Sexta-feira, 28 de Outubro de 2005

GENTE COMO TU E EU - II, 4

4. RAÚL

A Beatriz ficou possessa quando lhe disse que tinha de passar o Domingo com a Isilda e os pais dela. Insultou-me amaldiçoando a hora em que se ligara a um fracassado como eu, desfiou uma série de frases arrasadoras e finalizou com a acusação do costume: "És um traste!Um traste e um hipócrita. Passas a vida a dizer que nada te prende em casa, mas tremes todo quando a querida mulherzinha levanta a grimpa". Ouvi tudo cabisbaixo, expressão contrafeita e olhar de sonso como convém a um cobardolas. Foi um dia para esquecer, um daqueles dias em que tudo parece desabar sobre nós. A minha pobre cabeça já estava num mísero estado por causa dos mapas com o levantamento do pessoal que o Chefe de Divisão me mandou elaborar com carácter de urgência e que ao fim de três dias ainda estava na grade dos assuntos pendentes. Foi logo nesse dia que o Director Geral se lembrou que os famigerados mapas ainda não lhe tinham chegado às mãos e chamou rispidamente a atenção do Director de Serviços que já se tinha esquecido do assunto, mas fingiu estar em cima do acontecimento e descarregou a sua fúria sobre o Chefe de Divisão exigindo a entrega do trabalho nesse mesmo dia. O Chefe de Divisão, por sua vez, que também já não se lembrava de nada, baixou a cabeça humildemente perante o seu superior hierárquico, atribuindo o atraso à lamentável negligência do subalterno a quem encarregara da tarefa e atirou-se a mim que nem um cão raivoso: "Oiça uma coisa Sr. Raúl Freitas (o tratamento de Sr. Raúl Freitas em vez de Sr. Freitas indicia a aproximação de artilharia pesada) quando eu lhe entrego um trabalho com carácter de urgência, não é para ficar a marinar na sua secretária, é mesmo para fazer!". Engoli em seco e gaguejei: "Ó Sr. Dr. eu já fiz sair a listagem com os dados necessários para a elaboração dos mapas, mas há um problema com o programa e o histórico aparece com falhas nas progressões das carreiras", "Então contacte a Informática e resolva o problema, já o devia ter feito, mas iniciativa é coisa que você não tem!" berrou cada vez mais agastado e ainda mal refeito da humilhação que sofrera perante o Director de Serviços. A palavra Informática pôs-me a cabeça num torvelinho. Tinha andado toda a manhã a evitar a Beatriz, cada vez que o telefone tocava saía da Repartição e deambulava pelo corredor com uma pilha de papéis na mão após ter advertido o Semedo: "Se for a Beatriz, diz-lhe que fui a despacho", e agora aquela ordem contacte a Informática soava-me como um clarim de guerra. Odiei o enfatuado do Chefe de Divisão. Sempre lhe tive uma certa aversão, um certo despeito por ser obrigado a receber ordens do filho do Marques, o Marques que por ironia do destino foi subalterno do meu pai: "Este inútil pensa que me mete medo!Não vale a ponta dum corno, lambe botas, sacrista. Lá nas Finanças era o pai dele que recebia ordens do meu" resmunguei entre dentes enquanto o Semedo sentenciava: "Pois é, mas ele tem o canudo e tu não".

O canudo do filho do Marques parece que vai perseguir-me a vida toda. Como se não bastasse ter ouvido, durante anos, o meu pai elogiar o filho do Marques e a sua dedicação ao estudo numa tentativa infrutífera de me incentivar também a estudar: "O Marques disse-me hoje que as notas do filho já saíram. Sabes qual foi a nota mais baixa que ele teve? Um dezasseis". As minhas notas que andavam sempre a roçar a fasquia causavam o desespero do meu pai, mas eu estou convencido que aquilo que o irritava ainda mais era o arzinho triunfante com que o Marques afirmava: "O meu rapaz não me dá preocupações nenhumas com os estudos, nunca foi preciso mandá-lo estudar, se continuar assim vai para a Universidade, ele fala em seguir Direito, vamos lá a ver ... e o seu, Sr. Dr., tem tido boas notas?". O Marques sabia bem que eu nunca tinha boas notas, mas fazia questão de ouvi-lo da boca do seu próprio chefe, dava-lhe um certo gozo e era como que uma compensação - o meu pai era o chefe, mas o filho dele era melhor do que o filho do chefe. O meu pai limitava-se a responder, um tanto contrafeito: "O meu está um bocado fraco em matemática, mas ainda pode recuperar porque ele não é parvo nenhum, mas dispersa-se muito e, além disso, é preguiçoso, os professoras dizem que se ele se aplicasse mais poderia ser um bom aluno porque cabeça tem ele". Era preciso salvar a imagem do filho medíocre que o Marques procurava denegrir com a ostentação do seu filho prodígio. Eu terminei o liceu a muito custo e o filho do Marques, quatro anos mais novo do que eu, ultrapassou-me e seguiu em frente à conquista do seu almejado canudo: "Sr. Freitas apresento-lhe o Dr. Rogério Marques que, a partir de hoje, é o novo Chefe de Divisão de Planeamento e Avaliação dos Recursos Humanos". Entre tantos departamentos do Estado, ele tinha logo de cair no mesmo em que eu trabalhava. Dir-se-ia que o velho Marques tinha atingido o cume das suas aspirações - o seu filho, o seu Rogério, dava ordens ao filho do Dr. Freitas.

O berro contacte a Informática incomodava-me duplamente - por ter vindo de quem veio e, pior que tudo, por me obrigar a enfrentar a Beatriz. Começava a sentir-me encurralado, mas não havia escape possível, disquei a extensão da Informática e, do outro lado: "Informática, bom dia, fala Beatriz". Desvanecera-se a esperança que ainda alimentava de que fosse qualquer outro a atender. Sussurrei humildemente: "Sou eu, o Raúl, preciso que me vejas o que se passa com o programa ... ", não me deixou terminar: "Já decidiste?", fiz-me desentendido: "Decidir o quê, Beatriz?", do outro lado do fio a voz dela soou quase tão autoritária como a do Chefe de Divisão: "Sobre nós, que mais havia de ser?". Parecia que o mundo inteiro se coligara contra mim, logo contra mim, um pacífico cidadão que só queria levar a vida sem sobressaltos. Reunindo os pedaços de dignidade que me restavam perante a sobranceria dela, ripostei: "Tenho um trabalho urgente, liguei-te para tratar de assuntos de serviço, as questões particulares ficam para tratar lá fora". Consegui adiar o confronto, mas só até à hora do almoço porque assim que saí da Repartição lá estava ela à minha espera junto à porta do elevador.

Escolhi o recanto mais isolado do restaurante pois já pressentia a aproximação da tempestade. Ainda eu estava com o cardápio da ementa nas mãos e já ela, nada interessada nos pratos do dia e nas sugestões do chefe que eu lhe lia aplicadamente, começava com a conversa obsessiva de casa, família, filhos, festas de aniversário, sem contar com o cão, o gato e o canário ... e eu tentando acalmá-la, fazendo-lhe sinais para que baixasse a voz porque ninguém tinha necessidade de saber da nossa vida. Eu fazia por aparentar uma serenidade que estava longe de sentir porque a perspectiva do momento em que teria de dizer que o Domingo estava comprometido, deixava-me em tal estado de pânico que só o guardanapo que enrolava e desenrolava nos dedos húmidos impedia a exibição das mãos trémulas de nervosismo. Estupidamente ainda alimentei a secreta esperança de que a Beatriz não soubesse que o Sporting jogava nesse Domingo, mas depressa caí na realidade - ela tinha o calendário dos jogos porque o Semedo que acompanha os meus amores clandestinos com um gozo perverso, ofereceu-lhe o calendário com todos os jogos da temporada, arvorando aquele risinho sacana de solidária cumplicidade como quem lança um alerta toma lá e não te deixes enganar .

O momento chegou quando mais uma vez a adverti de que não estávamos no local, nem aquela era a altura própria para discutir assunto de tamanha gravidade. Foi então que ela disse peremptoriamente: "Está bem, no Domingo em minha casa, não passa desse dia". Com os olhos fixos no aquário dos crustáceos ao fundo da sala, balbuciei: "Neste Domingo não pode ser, a Isilda quer ir a casa dos pais, tenho de ir com ela, a irmã e o marido também vão, não posso mesmo faltar". Não pude evitar os arremessos, os insultos e, receoso do escândalo em pleno restaurante, deixei-me ficar tão mudo e quedo como os crustáceos do aquário até que ela, cansada com a minha falta de reacção, começou a choramingar indiferente aos olhares indiscretos dos empregados que já cochichavam entre si. Peguei-lhe na mão tentando acalmá-la, mas ela retirou-a com um movimento brusco: "Não me toques, não me toques que eu não respondo por mim! Vai fazer festas à legítima que deve estar bem carenciada. Não vais continuar a enganar-me, para mim chega!". Fingindo-me ofendido, exclamei: "Eu nunca te enganei (tirando o facto de ela andar a tomar a pílula há dois anos sem necessidade, sempre tivemos uma relação sincera) o nosso relacionamento teve sempre regras bem definidas que tu aceitaste sem reservas e até te sentias muito feliz, dizias sempre que tínhamos a vida ideal, não compreendo esta mudança, não sei o que te deu, Beatriz, estávamos tão bem assim!". Ela lançou-me um olhar de desprezo e desferiu uma daquelas frases pomposas: "O mundo é composto de mudança e quem não muda embrutece, eu tenho energias e capacidade para evoluir, coisas que um fóssil como tu não pode entender, passa muito bem!". Levantou-se de rompante e se eu não segurasse a toalha, tudo o que estava em cima da mesa teria sido arrastado com ela. Senti as têmporas a latejar, era urgente dizer qualquer coisa que a acalmasse, qualquer coisa que remediasse a situação, qualquer coisa que repusesse o estado de graça em que sempre tínhamos vivido, mas a minha cabeça estava em polvorosa e a palavra mágica não surgiu. A única coisa que me ocorreu foi a frase mais imbecil que alguém poderia ter dito num momento tão crucial: "Até logo, depois falamos com mais calma. Entretanto, não te esqueças das alterações que te pedi para a elaboração dos mapas do pessoal. O Chefe de Divisão quer isso hoje sem falta". Ela trespassou-me com um olhar onde a cólera, a indignação e a incredulidade fervilhavam com tal intensidade que, por momentos, cheguei a pensar que iria esbofetear-me, mas em vez disso ela inclinou-se para a frente e apoiando as mãos na mesa ciciou: "Vai à merda!". Estremeci como se tivesse levado com uma cuspidela na cara e, enquanto ela saía pela porta fora, eu fiquei para ali, incapaz de reagir, expressão bacoca e olhar perdido no aquário dos crustáceos até que a voz do empregado me despertou: "Já vi que a senhora não vai comer e o senhor o que é que vai querer?". De bloco na mão, sorriso mal contido e olhar de infinito gozo, estava perfilado na minha frente aguardando a decisão. A minha vontade foi dizer-lhe também: "Vá à merda!", mas em vez disso entreguei-lhe o cardápio da ementa e pedi: "Uma dose de bacalhau com grão e meia garrafa de Borba".

( continua )
publicado por mmfmatos às 19:34
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4 comentários:
De Anónimo a 18 de Dezembro de 2005 às 17:09
Histórias que nos prendem, capacidade narrativa notável. Vou fazer uma pausa durante as Festas. Do coração desejo-te um Feliz Natal e um óptimo ano de 2006. Beijos.
lique
(http://mulher50a60.weblog.com.pt)
(mailto:alice.semaravilhas@gmail.com)
De Anónimo a 31 de Outubro de 2005 às 19:04
Mas a menina aqui tão escondidinha e não dizia que tinha aqui maravilhas para nós lermos... Aí ai ai... Esta nina... Vou voltar com mais tempo, malandra, tu não sabias que o que é bonito deve ser divulgado??? Jinhos linda...Perfect Woman
(http://perfectwoman.blogs.sapo.pt/)
(mailto:perfect_woman63@sapo.pt)
De Anónimo a 31 de Outubro de 2005 às 14:04
O senhor rssss que comentou anteriormente o José S. trouxe-me aqui e só tenho que lhe agradecer, genial simplesmente, eu apenas alterava o Borba para qualquer outra marca de vinho tambem Alentejano...mas cheio!Parabens, voltarei para as cenas do próximo capítulo. Fica bemElsita
(http://ritmos.blogs.sapo.pt)
(mailto:elsita05@sapo.pt)
De Anónimo a 30 de Outubro de 2005 às 23:34
Olá! Eu já não sei que dizer, a não ser que estas histórias me parecem tão reais que, se fosse um livro não conseguia parar de ler.
Já estou à espera da próxima.
José S.
(http://ruadobeco.blogs.sapo.pt)
(mailto:jgjs2@sapo.pt)

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