Terça-feira, 25 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - II, 2

2. FERNANDA

Não vou conseguir convencer a minha mãe da necessidade que tenho de passar um fim-de-semana fora do ambiente desta casa. Ela vai reclamar porque ficará sozinha a tratar do velho, mas será justo sacrificar todos os momentos livres para tratar de um pai inválido? Afinal de contas, o marido é dela e não meu. Quando casou ficou vinculada aos sacrossantos deveres para o bem e para o mal, na saúde e na doença . Desta vez não vou ceder, vou aceitar o convite da Judite para ir com ela à Serra da Estrela, desta vez não vou recusar, há tanto tempo que ela me anda a convidar: "Não sejas parva, vais passar o resto da tua vida agarrada à cadeira de um pai inválido? A tua mãe que o faça, a obrigação é dela. Além disso está sã e escorreita e, como tu mesma dizes, é rija que nem um pêro. Por favor, não caias nessa de ceder à chantagem emocional". A minha mãe foi sempre fértil e muito imaginativa em matéria de chantagem emocional: "Não me digas que vou ficar para aqui sozinha com o teu pai neste estado? Se eu era capaz de fazer uma coisa destas à minha mãe quando tinha a tua idade!". Apetece-me responder que ela nunca viveu com a mãe o tempo suficiente para fazer o que quer que fosse, que nunca lhe dedicou uma terça parte do tempo que eu já lhe dediquei a ela, que metade da minha vida foi passada entre estas paredes ouvindo as suas lamúrias.
A Judite tem razão, não vou continuar a viver como se a invalidez do meu pai tivesse de ser vivida e partilhada por mim, impedindo-me de desfrutar os prazeres a que tenho direito, já me bastou ter abdicado de tudo o que gostava em vez de enfrentar o autoritarismo do senhor absoluto que impunha sempre a sua vontade e a todos comandava antes de ser atacado pela esclerose que lhe incapacitou os movimentos e a mente. A Judite costuma dizer: "Os rapazes têm o tempo da tropa, mas tu tens tido tropa a vida inteira". Ela conseguiu resumir numa frase curta e simples o ambiente opressivo que me envenenou a infância e a adolescência, toda a sensação de sufoco e impotência que me invadia perante as imposições ditatoriais que a autoridade paterna exercia sobre mim, em nome de uma moral hipócrita e caduca. A Judite, com a sua natureza rebelde, vê na minha passividade uma anomalia gerada por defeitos de educação que, como ela diz, é urgente corrigir: "Eu sei que há traumas de infância que nos acompanham a vida toda, mas é sempre possível ultrapassar certas limitações, desde que acreditemos em nós próprios e na possibilidade que temos de mudar o rumo dos acontecimentos. Não me venhas com essas teorias fatalistas do destino, cada um constrói o seu próprio destino. Para a tua mãe já não há recuperação possível, toda a vida se deixou subjugar pelo tirano do teu pai, já antes tinha sido subjugada pelo pai dela, foi só passar da tutela de um para a tutela do outro, mas tu ainda estás em idade de te libertar, ainda estás a tempo de segurar as rédeas da tua vida e não estejas à espera que venha alguém fazer isso por ti. Eu, por exemplo, quando quiseram pôr-me a trela, zarpei logo de casa para fora, eu cá não sou animal de estimação".

A Judite tem razão, vou soltar o meu grito de liberdade, desta vez não vou ceder, diga a minha mãe o que disser vou mesmo à Serra da Estrela: "Mãe, este fim-de-semana vou à Serra da Estrela com a Judite, vamos aproveitar o feriado de Sexta-feira e regressamos no Domingo à noite". Pronto, está dito! Agora é aguentar o contra-ataque: "Quer dizer que vou ficar estes três dias sem ninguém que me ajude? É para isto que se criam os filhos?". Começa a chantagem emocional, mas desta vez não fica sem resposta: "O Mário também é filho, pode dar uma ajuda", "O teu irmão é casado, tem a vida dele", "Eu também tenho direito à vida, o Mário nunca teve obrigações, mesmo quando era solteiro nunca teve obrigações, as obrigações foram sempre todas para cima de mim, mas isto vai acabar, estou farta! O Mário tem a vida dele, mas quanda precisa de dinheiro sabe vir cá bater à porta e a mãe vai sempre escorregando porque, claro, o menino tem a vida dele, não pode ter privações, pode andar na boa vai ela e só tem direitos enquanto eu não posso arredar pé daqui e só tenho deveres. Não há dúvida que a partilha de bens está bem feita!". Não sei como arranjei coragem para dizer isto tudo, mas agora estou um bocado intimidada porque a minha mãe ficou a olhar para mim com uma expressão tão arrasadora que o sentimento de culpa está quase a sobrepor-se ao sentimento de rebelião que me levou a reivindicar os meus direitos.

Mas não! Desta vez não posso capitular, não tenho coragem de enfrentar o desprezo da Judite, não posso chegar amanhã ao escritório e dizer-lhe que afinal não posso ir à Serra da Estrela. Até parece que estou a ouvi-la: "És uma parvalhona, só vives em função dos outros, julgas-te muito boazinha, mas o que te falta é garra para enfrentar as situações, és tão amorfa que nem mereces viver, acorda mulher! Faz alguma coisa por ti.". Não, decididamente não posso ceder. Se arranjei coragem para lançar cá para fora parte do rancor que me tem minado a existência, tenho de arranjar coragem para ir até ao fim: "Não vale a pena vir com recriminações para cima de mim, não vale a pena fazer-se de vítima, não vale a pena fazer choradinho porque eu não vou desistir, é assunto arrumado, concorde ou não, eu vou na mesma!". Sinto-me aliviada e orgulhosa, tomei uma atitude. Sexta-feira rumo para a Serra da Estrela pese a quem pesar.

O meu pai, parcialmente paralisado, o olhar errático, a fala lenta e mal articulada, já não tem trambelhos para nada, perdeu a pose autoritária que, outrora, me tolhia de medo enquanto a minha mãe assume uma expressão indignada como se eu estivesse em vias de cometer um crime de alta traição, mas já se deve ter apercebido que a filha com que está lidando não tem a passividade do costume e experimenta uma estratégia nova: "E logo agora que não tenho andado nada bem, fincou-se-me uma dor no ombro esquerdo, não sei o que será isto ... ". Tem uma saúde de ferro, mas vai tentar o estratagema da doença, eis uma forma de apelar ao sentimento filial, fazendo-me sentir culpada por abandoná-la numa altura crítica. Faço-me desentendida: " É da mudança de tempo, isso passa". Ela lança para o tecto um olhar de mártir: "Passa, então não passa, só o esforço que tenho de fazer para levar o teu pai à casa de banho! Durante toda a semana dou conta do recado sozinha e agora, pelos vistos, nem no fim-de-semana tenho quem me ajude". Não vou responder, não vale a pena, há pessoas com quem não há hipótese de dialogar e a minha mãe é dessas pessoas, não há nada que eu possa argumentar, não há nada que eu possa invocar, ainda que eu fosse dona da mais rica oratória do mundo não conseguiria encaixar nada de novo naquele cérebro recheado de ideias obsoletas e preconcebidas. O melhor que tenho a fazer é fechar-me no meu quarto e gozar antecipadamente a perspectiva de um fim-de-semana sem grilhetas nem lamentações. O regresso a casa é que não vai ser fácil, mas agora não quero pensar nisso.

( continua )
publicado por mmfmatos às 19:32
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2 comentários:
De Anónimo a 27 de Outubro de 2005 às 21:54
Gosto tanto vir aqui lêr, quando dou por mim ando pelo arquivo a tentar ler mais, é como aqueles livros que lemos e temos medo que acabem, senão ficamos sem coragem de pegar noutro, que já não tem a mesma magia, assim sou eu quando leio aqui uma postagem. Continue a escrever que eu continuo a vir ver, por vezes nem coragem tenho para fazer o comentário, me perdoe por isso mas acho que nada poderei dizer de tão boa redacção.
Abraço
AldoraAldora
(http://gatinhosvoadores.blogspot.com/)
(mailto:aldoramira@sapo.pt)
De Rita a 8 de Novembro de 2008 às 21:16
Como eu a compreendo estou a passar uma situação muito parecido com um pai tirano...que so sabe fazer chantagem psicologica e lamúrias transformando a minha vida num inferno. nao desista pense em si e na sua vida, pois a pais que infelizmente muitas vezes descarregam as fustrações nos filhos. eu tive coragem uma vez para dizer tudo e cortei relações com o meu pai, so que veio a chance com a conversa que mudou..foi o pior que fiz... hoje estou casada e tenta destabilizar me quer ver me triste, porque ele e um triste solitário.. pense em si...acima de tudo. um abraço. Rita

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