Sábado, 22 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - II, 1

CAPÍTULO II

1. RAÚL

A Isilda ficou de trombas. Cheguei atrasado para o jantar, o arroz de pato estava quase frio e teve de voltar para o forno. Não me dignei telefonar e, ainda por cima, voltei a desculpar-me com um trabalho de última hora que, pela cara dela, já não está a colar muito bem. Provavelmente não acreditou na minha justificação o que não me preocuparia se não fosse o facto, esse sim importante, de alterar a minha rotina caseira, a qual eu procuro preservar a todo o custo. Não se trata de salvar um casamento que perdeu há muito qualquer hipótese de salvação, mas sim a estabilidade psíquica que um indivíduo indolente como eu necessita de ter. Qualquer alteração à minha rotina caseira, pode fazer ruir todo o esquema que arquitectei metodicamente ao longo de quinze anos de matrimónio que, para os de fora, é exemplar por ser duradoiro e, para nós, é insípido por não haver qualquer tipo de atracção ou mesmo reacção entre os dois. Não há zangas nem reconciliações, não há amor nem ódio, vivemos numa assumida monotonia, numa paz podre que não tem altos nem baixos, fruto da indiferença e do desinteresse. Avançamos na vida como dois caminhantes cautelosos, evitando percursos arrojados e torneando obstáculos.

Não posso correr o risco de alterar o ritmo desta engrenagem perfeita, é urgente refrear as exigências da Beatriz. Ultimamente, as atitudes dela causam-me uma certa preocupação. Tem acessos de mau humor, mostra-se caprichosa, procura reter-me quando não deve, como hoje, por exemplo. Se não fosse ela, não teria atrasado a hora do jantar, nem teria de aturar as ventas da Isilda. Francamente não entendo o que se está a passar, ia tudo tão bem! Aquele comentário Estou farta de ser a outra é completamente absurdo, passamos juntos a maior parte do dia, até lhe dispenso alguns Sábados e Domingos enquanto a Isilda me julga sentado na bancada de Alvalade a torcer pelo Sporting. O que é que a Beatriz quer mais? Que ideias malucas estará aquela cabeça a magicar? Estamos tão bem assim!

Antes, tudo estava bem para ela, achava estimulantes os nossos encontros clandestinos, troçava das instituições, repudiava as convenções, referia-se à Isilda como sendo a minha mulherzinha escrava das panelas e do ferro de engomar enquanto ela era a minha Mulher, dona dos meus sonhos românticos, musa inspiradora das minhas fantasias eróticas. E é essa mesma Beatriz que subitamente começa a falar de casa, família, filhos, festas de aniversário ... o que se terá passado naquela cabeça? A Beatriz de outros tempos sofreu uma tal mutação que até me deu a sensação de estar a ouvir outra pessoa quando ela me atirou com este desabafo exasperado: "As minhas amigas já estão todas casadas, estou farta de assistir aos casamentos das outras, estou farta de cantar os Parabéns a Você nas festas de aniversário dos filhos dos outros. Qualquer dia deixo de tomar a pílula e, quer tu queiras quer não, deixo-me engravidar". E eu, fazendo a minha encenação: "Beatriz, uma decisão dessas só pode ser tomada a dois", mas ela parecia tresloucada e começou a gritar num acesso de histeria: "O que tu queres é empatar, estás bem acomodado nesta vida a três, para ti é o ideal, a legítima para a cozinha e para as camisas e aqui a concubina para a cama, mas não penses que eu me fico assim, não vou envelhecer a contemplar a felicidade dos outros, já que a legítima não tem barriga capaz de gerar, não vou deixar que a minha murche antes de conceber qualquer coisa, sim, porque aqui dentro está tudo bem, é terra fértil à espera de semente!" e a Beatriz batia com as mãos no ventre com uma firmeza e uma segurança que me assustaram.Será que o Semedo andou a meter-lhe coisas na cabeça? Eu dou cabo daquele cretino.

Tentei chamá-la à razão, explicar-lhe que a felicidade é um conceito subjectivo, construído à medida de cada um, que não existe um modelo uniforme, que ela se estava a comportar como uma vulgar doméstica alienada por ideias pré concebidas e estereótipos ultrapassados. Terminada a prelecção com um: "Estamos tão bem assim, para quê complicar as coisas? Nós não precisamos dessas tretas para sermos felizes", pensei tê-la convencido, mas enganei-me pois ela voltou à carga ainda mais agastada: "Talvez tu não precises, mas eu sim. Quero experimentar essas tretas como tu lhe chamas, quero uma casa, um filho, até um cão, um gato ou um canário e, acima de tudo, não quero um homem que só me acompanha nos fins-de-semana em que joga o Sporting". Que ideias mais descabidas! Foi o Semedo, só pode ter sido ele.

O que vou eu fazer com esta nova Beatriz? Por agora, não quero pensar mais no assunto, não vou estragar a digestão do jantar, este arroz de pato está uma delícia, não há dúvida que a Isilda é boa na cozinha. Ela está a olhar para mim com uma insistência incomodativa, será que desconfia de alguma coisa? Ficou com o garfo no ar, parece que vai falar e ... fala mesmo, mas que alívio! Limita-se a dizer: "Para a próxima vê se telefonas". Se calhar não desconfiou de nada, até pode ter sido impressão minha, a Isilda é tão pateta! " Mesmo com tanto trabalho, deves ter tempo para um telefonema" acrescentou com voz afectada. É pateta, mas sabe cravar a ferroada, o melhor é fazer de conta que não ouvi, ignorar a provocação, fazer-me de parvo: "Este arroz de pato está uma delícia e então hoje que estou esfomeado ... quando trabalhar até mais tarde, tenho de passar a comer qualquer coisa a meio da tarde para entreter o estômago". Não consigo encará-la, mas sinto-lhe o olhar espiando os meus movimentos, está a enervar-me ao ponto de me fazer perder o apetite, sinto um aperto no estômago e o arroz começa a atravancar-me a garganta, tenho de me controlar, controla-te Raúl, ela não desconfia de nada, é demasiado pateta: "No Domingo, temos de ir a casa dos meus pais", está a testar-me, tenho de agir com naturalidade: "No Domingo, joga o Sporting, já tenho bilhete e já combinei com o Semedo, não vai ser possível acompanhar-te, mas tu podes ir na mesma, levo-te lá e sigo para o estádio". Bolas! A Isilda está hoje muito estranha, tem um ar desconfiado, só me faltava que agora também ela viesse com exigências, a Beatriz de um lado e a Isilda do outro, não vou conseguir lidar com duas crises ao mesmo tempo, até parece que se coligaram as duas para me chagarem o juizo: "Não sei de que me serve ter um homem em casa, há sempre qualquer coisa quando se trata de me acompanhares, nem para isso ... ", não chegou a concluir, mas é demasiado óbvio: "Nem para isso serves" esteve quase a sair-lhe pela boca fora, mas a frase ficou suspensa, talvez adiada, como tudo entre nós. Caramba! Espero bem que isto não passe de uma borrasca, é isso mesmo, uma borrasca, a Isilda não é mulher de grande intuição, mas em todo o caso, talvez seja melhor tomar algumas precauções e não esticar muito a corda: "Pronto, eu vou! Vendo o bilhete e vou, não se fala mais nisso".

Terá sido a atitude mais sensata para evitar um confronto indesejável com a minha mulher, mas o pior vai ser amanhã quando a Beatriz souber que, apesar do Sporting jogar no Domingo, ela terá de ficar em casa ou de passear sozinha na Marginal.

( continua )

publicado por mmfmatos às 18:38
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De Anónimo a 23 de Outubro de 2005 às 18:29
Mais uma história deliciosa.smile
(http://smils.blogs.sapo.pt)
(mailto:smilehome@sapo.pt)

Comentar post

.pesquisar

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.arquivos

. Março 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

.subscrever feeds