Quinta-feira, 20 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - I, 8

8. FERNANDA

Bolas! Um engarrafamento. Só faltava isto. Se chego atrasada, lá terei de ouvir o cretino do patrão: "A que se deve o atraso? Outra vez os transportes? Já vai sendo tempo de arranjar outra desculpa". Ó que raiva! Às vezes dou comigo a imaginar-me herdeira de uma inesperada e providencial fortuna que me permitisse entrar no gabinete daquele estafermo anunciando a minha demissão com a pose mais arrogante e altaneira que se possa imaginar. Mas essas coisas só costumam acontecer nos filmes. A realidade é bem diferente. Se o trânsito continuar empastelado, vou entrar humildemente, balbuciando desculpas com os olhos em alvo para não enfrentar a carranca mal humorada do homem que, para mal dos meus pecados, é a fonte da minha subsistência.

O "Sr. Fulano de Tal" é que não parece nada preocupado. Deve ter horário flexível, para estar com um ar tão descansado só pode ser isso. Ou então não sofre desta maldita subserviência que me acompanha desde que nasci. A Judite, minha colega de trabalho há aproximadamente quatro anos e mais jovem do que eu, está sempre a atirar-me em cara com a "maldita subserviência" e, embora eu invoque a necessidade de conservar o emprego, a lei da oferta e da procura, a crise que grassa por esse país fora, ela continua a afirmar com aquele seu arzinho insolente: "Quanto mais te rebaixas, pior. Quem muito se curva, tudo lhe aparece". A Judite tem a a desenvoltura e a coragem que eu gostaria de experimentar nem que fosse por um dia. Talvez por isso o patrão a respeite como nunca me respeitou. Sim, porque quando a Judite chega atrasada não se põe na frente dele com aquele ar embezerrado e idiota que eu tenho sempre que sou obrigada a enfrentar a sua cólera, "E não penses que eu não preciso do emprego, mas isso não é razão para andar com a espinha dobrada e de nariz no chão", afirma ela tentando transmitir-me alguma vitalidade.

A Judite costuma dizer que a sua verdadeira vocação era ser rica, mas que houve engano e nasceu na casa errada, o que não lhe fez, contudo, perder a esperança de enriquecer: "Eu não sou como tu, tenho aspirações, um dia vou sair desta penúria nem que tenha de me entregar a um velho rico, ficar a vida toda a correr para os saldos e a contar os tostões é que eu não fico. Meu Deus, Fernanda! Não olhes para mim dessa maneira, parece que eu disse alguma monstruosidade. Há para aí tanto velhinho rico a precisar de carinho e tanta menina pobre a precisar de conforto ... ou tu achas que essas damas que aparecem nas revistas do jet set, cheias de jóias e lantejoulas, ao lado de maridos todos caquéticos e descapotados casaram por amor?". Claro que não, a Judite tem razão, ninguém pega em velhinhos pobres: "Põe os pés na terra, os velhos ricos também não despontam por aí como os cogumelos. Os que existem já foram agarrados". A Judite costuma dizer que eu sou uma desmancha-prazeres, mas desta vez deu-me razão, acenendo com a cabeça algo desalentada: "Aí é que está a gaita! E sabes o que é que dificulta ainda mais as coisas? É o facto de eles frequentarem locais que eu não tenho dinheiro para frequentar e é nisso que eu tenho de investir - contrair um empréstimo para renovar o guarda-roupa e comprar um bilhete para um cruzeiro num paquete de luxo. Aí está a solução! No regresso já venho pendurada no meu velhinho milionário. Depois até pode ser que arranje alguma coisa para ti, já que tu não tens habilidade".

Nunca sei ao certo quando a Judite fala a sério ou a brincar, mas uma coisa eu sei, não será sem luta que ela se entregará à banalidade de uma existência igual à maioria, metida num andar de três assoalhadas num bairro suburbano, hipotecado por toda uma vida, onde quase só irá para dormir, tentando fazer esticar um orçamento familiar deficitário no meio de correrias que se resumem sempre ao mesmo espaço triangular - casa/infantário/trabalho, trabalho/infantário/casa - carregando criança e saco de fraldas enquanto abre caminho num qualquer autocarro, apinhado de gente como este, para usufruir do privilégio de um dos lugares destinados a idosos, deficientes físicos, grávidas e acompanhantes de crianças de colo. Quando lhe chamo a atenção para os olhares embevecidos com que a contempla o Ribeiro da Contabilidade, ela revira os olhos, num trejeito cómico, e exclama: "É mesmo de um homem assim que eu preciso! Juntam-se duas misérias para fundarem uma dinastia de tesos".

O Ribeiro não esconde que o seu maior sonho é a constituição de um lar estável e da família que nunca teve. Órfão desde os três anos, criado numa dessas aldeias S.O.S., com irmãos de empréstimo e uma mãe de empréstimo, anseia ter uma família verdadeiramente sua. Apesar da dedicação e do carinho que devota aos irmãos de criação e à única mãe que conheceu, tem lá no fundo aquela mágua de ter sido sempre "mais um filho" e nunca "o filho". Aprendeu a partilhar tudo , com saudável espírito comunitário, mas isso não impediu o germinar de uma justa aspiração individualista que se traduz na construção do seu próprio mundo. Mas, para a Judite, o Ribeiro representa tudo aquilo de que ela pretende fugir - a tal "vidinha" num bairro/dormitório suburbano.

( continua )
publicado por mmfmatos às 21:32
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2 comentários:
De Anónimo a 22 de Outubro de 2005 às 03:07
Ao contrário da Aldora, acho que é a ler coisas bem escritas que se ganha gosto pela leitura e motivação para tentar melhorar.
É o que eu digo ( lá no blog da PW), anda por aqui muita gente da escrita disfarçado de blogueiro, ou então há muito talento desperdiçado.
Um bom fim de semana para ti.
José S.
(http://ruadobeco.blogs.sapo.pt)
(mailto:jgjs2@sapo.pt)
De Anónimo a 21 de Outubro de 2005 às 01:17
Olá tu escreves tão bem que eu até fico sem saber como comentar, eu que tenho um bloguesinho futil, e sem grande originalidade, o que se chama um pãozinho sem sal ao pé do teu, fiquei mesmo desmotivada para continuar o meu blog depois de ler, a vida do dia a dia, contado por ti. Espero se me deixares, e se não deixares a vir cá dar uma saltada.
Bj.
Aldora Aldora
(http://gatinhosvoadores.blogspot.com/)
(mailto:aldoramira@sapo.pt)

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