Sexta-feira, 28 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - II, 3

3. RAMIRO

O Licínio ainda não saiu hoje do quarto. Tem muito que estudar e a D. Etelvina que dá muito valor à educação até lhe leva copos de leite, é um menino mimado este Licínio. Veio de Lamego para estudar e, de vez em quando, os pais telefonam para saberem como está o filho. A mãe aproveita sempre para pedir à D. Etelvina para lhe olhar pelo rapaz que quando o estudo aperta até se esquece de comer . Quando o Licínio vai a Lamego, a mãe nunca se esquece de preparar uma encomenda bem recheada de queijos, enchidos, presunto e outras atenções destinadas à D. Etelvina. Quando o Licínio chega, até eu afio o dente porque a D. Etelvina é generosa e nunca deixa de repartir comigo as especialidades que o nosso estudante traz da terra: "Ó Ramiro, traga essa garrafa da Bairrada que está dentro do armário e venha petiscar qualquer coisa"; e lá abancamos os dois na mesa da cozinha onde ela já colocou num cestinho com pão caseiro cortado às fatias e pratos cheios de rodelas de paio, tiras de presunto e pedaços de queijo. Eu afinfo-lhe com o tinto da Bairrada enquanto ela acompanha com chá de cidreira. O Licínio é que não dá para estas "farras". Entrega à D. Etelvina o saco que a mãe mandou cheio de coisas boas e, antes de se meter no quarto, senta-se um bocado enquanto nós comemos, conta uma ou outra novidade lá da terra, o casamento da prima, o baptizado do neto da madrinha, a ordenação do amigo que frequenta o seminário de Braga, as obras que o pai está a fazer no sótão da casa para ele, Licínio, poder isolar-se com os seus livros, o seu computador e a sua música.

Eu penso que o pai ainda não deve saber que o filho, quando acabar o curso, quer ir para Paris fazer investigações no tal Instituto de que eu não fixei o nome. Acho que o Licínio devia dizer-lhe que não tem ideias de ir dar aulas para Lamego e, assim, o homem escusava de gastar dinheiro a fazer obras num sótão onde ele nunca vai estar. Já lhe dei a entender que ele devia ser sincero com o pai e falar-lhe dos seus projectos. Se os contou a mim que não sou da família ... , " É mais fácil, Ramiro, consigo é mais fácil, agora com os meus pais é outra conversa, vai ser uma cena, eles estão a contar que eu fique a viver lá, não vai ser fácil, nada fácil. Eles inventaram uma vida para mim à medida dos seus sonhos, querem um filho doutor para ir com eles ao Domingo à missa, provocar inveja nos vizinhos e casar com a Guidinha Martins que é fútil e desmiolada, mas é filha do doutor da farmácia. É esta a vida que eles idealizaram para mim, mas não é aquela que eu quero, nunca me passou pela cabeça tirar o curso de Biologia para me enterrar em Lamego a dar aulas numa escola infestada de garotos insolentes e, ainda por cima, casado com a Guidinha Martins ". O Licínio tem razão, não vai ser fácil para os pais aceitarem a ideia de verem o filho abalar para o estrangeiro, em vez de ficar em Lamego, constituir família e ampará-los na velhice. É complicado, é sim senhor e, por isso, eu continuo a achar que o Licínio bem podia ter escolhido um curso que desse para advogado ou para engenheiro, um curso que desse para trabalhar aqui, em vez de andar a estudar coisas que não se sabe para que servem ou que, pelo menos, só servem para fazer investigação lá fora.

A verdade é que também não consigo imaginar o Licínio a ensinar numa escola. Não sei se é de ele passar a vida com a cabeça enfronhada nos livros ou se é mesmo feitio, mas acho-o um bocado impaciente no trato com as pessoas. Não estou a vê-lo a aturar garotos, a repetir a mesma coisa hoje, amanhã ... e, para ser sincero, também não lhe vejo grande jeito para explicar as coisas de forma que as pessoas entendam. Não é que ele não queira explicar aos outros aquilo que sabe, como eu cheguei a pensar quando me dava aquelas respostas atabalhoadas, num tom muito seco e impaciente. Até pensei que, por eu ser um ignorante que não passou da primária, ele não estava para desperdiçar o seu tempo, gastar cera com ruim defunto , como se costuma dizer, mas não é nada disso, é mesmo falta de vocação: "Ó Ramiro, desculpe lá, não leve a mal, eu gostava de lhe explicar melhor, mas não consigo, eu não tenho o dom de comunicar" disse-me uma vez em que me viu um bocado ofendido com uma resposta mais brusca que me deu quando eu, afinal, só queria saber o significado da frase que ouvi numa conversa entre o engenheiro e o empreiteiro lá da obra, por este andar, só para as calendas gregas é que isto vai ser inaugurado . Percebia-se pelo sentido que calendas gregas queria dizer nunca mais , mas o que eu pretendia saber era a razão por que se empregavam estas duas palavras para dizer nunca mais . O Licínio gaguejou, meteu os pés pelas mãos, falou dos romanos que tinham calendas e dos gregos que não tinham calendas e eu cada vez mais baralhado porque se os gregos não tinham essas tais calendas por que é que lhes chamavam gregas? Foi aí que ele gritou exasperado: "Olhe Ramiro, eu tenho mais que fazer do que estar para aqui a falar de coisas que você não entende. O que é que lhe adianta saber, a você que passa a vida a colocar mosaicos, o que são as calendas gregas?". Na altura, fiquei mesmo ofendido, mas como ele pediu desculpa e explicou que não tinha o dom de comunicar, não me senti tão rebaixado porque afinal o defeito não estava só na minha cabeça dura, estava também na língua dele que não era capaz de soltar cá para fora aquilo que tinha encaixado na sua cabeça inteligente à custa de muitos anos de estudo.

A D. Etelvina que, tirando a vida de médico, acha que não há profissão mais bonita do que a de professor, costuma dizer (repetindo o que costumava dizer o patrão da tal casa rica onde trabalhou): "O professor é como o aventureiro que desbrava terra inculta". Embora ela não tenha estudado porque, naquele tempo, as mulheres não eram destinadas ao estudo e, além disso, os pais não tinham posses, andou na escola o tempo suficiente para aprender a ler, a escrever, a fazer contas, a conhecer os rios de Portugal e os seus afluentes, assim como os reis da primeira à última dinastia. Tudo isto também eu aprendi e ainda me lembro de muitas coisas, mas a diferença é que enquanto eu nunca mais peguei num livro, a D. Etelvina continuou a fazer as suas leituras e a interessar-se pelo que vai por esse mundo fora: " Eu tenho esta idade, mas frequentei a escola porque os meus pais, apesar de pobres, ligavam muito à educação. Graças a isso não fiquei analfabeta como as demais da minha idade e ainda hoje recordo a professora que me ensinou as primeiras letras. Naquele tempo aprendia-se à força de réguada, mas comigo nunca foi preciso e se os meus pais fossem pessoas de posses eu até tinha feito o liceu. Já o meu Armando fez o liceu completo e se não estudou mais foi porque não quis pois tanto eu como o pai bem nos esforçámos para que ele fosse para a Faculdade".

O Armando é o filho da D. Etelvina. Não o conheço porque vive no Canadá e já há anos que não vem a Portugal. A última vez que cá esteve foi para o funeral do pai e veio sozinho. É casado com uma canadiana e trabalha numa rádio em Toronto, numa daquelas estações que transmitem programas para os emigrantes portugueses. De longe em longe telefona, de tempos a tempos escreve e envia fotografias dos filhos que ela mete em molduras e espalha pelas prateleiras do móvel da sala por ordem de idades. Na prateleira de cima, quando ainda eram bebés, ao colo dos pais, dentro da banheira, empoleirados na cadeira com o prato da papa à frente e a boca toda besuntada. Na prateleira a seguir, quando deram os primeiros passos, em cima da cama agarrados a ursos de peluche do mesmo tamanho que eles, o primeiro aniversário de chapeuzinho em bico feito de cartolina às cores enfiado na cabeça inclinados para o bolo cheio de creme com a vela já apagada. Na prateleira do meio, as brincadeiras na neve de barrete e cachecol às riscas, a seguir montados num trenó, no cavalo de baloiço, na primeira bicicleta. Na quarta prateleira, já espigadotes com um grupo de amigos no campo de férias, com o pai à beira do lago segurando canas de pesca, nas traseiras da casa jogando a bola para a tabela de basquete. Na prateleira de baixo, o mais velho já aparece atrelado à namorada enquanto o mais novo, com um capacete de viseira e um fato todo enchumaçado, mostra uma bola em forma de melão.

A D. Etelvina conheceu os netos quando ainda eram miúdos e vieram com os pais passar férias a Portugal. A partir daí, só os tem visto crescer dentro das molduras que cobrem as prateleiras do móvel da sala: "Se eu quisesse estava com eles no Canadá. Quando o meu Inácio morreu, o Armando bem me quis levar, mas eu é que não ia deixar a minha casa e a minha terra. Até a Cynthia - a minha nora chama-se Cynthia - se fartou de ralhar com ele quando o viu aparecer sem mim". Não sei se ela diz estas coisas para me convencer ou para se convencer a ela própria. Uma coisa é certa, nem o filho nem a nora nem os netos cá vêm há um ror de anos e quando o Armando telefona é para dizer que nesse ano ainda não é possível cá vir porque a Cynthia não tem férias na mesma altura que ele, porque o colega lá da rádio partiu uma perna e ele teve de adiar as férias, porque prometeu ao Patrick - o neto mais velho - pagar-lhe a viagem à Califórnia, porque o Jeffrey - o neto mais novo - vai com a equipe disputar uma taça qualquer com uma escola que fica na outra ponta do Canadá.

Não sei se isto tem alguma coisa a ver com o caso, mas uma coisa é certa, a D. Etelvina não concorda nada com as ideias que o Licínio tem de ir para Paris e não se cansa de dizer que o melhor era ele ficar a dar aulas em Lamego, casar, ter filhos e criá-los ao pé dos pais. Eu acho que ela tem muita pena dos netos que tem e não tem, os netos que só viu uma vez e já não conhece, os netos que afinal são dois estranhos porque só os viu crescer através das fotografias que tem nas prateleiras do móvel da sala.

( continua )
publicado por mmfmatos às 11:45
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1 comentário:
De Anónimo a 28 de Outubro de 2005 às 22:28
Ah!... então o Telescópio é isto... muito bem... Se o Licínio fosse para médico, podia ser o Estetoscópio.... se fosse para professor, poderia chamar-se o Microscópio... mas como o gajo quer ir para Paris (coitado do pai dele, que se sabe da estória, deixa de lhe pagar os estudos e o gajinho, em vez de ir para Paris, vai, no melhor das hipóteses àté à Avenida de Paris e ver Paris por um Canudo, porque Braga já ele terá, certamente, visto...), chama-se o Telescópio... muito bem... vou continuar a seguir tão ditosa estória, enquanto como também um naco de presunto, um couriçame e um pouco de buxo... avec la pingue rouge avec 13º de calidá... isto é que é um verdadeiro Caleidoscópio... perdão... já estou a ficar com os cópios...ehe,ehe,ehe...CASTOR
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(mailto:diquedocastor@sapo.pt)

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