Sexta-feira, 21 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - I, 9

9. RAMIRO

Olha a Filó vai ali à frente, já me viu, está a acenar com a mão. É uma mocinha porreira, ela e a Sónia, também gosto da Sónia. Passam o dia naquele balcão e têm sempre bom modo, mesmo nas horas de maior aperto. Depois da bucha do almoço, estou lá sempre caído, no café do Araújo, para tomar a bica da ordem e dar dois dedos de conversa com a malta do costume. É um bocado bem passado, dizem-se umas larachas, cada um deita cá para fora o que lhe vai na alma, somos todos da mesma laia, ninguém se sente diminuído quando vê em exposição os seus infortúnios e as suas misérias. É o único sítio onde não me sinto ofendido quando alguém exclama: "Ó Ramiro estás cada vez mais burro, não admira que a mulher te tenha posto os cornos". Todo o ressentimento, toda a raiva que ainda me arrepanha as entranhas quando penso na Ofélia, parece que se evapora quando me junto com a malta do costume na mesinha lá do fundo, no café do Araújo. Até dou comigo a responder: "Homem com cornos não é defeito, só prova que tem bom gosto e sabe arranjar material que também agrada aos outros".

Os trolhas negros da mesma terra do outro que me chega os baldes da massa, também se juntam no café do Araújo e arreganham as bocarras, rindo a bom rir, quando me ouvem falar assim: " Tchiiii ... seu Ramiro! Não deixa cara dela em estado de agradá a outro, carega ela di porada. Seu Ramiro és homem bom, mas bom di mais é moleza" dizia um que dá pelo nome de Natalino, enquanto enfiava a bagaceira pela goela abaixo. Na terra dos cegos, quem tem um olho é rei e, entre os trolhas negros que vivem carregando baldes de massa, eu sou um mestre, tenho o meu ofício de ladrilhador e até me dou ao luxo de querer ensinar a minha arte àquele que me dá serventia: "Se não queres ser trolha toda a vida, presta atenção ao que eu faço, não é só chapar com a massa no mosaico, tem que haver perfeição nos acabamentos, vês o corte destes cantos? Até parece que nasceram assim". Ora, na minha qualidade de mestre também tenho que saber impor algum respeito: "Não é assim que se resolvem as coisas Natalino. Na altura, passei-me da cabeça e dei-lhe uns bofetadões, mas daí a desfigurar a mulher também não, o desprezo é a melhor arma". O Natalino abanou a cabeça: "Nááá ... se a mia Dorinda enfeitasse mia cabeça, ia ter que levar tratamento no hospital", " Não digas isso, homem, também estás a criar uma filha, já imaginaste se daqui a uns anos ela põe os cornos no marido e o gajo lhe deixa a cara feita num bolo?". Ele coçou o queixo e, por momentos, ficou pensativo, acabando por responder: "Seu Ramiro, essa minina Neusa é a luz dos meus olhos, se algum filho di puta, cornudo ou não, pusesse a mão nela, não ia ficá cá pra contá como é qui foi", "Porra, Natalino, assim também é demais, não exageres, tu és um homem pacífico que eu bem te conheço!", exclamei, mas o Natalino olhou-me muito sério, com o branco do olho quase vidrado, e respondeu, espaçando bem as palavras: "Digo e repito, se esse cão deixasse cair a manápula na carinha linda da mia Neusa, ia-se arepender de tê nascido, ia até rogá praga na própria mãe por tê botado ele no mundo". Dei-lhe um palmadão nas costas: "Sendo assim, já compreendes porque é que eu deixei a cara da Ofélia inteira. Nunca se sabe quando é que pode aparecer um pai desvairado como tu". Os outros riram à gargalhada e ele acabou por acompanhá-los enquanto dizia: "Seu Ramiro, quando as coisas tocam a gente, até parece que o miolo pega fogo e o homem vira bicho" e eu rematei: "Pois é Natalino, mas tu és um bom homem, a Dorinda é uma jóia de mulher, a Neusinha é um encanto de menina e a gente vai beber uma rodada à saúde delas que aqui o Ramiro vai pagar". A alegria foi geral e, de copos no ar, gritámos hips e hurras em honra da Dorinda e da Neusinha.

E é por isto que eu me sinto outro homem no café do Araújo. Além da "malandragem" lá da obra, há a Zulmirinha e a Sidónia que me olham como se eu fosse o herói das suas vidas. A Zulmirinha, uma puta que já devia estar reformada, mas que ainda continua rua acima e rua abaixo na esperança de encontrar clientes que não se importem de se deitar com aquele monte de ossos escaqueirados e cobertos de pelancas encortiçadas. Clientes daquele género que diz: "Com um saco enfiado na cabeça, são todas iguais".

Até para ser puta é preciso ter sorte e esperteza. A Zulmirinha foi bonita e jeitosona, arrebanhando a melhor clientela da zona, mas todo o dinheiro que ganhou foi parar às algibeiras do chulo que a sugou toda a vida para a largar logo que ela deixou de ter préstimo. A Zulmirinha gosta de mim porque eu sou dos poucos que não goza com a sua miséria, às vezes até lhe dou algum para a bucha do dia, mas não pode ser sempre e faz-me pena, lá isso faz, especialmente quando ela me encara com aquele olhar espavorido de desespero e diz: "Ramiro, eu hoje tenho que arranjar um homem, tenho que arranjar um homem!".

A Sidónia é a velha mais feia e raquítica que eu já alguma vez vi. Vesga, com meia dúzia de pelos mal semeados na cabeça, vestida com roupa que lhe vão dando (diz ela que todas as medidas lhe servem), sapatos a chinelar e às vezes uma meia de cada cor. Desde o princípio que parece ter-me adoptado e há risota geral quando ela se agarra ao meu braço, compadecida com a minha situação de abandonado, e afirma: "Eu era bem mulher para tomar conta de ti, fazia-te a comida, tratava-te da roupa, era bem mulher para isso, não sou como essa badalhoca que te abandonou". A Sidónia foi casada com um bêbado que todos os dias, anos a fio, lhe deixava cair em cima uma dose de arrochadas que por diversas vezes a obrigaram a procurar curativo nas Urgências do hospital. Por essa altura, já a Sidónia se habituara também a meter o gargalo à boca e não era difícil que lá no hospital acreditassem nas desculpas que ela inventava: "Ó mulher, se você continua a beber assim, brevemente já não tem trombas para partir!" dizia-lhe, às vezes, o médico de serviço. E ela ria, ou fingia que ria, piscando o olho vesgo que no meio dos vergões e do nariz partido, já nem parecia tão defeituoso.

Às vezes, ponho-me a falar à D. Etelvina dos momentos que passo lá no café do Araújo e acabo sempre por apanhar um sermão: "Você, a conviver com gente dessa, não aprende nada. Que diabo, você ainda é um homem novo, bem podia procurar outras companhias, até aqui em casa, com o Licínio, podia aprender alguma coisa, ele anda na Universidade, tem outras conversas, não é como no café desse tal Araújo". Não vale a pena explicar-lhe que para manter conversa com o Licínio, era preciso primeiro que eu percebesse o que ele diz. O Licínio é o outro hóspede da D. Etelvina e é estudante de Biologia. Antes de o conhecer, eu não sabia que havia estudos desses, mas ele explicou-me: "Biologia é o estudo dos fenómenos da vida, bio quer dizer vida, percebe?". Perceber eu percebo, só não sei para que serve tal estudo e, por isso, perguntei: "E o que é que você vai fazer com um curso desses, vai trabalhar em quê? Eu sou burro, mas dá para perceber para que servem os médicos, os engenheiros, os advogados, os arquitectos, os juizes ... agora essa coisa de Biologia serve para quê?". Pareceu-me que ele não gostou muito da pergunta, mas respondeu: "O biólogo, ao estudar os fenómenos da vida, pode transformá-la, melhorá-la. Investigação, investigação é o que eu quero fazer". Não percebi o que é que o estudo da vida tem a ver com a investigação, realmente não percebi aquela história da investigação, investigar o quê? Quem investiga são os gajos da Judiciária e não me parece que ele tenha vocação para trabalhar na bófia . Até falou em ganhar uma bolsa de estudo para um Instituto qualquer que há em Paris. Eu não quis dar parte de fraco, mas fiquei sem perceber o que é que o Licínio vai fazer com o curso que anda a tirar, mas também não admira porque eu tenho a cabeça dura e nunca dei nada para as letras, como dizia a minha velha. É por isso que não vale a pena conversar com o Licínio, é por isso que me sinto tão bem no café do Araújo.

( continua )
publicado por mmfmatos às 18:51
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