Quarta-feira, 19 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - I, 7

7. RAÚL

Ó que seca! Não sei porquê, mas hoje não consigo concentrar-me na leitura, há qualquer coisa no ar que anda a preocupar-me, a Beatriz anda diferente, cheia de mistérios e insinuações, irritadiça, é isso, irritadiça é o termo e o que me preocupa é que não consigo descortinar a razão da sua mudança de comportamento. Por outro lado, cada vez sinto mais necessidade de fugir de situações que me alterem a rotina e nada é mais pernicioso para uma rotina bem vivida do que as discussões. Esta minha indolência tem aumentado com a idade, a contestação é uma atitude tão cansativa! Na realidade, já ultrapassei a idade da contestação, canalizo as energias para actividades mais interessantes. Lá na repartição, até consegui criar áurea de conquistador, espiam-me os movimentos, os telefonemas: " Ó Freitas, está uma chamada para ti na ext. 1215, é a gaja dos CTT, pelo menos parece a voz dela, não sabia que ainda estavas nessa ... ". O Semedo tem sempre aquele arzinho de cumplicidade a que junta uma piscadela de olho cada vez que atende telefonema de mulher que me seja dirigido. Até pode ser a empregada da Técnosom, Sonotécnica, Electrotecnosom ... ou qualquer outra coisa do género a informar que o meu televisor já está arranjado, mas o Semedo transforma em conquistas tudo o que for voz de mulher do outro lado da linha, arquitectando romances clandestinos e atribuindo-me toda uma panóplia de aventuras de causar inveja a qualquer sultão desses romances melados que povoam os sonhos de costureiras e balconistas. Eu encolho os ombros e desminto: "Não é nada do que estás a pensar, pá! É da empresa Técno...tal, por causa do televisor". Tenho o cuidado de emprestar às minhas palavras um ar tão pouco convicto que ainda faz aumentar mais as suspeitas do Semedo: "Está bem! Chama-lhe nomes, tens sorte que aqui o rapaz é uma tumba, mas se chega alguma coisa aos ouvidos da Beatriz ... ela já se anda a queixar com falta de assistência, diz que anda a tomar a pílula para nada; claro que não foi a mim que o disse, mas já sabes como são as confidências entre mulheres, cada uma passa à outra e vai pedindo segredo".

A Beatriz, com quem mantenho uma relação à quase dois anos, trabalha no Departamento de Informática, dois andares abaixo, e como toda a gente lá no serviço ignora que eu sou estéril. O Semedo, pai de família orgulhoso da sua prole e para quem um matrimónio sem filhos é como um circo sem palhaços, diz-me repetidamente, referindo-se à Beatriz: "Se eu fosse a ti, engravidava-a, havia de convencê-la. Já que a tua mulher não pode ter filhos ...". A pretensa esterilidade da Isilda é a única versão compatível com a minha popularidade de macho robusto pois nunca tive a coragem de admitir, perante os outros, a minha incapacidade para transmitir os genes que me foram legados pelos meus progenitores. Primeiro timidamente, o que foi encarado como manifestação de pudor e respeito pela "pobre Isilda", alvitrei uma qualquer deficiência nas trompas que impossibilitava a gestação do tão ambicionado herdeiro. Com o decorrer do tempo, passei a afirmações mais categóricas e, até agora, tenho conseguido salvaguardar a imagem que emprestei a mim próprio, resistindo heroicamente às investidas do Semedo que não desiste da sua campanha a favor dos prazeres da paternidade com frases decalcadas de manuais e revistas: "Os filhos representam a continuidade, aliviam a angústia provocada pela precaridade do ser e a inevitabilidade da morte, os filhos é que dão sentido à vida, com eles fica cumprida a principal função do homem" e termina sempre com o mesmo conselho: "Engravida a Beatriz, pá, aproveita o forninho enquanto ele está quente, não deixes passar o tempo, olha que a vida é curta ... "

( continua )
publicado por mmfmatos às 19:37
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2 comentários:
De Anónimo a 20 de Outubro de 2005 às 04:31
Esqueci-me! quem escreve assim não é gago. ;-)))José S.
(http://ruadobeco.blogs.sapo.pt)
(mailto:jgjs2@sapo.pt)
De Anónimo a 20 de Outubro de 2005 às 04:23
E o próximo não tardou.José S.
(http://ruadobeco.blogs.sapo.pt)
(mailto:jgjs2@sapo.pt)

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