Terça-feira, 18 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - I, 5

5. FERNANDA

Aleluia! O "Sr. Fulano de Tal" levantou a cabeça do seu famoso livro e parece que está a olhar para mim. Vendo bem tem olhos de engatatão, até que o maduro é jeitoso, sempre gostei de homens com cabelos grisalhos nas têmporas, dão um certo ar, só é pena que não tenha a galantaria dos antigos cavalheiros. No tempo da minha mãe seria impensável um homem não dar o lugar a uma senhora. Agora até nos empurram para alcançar o lugar antes de nós, aqui está um aspecto da igualdade entre os sexos que eles aceitaram sem reservas.

Quando algo corre mal no serviço, é ouvi-los logo atirar à laia de profecia: "Isto está cheio de mulheres, como é que pode funcionar em condições!". Pelos vistos, o acesso das mulheres ao mercado de trabalho espatifou a eficácia das instituições. Quando a eficiência de uma mulher é de tal forma inegável e evidente que se torna impossível contestar, avançam com a condescendência do senhor feudal que, excepcionalmente, aceita no seu castelo o trovador talentoso, mas plebeu: "É tão competente como qualquer homem". Mas ela que se cuide porque ao mais pequeno deslize, lá estarão os profetas da desgraça: "Nem outra coisa era de esperar! Mulheres em lugares destes nunca poderia dar certo, as mulheres nasceram para ser mandadas e não para mandar". O meu pai costumava dizer: "Nem mulher que saiba latim, nem mula que faça iiiiiiim!". Para o meu pai, as mulheres fora do reduto do lar transformavam-se em aberrações da natureza, pior ainda, tornavam-se mulheres perdidas, sem respeito por elas próprias nem pelos maridos, aos quais competia garantir o sustento do lar enquanto elas estavam destinadas às tarefas caseiras, à criação dos filhos, mantendo a harmonia do lar com os dotes que todas as mulheres prendadas tinham obrigação de possuir.

As teorias do meu pai sobre o papel da mulher na sociedade foram responsáveis por esta insatisfação que há-de acompanhar-me a vida toda e que ainda dói como um espinho bem cravado no local mais íntimo e recôndito do meu subconsciente. Ao princípio era uma angústia, uma raiva mal contida, mas sobretudo um desprezo por mim própria pela cobardia que não me deixava enfrentar a sua tacanha tirania e que muito lá no fundo me fazia amaldiçoar o progenitor que tinha. Dei comigo várias vezes a pensar: "Se ele morresse era um alívio", mas logo rejeitava este pensamento com um sentimento de culpa que ainda era mais doloroso do que a frustração pelos sonhos que acalentara desde sempre e que não conseguira realizar por me faltar coragem para enfrentar a autoridade paterna. E, no entanto, as minhas aspirações eram bem prosaicas, sempre sonhara ser enfermeira, profissão que para ele tinha foros de libertinagem - horários nocturnos, contactos com médicos pervertidos, a contemplação de corpos desnudados, a linguagem "desbragada" que era, afinal, chamar as coisas pelos nomes que constam dos manuais de anatomia. Segundo ele, além de doméstica, só havia uma profissão digna de uma mulher decente - professora.

Não estudei enfermagem e como não tinha vocação para o ensino, perdi os anos mais energéticos da minha vida ajudando a minha mãe nas lidas caseiras e só quando ele foi empurrado para a aposentação vitimado pela incapacidade de uma esclerose múltipla, tive liberdade para procurar emprego, mas já era tarde para realizações pessoais. Só me restava aceitar qualquer empregozeco que ajudasse a equilibrar a economia doméstica muito debilitada com a doença do meu pai e com a escassez da sua mísera pensão de reforma antecipada. Há momentos na vida que são decisivos e é preciso saber agarrá-los. Se por falta de coragem ou por inépcia não conseguimos dar o salto entre a acomodatícia mediocridade do ramerrão e o empolgante entusiasmo que nos empurra para a concretização dos nossos sonhos, ficamos para sempre presos nas grilhetas da nossa incapacidade, fica-nos para sempre aquele sabor amargo de ter passado pela vida sem lhe ter tocado. Fazer e fracassar dói, mas não chegar a fazer deixa sempre um tal vazio que nada pode preencher.

Não sei por que me deu hoje para isto, o que lá vai, lá vai, não vale a pena chorar sobre o leite derramado, nem todos merecem as benesses da vida, às vezes penso que o conformismo mata, pelo menos mata a capacidade e a vontade de lutar, ora ... que imbecilidade a minha! O conformismo é a própria negação da capacidade de lutar. O indivíduo lutador nunca se acomoda, mesmo derrotado nunca se acomoda e vai até ao fim, morre se for preciso na busca incessante do ideal que norteou a sua existência. Por outro lado, não sei se isso será mérito ou demérito porque aceitar aquilo que a vida nos pôde dar, ou para ser menos fatalista, aquilo que tivemos talento para alcançar, também é uma forma de sobrevivência. Para citar alguém, de quem já esqueci o nome: "Mais vale um imbecil vivo do que um génio morto". Tenho aqui um exemplo disso neste "Bafo de Bagaço" que me está abalroando as costas.

( continua )
publicado por mmfmatos às 17:58
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