo e pé ligeiro, fossei muito na vida e nunca tive medo de investir, esta carola nunca para, na escola tinha fama de burro, mas os inteligentes andam na "tesúria" enquanto eu dou cartas a eles todos". E o Celestino continuava a bater com as mãos na barriga enquanto a "patroa" se desfazia num sorriso de orelha a orelha, franzindo as bochechas luzidias e contemplando o seu homem com desvelo e submissa admiração. E o Celestino voltava à carga: "Pois é como te digo meu rapaz, tu és vivaço, sai daqui, não fiques nesta parvalheira, mas não penses que podes começar logo do alto, é preciso ser humilde, aqui onde me vês, fartei-me de vergar a mola". Vergar a mola foi tudo o que eu fiz até agora e da vida do Celestino só consegui igualar o inchaço da barriga à custa de umas cervejolas e dos cozidos bem regados com tinto da casa na tasca onde às vezes como fiado até chegar o fim do mês. Sim porque eles sabem que cá o rapaz é de boas contas, assim que chega o dia da féria, continhas no balcão, é chapa batida chapa gasta, mas calotes é que não. Passo metade do mês quase liso, mas a renda do quarto e as contas das bacalhoadas e cozidos à portuguesa com que me empanturro quando cheiro dinheiro fresco nunca ficam em dívida.

A dona da casa não se cansa de me dizer: "O que você precisava era de uma mulher que o soubesse orientar porque só a sua cabeça não dá lá grande coisa", "Ora D.Etelvina, aquela com quem vivi, não se orientava a ela quanto mais a mim, ou antes, orientou-me para o clube dos chavelhudos. De qualquer maneira, já não me habituava a viver com mulher certa, não há como pegar e largar, nem direitos nem deveres". A D.Etelvina, a quem os vizinhos tratam por D.Vina, é uma velhota robusta que sobrevive com a magra pensão deixada pelo seu defunto Inácio acrescida das rendas dos dois quartos que tem alugados e, de vez em quando, de alguns dólares que o filho Armando lhe manda do Canadá, mas gaba-se de ter o seu pé de meia para qualquer emergência e não compreende esta minha forma de vida, sem rei nem roque como ela lhe chama.

( continua )
publicado por mmfmatos às 16:16
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4 comentários:
De Anónimo a 18 de Outubro de 2005 às 14:59
vim cá por um convite, e sabes que mais? gostei imenso, da maneira como fazes correr a história, é sempre tudo a correr, gostei e voltarei.
sofialisboasofialisboa
(http://sofialisboa.blogs.sapo.pt/)
(mailto:sofialisboa@hotmail.com)
De Anónimo a 18 de Outubro de 2005 às 00:07
É! No fim e ao cabo somos todos feitos da mesma matéria. Estou a gostar, e vou volatr com toda a certeza. Excelente escrita.Piconoclasta
(http://iconoclasta.blogs.sapo.pt)
(mailto:Piconoclasta@sapo.pt)
De Anónimo a 18 de Outubro de 2005 às 00:04
As aventuras e desventuras está muito engraçado.
beijo meuisa
(http://singular.blogs.sapo.pt)
(mailto:singularidade@sapo.pt)
De Anónimo a 17 de Outubro de 2005 às 21:30
Fernanda,Ramiro e Raúl,personagens mais ou menos actuais.Estou curiosa com as suas histórias,penso que sejam as histórias de vida de muitos outros Ramiros e companhia.
Bjos e fico aguardar os próximos capitulos kaldinhas
(http://kaldinhas1.blogs.sapo.pt/)
(mailto:kaldinhas@sapo.pt)

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