Terça-feira, 18 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - I, 4

4. RAÚL

Ó que gaita! O motorista parece que vai bêbado, só trava em cima da paragem. Se isto não fosse tão cheio, já havia gente a rebolar pelo chão. Felizmente arranjei lugar sentado, mas com tantos solavancos nem consigo ler em condições, dizem que faz mal ler nos transportes e talvez seja verdade, mas perdoa-se o mal que faz pelo bem que sabe, é o único sítio onde ninguém me incomoda, onde consigo ler descansado. Que situação bizarra não ter outro lugar mais recatado para me entregar à leitura do que este autocarro apinhado de gente! Parece caricato, mas para quem conhece a minha casa é plenamente compreesível - uma mulher cuja tagarelice explode nas alturas mais inoportunas, com os assuntos mais carenciados de interesse, já não suporto mais a indigência mental da minha mulher. Entre o preço do peixe e da fruta, a artrose do marido da vizinha, os diabetes da filha da porteira, o correio sentimental das revistas coscuvilheiras e o vilão da telenovela, eu perco a concentração, fico cobardemente entalado numa cadeia de frases disparadas de supetão, imaginando quão feliz me sentiria se ela fosse subitamente atacada pelo vírus da mudez, mas tal vírus não existe, entre milhões de vírus que pululam este vasto planeta, logo havia de faltar o que mais jeito me dava.

Ela sempre foi oca e superficial, mas quando a conheci foi o que me atraiu, achava-lhe graça, fazia-me bem ao ego ter uma bonequinha para manipular, uma cabecinha tola para moldar, eu sofria do que se poderá chamar o síndroma de Pigmalião. Com o decorrer do tempo, a missão que me empolgara perdeu a graça. A falta de talento do professor e a abstrusa indiferença da aluna por tudo o que ultrapassasse o seu universo doméstico, redundaram num fracasso total. Os diálogos transformaram-se em monólogos e os momentos a sós com ela tornaram-se cada vez mais penosos. Mais penoso ainda é aquele sentimento de desprezo que vejo estampado no seu olhar sempre que vem à baila o assunto relacionado com os filhos que não tivemos. Durante muito tempo eu atribuíra a falta de um filho à esterilidade dela, mas quando o médico lhe garantiu que o seu aparelho reprodutor não sofria de qualquer anomalia que justificasse a ausência da tão desejada gravidez, as suspeitas viraram-se para a operacionalidade dos meus testículos. Com enorme relutância, submeti-me aos testes necessários e o veredicto foi implacável para as minha prerrogativas de macho - os meus espermatozóides eram tão fracos e diminutos que não tinham eficácia para emprenharem quem quer que fosse. A partir daí, ela nunca mais deixou de me olhar daquela maneira, como se quisesse dizer: "Pedaço de galho seco, nem semente tens para dar".

Ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro ... faltam-me todos os atributos de um verdadeiro homem ... ora! Preconceitos, frases feitas, convencionou-se que todos os homens terão de se reger segundo os cânones ancestrais - pai, família, tribo, religião ... que se lixe a tradição! Uma vantagem tenho eu, os meus testículos estéreis não podem emprenhar ninguém, posso rebolar-me à vontade com A, B ou C, sem que haja o perigo de me baterem à porta com um filho nos braços reclamando pensão de alimentos ou a pedir dinheiro para o aborto. Não tenho as alegrias, mas também não tenho as tristezas. À guisa de compensação, aventuras extra matrimoniais não me têm faltado ... agora mesmo, se quisesse engatar aquela ruiva artificial, era só acusar o toque porque ela não para de olhar para mim, está a fazer-me o rente e eu a ver, uuum ... até que tem um perfume agradável, mas um bocado enjoativo, deve ser daquelas fragrâncias das body shop - vanilla, blueberry, musk, ananya, satsuma ... qualquer coisa desse género.

Estão muito na moda os produtos das body shop, as mulheres lá da repartição fazem grande publicidade aos tais produtos ditos naturais, o mito, a ilusão da eterna juventude!... "Não têm químicos" dizem elas mostrando um boião de creme à base de algas, cujo rótulo promete adelgaçar cochas opulentas de celulite, um frasco de óleo à base de aloé vera, um gel de banho, misto de tília e aveia, gérmen de trigo e polpa de abacate que lubrificam, hidratam, rejuvenescem, tonificam, enrijam e esticam a pele. É uma tentação para as cútis ressequidas, enrugadas e flácidas ou em vias disso. A ilusão vendida pelas body shop deve render muito dinheiro a avaliar pela avidez extasiada com que desfilam as mulheres de pele murcha pelos escaparates repletos de produtos aliciantes que prometem o retorno à juventude perdida. A devastação produzida pelo tempo é irreversível, mas como um náufrago que se agarra à tábua de salvação, elas agarram-se a máscaras de argila, de pepino, de cenoura, cremes de manteiga de cacau, de calendula, óleos de mele, tónicos de orquídea e camomila, procurando desesperadamente encontrar na profusão luxuriante da natureza a fórmula mágica que devolva à sua fisionomia, a que os anos emprestaram aquele aspecto mole e ondulado de balão que perdeu o ar, os contornos rígidos e bem delineados de outrora.

( continua )
publicado por mmfmatos às 12:30
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