Terça-feira, 18 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - I, 6

6. RAMIRO

A serigaita enjoada tem um perfume esquisito, parece o cheiro das fumigações que a bruxa do 3º. esquerdo espalhava pelo prédio todo quando eu vivia no 3º. direito com a dita que me pôs os cornos: "Bruxa não! A D. Olímpia deita cartas e olha que tem dado tudo certo" gritava a Ofélia, cada vez que eu me insurgia contra as visitas regulares que ela fazia ao 3º. esquerdo, deixando lá parte do meu salário. Nunca cheguei a saber o que se passava naquelas sessões, mas quando descobri o par de cornos com que a Ofélia me enfeitou, cheguei à conclusão de que a tal Olímpia cartomante, enquanto embolsava o meu dinheiro, também atirava com o filho, um calmeirão inútil e estróina que trocava os dias pelas noites, para cima da minha Ofélia que ao que parece não opôs grande resistência e entrou com facilidade na cama do garanhão, o qual ainda por cima passava lá as manhãs enquanto eu galgava cedo para pegar no batente com que pagava o sustento da casa e as sessões da bruxa.

Como já vem sendo tradição nestes casos, todo o prédio, para não dizer todo o bairro, soube antes de mim. O romance Ofélia/Octávio só chegou ao meu conhecimento quando já tinha sido motivo de conversas, risos e chacota por parte da vizinhança toda. A Ofélia gritou a sua inocência, esbracejou, arrepelou-se toda, jurou pela alma da "santinha da mãe que já lá está ...", guinchou e esperneou, protegendo a cara com as mãos das lambadas enfurecidas que eu lhe descarregava em cima. A sensação de trazer estampada na cara a palavra "cornudo" ( não sei se era impressão minha, mas cada vez que me cruzava com algum dos vizinhos, parecia notar-lhe um olhar de gozo que me arrepiava a espinha) levou-me a procurar outro sítio para morar. Foi nessa altura que mudei para uma rua, no quarteirão a seguir, onde aluguei o quarto à D.Etelvina numa daquelas casas antigas de corredor estreito e comprido para onde dão todos os quartos, com portas altas encimadas com bandeiras de vidro.

Não me tenho dado nada mal. A velhota é asseada, tem sempre o quarto num brinquinho e às vezes até me deixa petiscar do tacho dela que não é nada mau porque a velha foi, em tempos, cozinheira em casa de gente rica e sempre lhe ficou o dedo apurado para o petisco. Para mais eu vinha habituado às caldibanadas da Ofélia que, diga-se de passagem, não tinha jeiteira nenhuma para a cozinha e era abandalhada no arranjo da casa; além de ser boa na cama, não lhe conheci outros dotes de mulher. Tirando aquela mania de me querer casar, a D. Etelvina até faz boa companhia. Às vezes, ao serão, quando não me apetece ir até à tasca, fico sentado ao seu lado em frente à televisão, obrigatoriamente mudo até acabar a telenovela porque a hora da telenovela é sagrada para ela.Quando esta acaba e eu estou com pachorra para a ouvir, conta-me histórias quase tão velhas como ela. Recorda os tempos em que havia hortas em Lisboa, vendedoras pelas ruas apregoando "figuinhos de capa rota", as leiteiras que iam de porta em porta vendendo leite que transportavam em recipientes de alumínio, a água de Caneças que se vendia em bilhas de barro, o marçano que percorria todo o quarteirão, de lápis na orelha, fazendo o role das encomendas que depois carregava ao ombro em grandes cestos para entrega ao domicílio: "Você não tem destas recordações - diz-me ela - viveu sempre na aldeia". Ao que eu respondo: "Não tenho essas, mas tenho outras, D. Etelvina, porque na aldeia também se nasce, cresce e morre". Agora morre-se mais do que se nasce porque os jovens foram-se embora e os velhos lá ficaram esperando que os filhos e os netos apareçam, uma vez por ano, uns da França outros da Alemanha, para matar saudades da terra que os viu nascer, mas que não lhes deu o sustento a que tinham direito e que se viram obrigados a procurar noutro sítio.

Ninguém devia ter necessidade de deixar as suas raizes para ganhar o pão de cada dia e amealhar uns tostões para poder levantar as paredes de uma casa. Muitos acabam por construir a casa com que sonharam e onde passam um mês de férias no Verão, mas por quanto tempo? Os filhos já não falam a língua dos pais, andam noutras escolas, noutros mundos, e não lhes passa pela cabeça deixar os países onde foram criados para acompanhar os pais no regresso a uma terra que nada tem para lhes oferecer e com a qual já não têm qualquer afinidade. Às vezes ponho-me a falar destas coisas com a D. Etelvina, mas ela não concorda comigo, acha que as raízes são muito importantes, que há sempre o regresso às origens e que a terra dos nossos antepassados é a nossa verdadeira terra. Para mim, isso é conversa fiada; a nossa terra é aquela onde nos sentimos bem, aquela onde construímos a nossa vida e isso das origens e dos antepassados não enche barriga.

Pelo menos, é o que acontece comigo, já não me lembro quando fui à terra pela última vez. Quando a minha velha era viva ainda lá ia de vez em quando e agora tenho pena de não ter ido mais vezes, parece que a estou a ouvir: "Vens cá tão pouco, estou para aqui abandonada, não estás assim tão longe ... ". Realmente a distância, uns escassos 200 km não era a razão do meu afastamento, mas faltava-me a vontade, parecia que já nada me ligava à terra que me vira nascer e onde vivera alimentando sonhos de adolescente e esperanças num futuro bem diferente desta vida mesquinha que levo. Se calhar, foi o fracasso das minhas aspirações que me afastou de lá. Tivesse eu conseguido prosperar como o Celestino e talvez as coisas fossem diferentes, aí seria bom passear pela aldeia, sentir os olhares dos meus conterrâneos , uns de inveja, outros de admiração, mais um abraço, mais uma palmada nas costas, até o Edmundo teria perdido aquele ar todo arrogante sempre que a minha velha se ia lá aviar de mercearias pedindo humildemente: "Pode pôr na conta Sr. Edmundo? No fim do mês acertamos tudo". Sempre foi um emproado aquele Edmundo, à custa do role vendia tudo mais caro, mas fazia sempre aquele ar enfadado, embora a minha mãe acertasse ali as continhas todos os meses, nunca ficou a dever um "tusto", mas o paspalho só ligava a quem tinha algum no bolso e como tinha o filho na Universidade já se estava a ver pai de doutor. Pois é, se o meu rumo tivesse sido diferente ... mas assim, o que ia eu lá fazer? Sentir à minha volta os olhares de gozo das gentes da terra? Até parece que os estou a ouvir: "Quem não vale aqui, também não vale lá, quem sai aos seus não degenera, já o pai só dava rendimento a emborcar copos, este vai pelo mesmo caminho". Não era fácil aguentar o desprezo dos outros e, só por isso, não fui lá mais vezes, mas agora tenho pena e já não há remédio porque a minha velha já não está lá para eu a poder visitar.

( continua )
publicado por mmfmatos às 19:04
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De Anónimo a 19 de Outubro de 2005 às 16:37
Vim através do PACIENTE PORTUGUÊS e “agarrei” uns bons momentos de leitura. Pena que eu não gosto muito de ler no monitor mas valeu a pena o esforçar da vista.
Fico à espera do próximo “conto”(?).
José S.
(http://ruadobeco.blogs.sapo.pt)
(mailto:jgjs2@sapo.pt)

Comentar post

.pesquisar

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.arquivos

. Março 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

.subscrever feeds