Sábado, 5 de Novembro de 2005

GENTE COMO TU E EU - III, 1

1. RAMIRO

Há três dias que a Zulmirinha não aparece no café do Araújo. Perguntei à Sidónia se sabia alguma coisa, mas ela respondeu-me: "Não sei nada da vida dela, eu sou muito pobrezinha, apanho as minhas trabuzanas de vez em quando, mas nunca gostei de fazer amizade com putas, se ela fala comigo eu respondo, mas nada de grandes confianças. A última vez que a vi, estava encostada à porta da retrosaria do indiano a falar sozinha". Perguntei à Silvéria, à Esmeralda, ao Gualdino e a mais uns tantos que frequentam o café do Araújo, mas ninguém lhe sabe do paradeiro o que é muito estranho porque a Zulmirinha nunca deixou de aparecer. Até quando calha arranjar algum cliente, aparece sempre, mostrando o dinheiro fresco enquanto pede uma sandes de paio e uma cerveja.

Já pensei ir bater à porta daquela espécie de casa onde ela vive. Digo espécie de casa porque é mais o que está caído do que o que está em pé. O senhorio deve estar à espera que o prédio caia de vez, de preferência com a Zulmirinha lá dentro. Os outros inquilinos já saíram todos, uns aceitaram as indemnizações, outros preferiram ser realojados num prédio lá para os lados da Buraca, mas ela teimou em ficar. É a única moradora daquele monte de ruínas e mais tarde ou mais cedo vai ter de sair nem que seja à força, um dia destes ainda lhe metem o buldózer pela casa dentro e levam tudo de reboque. A Sidónia diz que ela é teimosa que nem uma mula e que ainda acaba por ficar na rua com os tarecos todos à volta: "Aparecem aí bem cedo e enfiam-lhe a máquina pela porta dentro, apanham-na a dormir e atiram com ela pela borda fora em cima da cama e tudo, afinal do que é que a tipa está à espera? Não lhe disseram já que tem de sair?Os outros já sairam todos!Ou ela pensa que pode lá ficar para semente?E então semente daquela, abrenuncio!". Enquanto falava, a Sidónia ria toda tremeliques, torcendo e retorcendo a boca desdentada: "Não cuspas para o ar que ele pode cair-te em cima, a barracaria do pátio também está destinada a ir toda abaixo e depois sempre quero ver onde vais meter a gataria toda que tens lá em casa" respondi. Ela ferve logo quando alguém lhe fala dos gatos: "Vão comigo para onde eu for, são os melhores amigos que eu tenho e se não poder levar os meus gatos, ninguém me arranca do pátio", "Vai ser uma coisa jeitosa no dia da entrega da chave quando fores apertar a mão ao Presidente da Câmara com os gatos em fila atrás de ti, já estou a imaginar as apresentações - este é o Malhado, Sr. Presidente, este é o Pirata, este é o Bombocas, este é o Fidalgo, este é o Calaças , não te esqueças de pôr um lacinho a cada um com as cores do emblema da cidade, dá mais sainete e o Sr. Presidente fica todo satisfeito". Tudo pode servir de brincadeira e ela alinha com todo o tipo de gozação, mas toquem-lhe no assunto dos gatos e aí a mulher fica brava, grita, insulta e só não bate porque não tem tamanho para isso: "És uma grande besta, por isso a tua mulher te trocou por outro, não tens sentimentos, só não te chamo cornudo porque, apesar de seres um grande cabrão, tenho pena de ti porque eu ainda tenho os meus meninos, os meus gatinhos, os meus companheiros, mas tu não tens nada, és um ... és um ... olha és um monte de merda com pernas" e saíu porta fora fazendo gestos e arrastando os pés ao mesmo tempo que repetia: "Um monte de merda com pernas, um monte de merda com pernas". É sempre assim quando vem à baila a conversa dos gatos, quem a quiser tirar do sério é só alvitrar que lhe vão tirar os bichos. Fui até à porta e ainda lhe gritei: "Á, é assim que me tratas, sua velha maluca! Estou a avisar-te que vais ter ordem de despejo para estares preparada e ainda me tratas mal, depois vem cá ter com o Ramiro e vais ver a corrida que levas!". Ela fez um gesto com a mão de não me chateies e continuou rua acima sem sequer se virar. Amanhã vai aparecer mansa que nem um cordeiro, agarra-se ao meu braço e implora: "Miro, Mirinho, não estás zangado comigo, pois não? Eu gosto muito de ti. Ouve lá, aquilo do pátio ir abaixo é mesmo verdade?".

A Zulmirinha não voltou a aparecer. Quando as escavadoras chegaram para começarem a demolição, encontraram a porta encostada e lá dentro estava ela esticada no chão, morta há vários dias e coberta de formigas. Não, não foi suicídio, apesar de tudo a desgraçada estava agarrada à vida. A casa estava toda revolvida, alguém entrou ali para roubar, por incrível que pareça, eram só trastes velhos tão arruinados como a pobre da Zulmirinha, mas por um fiozito com uma cruz que lhe arrancou do pescoço e meia dúzia de tostões que ela costumava guardar numa caixa de lata enferrujada, deu cabo da desgraçada, é preciso estar muito desesperado para matar por tão pouco: "Foi gajo da droga, só pode ter sido, devia estar desvairado para arranjar algum para a dose do dia, eu conheço-os bem, para conseguir a dose são capazes de tudo" alvitra o Gualdino que tem um irmão toxicodependente a quem já perdeu o rasto: "Também pode ter sido algum marmanjo que ela tenha metido lá em casa" alvitra a Esmeralda: "Vou mais por aí" apoia a Silvéria estendendo o beiço com ar entendido: "Cá por mim, deve ter sido alguém a mando do dono do prédio, ela não queria sair ... já tinham ido todos embora ... estava tudo parado por causa dela ... " cochichou a Sidónia com a voz arrastada e piscando um olhinho matreiro que logo se tornou assustado quando eu a avisei: "Põe-te a deitar essas bacoradas cá para fora e ainda vais bater com os costados no xadrez, mesmo sendo uma velha tonta ainda dá para te guardarem lá durante uns três dias". Ela começou a tremelicar e arrimou-se ao meu braço como quem busca protecção: "Ó Miro, eu não estava a falar a sério, tu já sabes que eu digo estas coisas, mas não é a sério".

O corpo da Zulmirinha, ou o que restava dele, foi para o Instituto de Medicina Legal para ser autopsiado e chegarem à conclusão a que todos nós já tínhamos chegado - morte violenta. Disseram que a polícia ia investigar o caso, mas cá por mim não vão investigar nada, devem ter atirado com o processo para dentro de um daqueles ficheiros metálicos com grandes gavetões porque com tantos problemas bicudos que a polícia tem para resolver, o que representa a morte da Zulmirinha, velha, miserável, escanzelada e, ainda por cima, puta? Vai ser mais um caso sem solução.

Foi o funeral mais triste a que assisti, não quero dizer que haja funerais alegres, mas este foi particularmente triste porque lhe faltava dignidade, como se estivessem a enterrar um cão ou um gato, como se quisessem desembaraçar-se depressa de um objecto incómodo e indesejável. A Zulmirinha saiu deste mundo da mesma forma que entrou nele - incomodando os outros. Quando ela nasceu, o pai olhou-a e exclamou enraivecido: "Uma rapariga! Para que é que eu quero isto?". O irmão, único familiar que apareceu no funeral talvez por ter pensado que ela teria alguma coisa que ele pudesse herdar, mal disfarçava o ódio que lhe ia lá dentro porque afinal não havia nada para herdar e ele ainda ia ter de pagar o funeral. Enquanto o caixão descia à terra, resmungou entre dentes: "Nunca prestou para nada, nem puta soube ser, chegou a ganhar mais numa hora do que aquilo que eu ganhava num dia e ainda sou eu que vou ter de pagar aí o caixote" e apontava com o queixo o caixão que já estava lá no fundo enquanto o coveiro puxava as cordas. Antes de começarem a deitar-lhe terra para cima, virei as costas e fui-me embora. Enfiei-me no café do Araújo, convidei a Sidónia para se sentar comigo lá na mesa do fundo: "Anda daí princesa, vamos apanhar uma cardina que pago eu". Ela não se fez rogada e lá ficámos, copo a mim, copo a ti, fazendo considerações sobre a porcaria da vida que só faz sentido quando se leva com uns copos à mistura : " Olha Miro, o que é preciso é começar porque quanto mais se bebe mais apetece beber e digo-te uma coisa, quem não gosta de vinho, não gosta de Deus, por isso não se faz missa sem vinho". Com a voz cada vez mais empastada, a Sidónia citava cenas da Bíblia onde o vinho tinha sempre o seu lugar: "Nas bodas de Canã, Cristo transformou a água em vinho, vê lá se lhe deu para transformar o vinho em água! E na Última Ceia, achas que se ele desse água aos apóstolos em vez de vinho podia dizer Bebam que este é o meu sangue ? Ninguém ia acreditar, faltava a cor, mas como era vinho conseguiu enganá-los e eles beberam convencidos que estavam a beber o sangue de Cristo". Eu já estava com as ideias um tanto turvas, mas fiquei admirado com os conhecimentos que ela tinha da Bíblia: "Ó Sidónia, não te sabia tão religiosa!", ela tinha os olhos semicerrados e a língua meia entaramelada: "Não sou muito religiosa, mas tenho os santos da minha devoção e quando era garota fui obrigada a andar na catequese". Quando eu era garoto, também fui obrigado a andar na catequese e não me lembro de ter aprendido aquelas histórias da Bíblia da mesma maneira que ela, mas também não admira porque as minhas ideias já estavam demasiado toldadas para eu conseguir discorrer o que quer que fosse. A única coisa que sentia era uma tristeza muito grande porque não conseguia tirar da cabeça a imagem daquele buraco muito fundo para onde atiraram com a Zulmirinha e quanto mais eu bebia mais fundo o buraco ficava, quase prestes a engolir-me também: "Já te disse que o sacana do irmão ficou todo chateado por ter de pagar o funeral?", "Já, já disseste isso umas poucas de vezes, mas o homem até tem razão, a gaja passou a vida toda a abrir as pernas a uns e a outros e nem conseguiu deixar dinheiro para o caixão! E agora vamos lá acabar com a conversa porque eu não gosto de falar dos mortos, ela era uma grande puta, mas já lá está e que fique muito tempo sem mim. Esta vida é uma porra, mas como ninguém sabe como é a outra, deixem-me cá andar e que nunca dê a moléstia na raiz da cepa". A Sidónia levantou a garrafa e riu, riu, riu até às lágrimas.

( continua )
publicado por mmfmatos às 16:00
link do post | comentar | favorito
|
5 comentários:
De Anónimo a 11 de Novembro de 2005 às 01:55
Já pensei o mesmo que a "aldora". Na volta, temos aqui uma "famosa" a dar-nos um "ganda baile" e nós, pobres escrevinhadores, para aqui a darmos palpites... ;-)smile
(http://smils.blogs.sapo.pt)
(mailto:smilehome@sapo.pt)
De Anónimo a 9 de Novembro de 2005 às 22:06
Gosto tanto de ler estes textos, será que no fim todos compilados não há um editora que os publique? Se calhar estou a falar com um escritor farto de publicar coisas, e que se está rindo da minha sugestão, mas é verdadeiro o que penso.
Um Abraço
Aldoraaldora
(http://gatinhosvoadores.blogspot.com/)
(mailto:aldoramira@sapo.pt)
De Anónimo a 9 de Novembro de 2005 às 02:38
Estás a ver, estou exilado mas é só para a escrita. para a leitura estou presente.
Quando é que sai o próximo capítulo? Eh eh.José S.
(http://ruadobeco.blogs.sapo.pt)
(mailto:jgjs2@sapo.pt)
De Anónimo a 8 de Novembro de 2005 às 18:01
Gostei de te ler, vou esperar pelo proximo capitulo.
BeijosIsa
(http://singular.blogs.sapo.pt)
(mailto:singularidade@sapo.pt)
De Anónimo a 7 de Novembro de 2005 às 14:46
que bom, as palavras são leves, nesta historia tão pesada. parabéns, é extraordinário. sofialisboasofialisboa
(http://sofialisboa.blogs.sapo.pt/)
(mailto:sofialisboa@hotmail.com)

Comentar post

.pesquisar

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.arquivos

. Março 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

.subscrever feeds