Sexta-feira, 4 de Novembro de 2005

GENTE COMO TU E EU - II, 5

5. FERNANDA

Olha quem está ali! O Senhor Fulano de Tal e aquela deve ser a mulher, afinal é muito diferente do que eu imaginava e parece bastante mais nova do que ele: "Judite, estás a ver aquele indivíduo ali ao fundo? É o tal que costuma vir comigo no autocarro, olha, olha! Ele e a mulher estão a discutir e a coisa parece que está feia porque ela levantou-se e vai-se embora, nem chegou a almoçar, deu-lhe a birra e ia levando a loiça toda atrás". A Judite abanou a cabeça e exclamou num tom de comiseração: "Ouve lá. Fernanda, onde é que tu tens vivido até agora? Algures noutro planeta porque na Terra é que não andas de certeza. Mas será que tu não vês que aquilo é arranjinho ! Cabe na cabeça de alguém pensar que aqueles dois são marido e mulher?Só na tua. Aquela é a amásia criatura! ". Será? Diverte-me pensar que o Senhor Fulano de Tal anda a enganar a mulher e se hoje vim parar ao mesmo restaurante que ele (eu nem costumo almoçar aqui) é porque algo mais do que uma simples coincidência me puxou para este lugar e logo no dia em que ele brigou com a menina, sabe-se lá se os nossos caminhos não se estarão a cruzar por qualquer desígnio do destino: "Ó Fernanda não estejas a olhar para o homem de forma tão ostensiva! Ainda vai pensar que te estás a atirar a ele", corei até à ponta dos cabelos e dei uma risadinha sobressaltada. Para disfarçar a atrapalhação, respondi como se tudo não passasse de uma brincadeira: "E se estivesse? Se o destino me trouxe até aqui, talvez haja uma razão oculta, nem tudo são coincidências nesta vida". A Judite é muito céptica e a palavra destino põe-lhe os nervos em franja: "Lá estás tu com a tua paranóia do destino, deixa de ler a página do horóscopo porque isso só te faz mal". Não tive coragem de admitir a minha inabalável crença no destino: "Parva, não vês que estou a brincar?". Ela encolheu os ombros pouco convicta, mas deu-me o benefício da dúvida: "Espero bem que sim porque se continuas a deixar as coisas entregues ao acaso, não vais chegar a lado nenhum e quando deres por isso já perdeste o combóio". Senti um arrepio porque a Judite acertou mesmo no alvo. É isso que eu sinto muitas vezes - que perdi o combóio e que estou parada num qualquer apeadeiro desconhecido sem saber que caminho tomar; procuro, procuro e não encontro saída. O ambiente lá em casa está cada vez mais insuportável; a minha mãe asfixia-me com aquele jeito muito especial que ela tem para desenvolver em mim o sentimento de culpa mal eu esboço o mais leve movimento de libertação como no fim-de-semana em que fui à Serra da Estrela. Quando regressei, no Domingo à noite, tinha à minha espera um coro de lamentações tão grande como se todas as desgraças da Humanidade tivessem desabado em casa nos três dias em que estive ausente: "Só eu sei como me vi aqui sozinha, o teu irmão não apareceu" - o Mário nunca aparece, salvo quando precisa de dinheiro - "a mulher está com uma grande gripe" - a mulher do Mário tem sempre gripes providenciais nas alturas críticas - "o teu pai esteve num desassossego que eu nem fui senhora de pregar olho e, para mais ajuda, tive uma daquelas enxaquecas como há muito tempo não tinha" - sempre desconfiei das enxaquecas da minha mãe - "quem me valeu foi a vizinha aqui do lado, criam-se os filhos e nos momentos de aflição é com os estranhos que nos vemos". Imagino os desabafos que ela terá tido com a vizinha e, embora diga a mim própria que isso pouco me incomoda, não é verdade porque apesar do esforço que faço, a opinião dos outros a meu respeito afecta-me um bocado, mesmo que se trate da vizinha ignorante e coscuvilheira que mora no andar do lado.

O Senhor Fulano de Tal continua a comer nas calmas, não parece muito preocupado com a saída intempestiva da companheira, deve ser um daqueles safados egoístas para quem os sentimentos dos outros não contam, come e bebe que nem um nababo como se estivesse no melhor dos mundos: "Fernanda, lá estás tu a olhar para o homem outra vez! Parece que te deu volta ao miolo!", desviei o olhar e concentrei-me no pudim de gelatina que o empregado acabara de pôr na minha frente: "Simples curiosidade, estava a pensar no que se terá passado para ela sair daquela maneira, será que não é mesmo mulher dele?", "Claro que não! A mulher está neste momento a tratar-lhe das camisas e a pensar no que vai fazer para o jantar e a amásia saiu toda enfurecida porque o garanhão não lhe quer pagar a viagem às Caraíbas ou qualquer outra coisa do género. Agora que já sabes tudo sobre a zanga daqueles dois, vamos pedir as bicas e a conta porque, tanto quanto eu sei, o patrão não nos dispensou da parte da tarde".

Antes de sair, ainda deitei um último olhar ao Senhor Fulano de Tal e, nesse preciso momento, ele levantou a cabeça da salada de frutas que comia vagarosamente e, por uma fracção de segundos, os nossos olhares cruzaram-se. Reconheceu-me, tenho a certeza que me reconheceu, afinal de contas todos os dias viajamos no mesmo autocarro, o contrário é que seria para admirar. O olhar dele tocou-me particularmente, será imaginação minha ou será mesmo que ele me olhou com algum interesse? Já estava no escritório, sentada à secretária, tentando concentrar-me no trabalho e aquele olhar ainda continuava encasquetado na minha cabeça: "Fernanda, Fernaaaaaaaaada!!!", "Caramba Judite, até me assustaste, estás maluca ou quê? Se o chefão te ouviu, ainda aparece por aí a perguntar se estamos no recreio", a Judite encolheu os ombros: "Se eu não te acordasse e ele te apanhasse com essa cara de sonâmbola ainda era pior, ia pensar que te meteste nos copos ou então na passa ", tive de inventar qualquer coisa para não explicar a verdadeira causa da minha abstracção: "Estava distraída a pensar no que vai lá em casa, o ambiente está cada vez mais turvo, a minha mãe cada vez mais chata e eu estou a atingir o ponto de saturação", "E muito tens tu aguentado, eu não era capaz de viver assim, ficava velha em pouco tempo, é desgastante viver num clima desses".

A Judite partilha uma casa alugada com outra rapariga e um rapaz: "Dividimos a renda da casa, mas cada um preserva a sua intimidade. O André é fotógrafo, a Susana é tradutora e eu sou empregada de escritório, um trio muito diferente, mas que vive em perfeita harmonia porque nos respeitamos mutuamente". Já trabalhávamos juntas há quase um ano quando ela me disse que o André era homossexual, temendo talvez os preconceitos que eu ainda tenho relativamente às práticas sexuais menos convencionais: "Eu sei o que vais dizer, não vale a pena discutir o assunto porque eu sei que não estás preparada para encarar com naturalidade uma orientação sexual que estás habituada a encarar como aberração". Realmente, no meu esquema mental, os homossexuais não são tidos como pessoas normais, aceito o facto com tolerância, com bonomia, sem animosidade, mas com naturalidade é que não. A Judite tem uma grande admiração pelo André porque ele é inteligente, talentoso, é um daqueles amigos que está sempre disponível quando precisam dele e, sobretudo, realça ela em tom de galhofa: "Tem um atributo muito importante que é um talento muito especial para a cozinha e uma jeiteira danada para o arranjo da casa enquanto que eu e a Susana somos umas nulidades nessas matérias", "Quer dizer que o desgraçado é a empregada lá de casa", "Aí é que tu te enganas, ele é o mestre, o monitor e nós as ajudantes que descascam as batatas, cortam as cebolas, esmagam os alhos, lavam a hortaliça, enfim, damos o nosso contributo, mas só a nível de mão-de-obra não qualificada. O André costuma dizer que nos quer bem longe das panelas porque até o nosso olhar lhe dá cabo do tempero".

Só uma coisa me surpreende, por que razão um homossexual assumido escolheu partilhar casa com duas raparigas em vez de o fazer com o seu companheiro, visto que ele tem um companheiro que o visita de vez em quando. Já fiz esta pergunta à Judite, mas ela respondeu-me com evasivas: "É um bocado complicado, por enquanto não é possível, é isso que vai acontecer mais tarde ou mais cedo, mas por enquanto não, é muito complicado, um dia explico-te". Foi tudo o que consegui saber.

( continua )
publicado por mmfmatos às 19:38
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