Quinta-feira, 10 de Novembro de 2005

GENTE COMO TU E EU - III, 2

2. RAÚL

Aquele Domingo em casa dos pais da Isilda não foi melhor nem pior do que é costume. A minha cunhada estava exuberante como sempre, produzida da cabeça aos pés, como se estivesse naquele almoço, em família, apenas de passagem para qualquer outro evento social mais exigente em matéria de imagem. Não sei se ela se aprimora tanto para realçar os seus atributos de mulher vistosa ou para salientar o facto de ter arranjado um marido que ganha mais do que o marido da irmã, o qual, além de não lhe ter proporcionado os prazeres da maternidade, também não lhe pode proporcionar os prazeres de uma vida financeiramente desafogada. O meu cunhado, um alarve de punhos largos e estômago dilatado, é proprietário de um bem sucedido negócio de ferragens e não perde uma única oportunidade de realçar as suas qualidades empresariais e o papel que o sector da economia privada representa na sociedade, contrapondo-lhe sempre o parasitismo estagnador (verdadeiro cancro de uma sociedade que se quer moderna e competitiva) dos serviços prestados por aqueles que nada produzem limitando-se a roçar o rabo pelos assentos da Administração Pública. Uma estrondosa gargalhada e uma forte palmada nas minhas costas, logo seguidas da frase apaziguadora: "Ó Raúl, não quero dizer que seja o teu caso, tu se calhar até fazes parte da meia dúzia que trabalha, mas há que reconhecer que a maior parte desses gajos só lá anda a chular o dinheiro dos nossos impostos".

Além dos dichotes grosseiros do meu cunhado, aquele Domingo em família ainda me reservava outras provações que eram as investidas selváticas dos filhos dele - um fedelho com oito anos que se comporta como um tiranete chantagista, a quem o avô faz as mais incríveis cedências, e uma garota de cinco anos que passa o tempo a vestir e a despir Barbies com espampanantes roupas fluorescentes e que solta gritos estridentes à minima contrariedade. Com a total complacência dos pais, dos avós e da própria tia, tornaram-se uns pequenos monstros que saltam por cima dos sofás, arrastam e pontapeiam móveis, derrubam jarras e atacam as gavetas das guloseimas, deixando por todo o lado um rasto peganhento a que não escapam os estofos das cadeiras, os cortinados e as nossas próprias roupas. Às vezes ainda me arrisco a dizer: "Não há ninguém que saiba dar um bocado de educação a estas crianças?". Os meus sogros olham-me de esguelha e, embora não digam nada, adivinho o que estão a pensar: "Como não tens filhos teus, detestas os dos outros"; o meu cunhado não se faz rogado e atira sem contemplações: "Ouve lá pá, o que é que tu sabes de garotos?Nunca foste capaz de fazer nenhum!"; a minha cunhada puxa para ela os dois anjinhos como que a querer protegê-los do lobo mau e sentencia: "Quem não tem filhos, sabe sempre educar muito bem os filhos dos outros"; a Isilda, em vez de me dar razão, alia-se aos outros: "São crianças, não podem comportar-se como adultos, as crianças são mesmo assim".

O almoço, arroz de tamboril, estava óptimo porque a família da minha mulher é intragável, mas, em compensação, a comida lá em casa é sempre boa e, quando o tacho fumegante foi colocado no meio da mesa, os adultos, esfregando as mãos, soltaram exclamações de regozijo enquanto os garotos berravam que não gostavam de peixe , logo sossegados pela minha sogra: "A avózinha já sabe que os meus tesourinhos não gostam de peixe, mas como a avózinha é amiga, fez bife com batatas fritas para as minhas riquezas ". Os tesourinhos berraram ainda mais alto, mas desta vez de alegria, bateram palmas, entornaram a coca-cola e atiraram-se às batatas fritas, com uma voracidade canina, retirando-as da travessa à mão-cheia, suavemente repreendidos pela mãe: "Ó filhotes, mas que maneiras são essas? Vamos lá portar como deve ser. Se comerem tudo direitinho, com muito juizo, depois do almoço a mamã leva-os ao shoping e compra-lhes uma prenda, tá ... ? "

Depois do almoço, a minha sogra e a Isilda foram arrumar a cozinha, a minha cunhada esgueirou-se estrategicamente para o Centro Comercial com o pretexto de cumprir a promessa feita aos tesourinhos . Irá aparecer três horas mais tarde com outro batom para ela, com uma daquelas massas gelatinosas que é suposto ser um brinquedo, mas que só serve para o garoto arremessar de encontro às paredes ou a tudo o que lhe aparecer pela frente e com um conjunto de escova, pente e rolos para a garota arrepelar os cabelos da Barbie. Enquanto o meu sogro adormece no sofá, o meu cunhado, na sua qualidade de benfiquista, tenta espevitar-me com observações maldosas e chocarreiras sobre a trepa que o Sporting irá levar nesse dia para não perder o hábito . Noutra ocasião, estes comentários ter-me-iam acirrado os ânimos, mas desta vez só me provocaram calafrios porque me trouxeram à memória a imagem da Beatriz que eu imaginava naquele momento, sozinha no seu apartamento, cheia de ódio, magicando vinganças e gritando impropérios. Depois da cena do restaurante não voltei a falar com ela, dizendo para comigo que o tempo se encarregaria de arranjar uma solução para o nosso problema, ou antes, o problema dela porque pela parte que me toca nunca chegou a haver problema. Não tivesse ela entrado nesta crise existencial que lhe está arrasando os nervos e a nossa relação continuaria a navegar em águas mansas em vez deste turbilhão cheio de sobressaltos e de cenas patéticas. Eu bem tento, mas não consigo pensar noutra coisa e, no meio da algaraviada do meu cunhado, levantei-me abruptamente e dirigi-me para a porta com uma desculpa atabalhoada: "Vou à rua comprar tabaco". O outro deve ter pensado que aquilo era desagrado por causa dos comentários acerca do meu clube e ficou lá de boca aberta enquanto eu batia com a porta. Fui até ao fundo da rua, dobrei a esquina e distanciei-me o suficiente para me livrar de olhares e ouvidos indiscretos. Liguei para a Beatriz, mas foi em vão, ela não atendeu. Deambulei durante meia hora para acalmar aquela sensação de sufoco que me oprimia o peito tentando distrair-me com o movimento no jardinzito lá do bairro, onde os casais de namorados exibem os seus amores encavalitados uns nos outros, o que é louvável em termos de economia de espaço, dado que os bancos não abundam no jardim e sempre sobra lugar para qualquer velhote necessitado de repousar as pernas trôpegas e que não se sinta ofendido com o reboliço contorcionista de pernas, braços e bocas de um qualquer casalinho que ostenta sem pejo as suas vertigens amorosas.

Quando regressei, a cozinha já estava arrumada, o meu sogro ainda dormia, o meu cunhado de pernas esticadas e a camisa desabotoada quase até ao umbigo, deliciava-se com o Rambo III que passava na televisão pela décima ou vigésima vez e a Isilda ajudava a mãe a transportar para a sala pratos com salgados, sandes e doces que a minha sogra preparara para o lanche porque os tesourinhos quando chegassem da sua incursão ao Centro Cormecial viriam esgalgados com fome. Mal cheguei, o meu cunhado exclamou com um sorriso malicioso: "Demoraste, pá! Já estava a pensar que tinhas feito como o outro que saíu para comprar tabaco e nunca mais voltou". Fez uma pausa esperando uma reacção da minha parte que não chegou, a piada era tão estafada que nem dava para um esboço de sorriso. Seguiu-se o comentário venenoso do costume: "Tenho-te a comunicar que o Sporting já está a perder". Apeteceu-me esmurrá-lo e partir-lhe quantos dentes tinha naquela boca escancarada que ria aos solavancos, fazendo estremecer a barriga meia descomposta e atulhada de arroz de tamboril.

Quando soou a hora do lanche, pai e filhos grudaram-se na mesa atirando-se à comida com uma tal sofreguidão que faria inveja a qualquer alcateia de lobos esfaimados. A minha cunhada, mais comedida e preocupada com a linha, debicava pequenas tostas dietéticas com pedacinhos de queijo, cujo rótulo garantia terem apenas 30% de gordura. O marido teimava em meter-lhe pela boca dentro uma colherada de bolo coberto de natas e, perante a resistência dela, exclamava: "Ó mulher, come! Põe os olhos na tua irmã toda roliça, uma mulher torneada tem outro encanto" e virando-se para mim: "Que isto não te pareça mal, ó cunhado! Eu respeito a Isilda como uma irmã, nada de confusões, mas o meu forte nunca foram mulheres magras. Quando conheci a Matilde, ela era bem mais cheia, mas depois começou a dar-lhe para as dietas, deve ser para imitar essas top model mortas de fome que andam a passar modelos todas desengonçadas. Eu farto-me de lhe dizer que não há nada que chegue a uma mulher de rabo grande e com um bom par de mamas, sim porque um homem gosta de ter onde se agarrar, mas a televisão estraga tudo quando nos mete pela casa dentro aquelas escanzeladas embrulhadas em roupas que ninguém veste!". A Isilda, apesar dos elogios do cunhado, não parecia lá muito lisonjeada com as alusões às suas formas roliças porque, no fundo, sempre invejara as figuras esculturais divulgadas pelas capas das revistas e as beldades loiras que enchem os ecrãs das televisões anunciando sabonetes. Por seu lado, a Matilde também não parecia nada satisfeita com os comentários demolidores do marido sobre a esbelteza da silhueta que mantinha à custa de tantos sacrifícios e que via confrontada de forma tão negativa com a figura bojuda da irmã, mas preferiu deixar o assunto sem resposta e virar-se para a filha que tinha a boca atafulhada de pudim: "Mariana, não enchas a boca dessa maneira e já chega de doces por hoje!", "Só faltava essa! Deixa a garota comer à vontade ou também queres pô-la a dieta?", "Olha Zé Pedro, tu cala-te porque eu já não estou com paciência para te aturar, a garota já comeu demais e não quero que a minha filha se transforme num texugo sem forma nem feitio!". A garota não gostou que a mãe lhe tirasse da frente uma taça com mousse de chocolate e desatou aos berros: "Eu quero provar a mousse, eu quero provar a mousse!". O irmão deitou-lhe a língua de fora e , enquanto batia com as mãos na mesa, cantarolava: "Vais ficar uma texuga, vais uma texuga, vais ficar uma texuga ...", logo admoestado pelo pai que lhe impôs silêncio enquanto consolava a filha que continuava a berrar, já não por causa da mousse de chocolate, mas porque não queria ficar uma texuga : "É mentira fofinha, o Pedro Nuno está só a brincar contigo, a minha menina vai ser sempre muito linda, o papá é que sabe".

Restabelecida a concórdia, viveu-se um período de acalmia, conversou-se sobre umas tantas banalidades, mas quando alguém fez alusão ao Carnaval que estava próximo e a Matilde se pôs a descrever as máscaras que estava idealizando para os filhos, os ânimos voltaram a exaltar-se porque os garotos estavam em total desacordo com as opções da mãe. Esta queria o rapaz fantasiado de Pagem - como o que estava na montra da loja em frente - enquanto ele garantia que nem amarrado iria usar aquele calção tufado e os collants de maricas , afirmando peremptoriamente que ou se vestia de Batman ou não vestia máscara nenhuma . A garota tinha a máscara escolhida pelos pais desde as férias do Verão que eles passaram na Holanda, donde trouxeram um traje completo de holandesa já a pensar no Carnaval, mas a miúda não gostava do fato e muito menos das socas que lhe transtornavam o andar. Além disso, vira num dos postais que os pais trouxeram da Holanda uma velha gorda ao lado de uma vaca, com um balde de leite na mão, que estava vestida daquela maneira. Se antes já não gostava do fato, depois daquela visão campestre passou mesmo a detestá-lo e, para mais, o que ela queria era mascarar-se de princesa com uma cabeleira loira aos caracóis, diadema de pedrinhas e vestido comprido cheio de folhos, de rendas, e com mangas de balão. Assim, seguindo o exemplo do irmão, apresentou também o seu ultimato ou a roupa de princesa ou nada .

Felizmente chegou a hora de pôr termo à reunião familiar. O Domingo aproximava-se do fim e, como sempre, os meus cunhados foram os primeiros a sair. Com o pretexto de que na Segunda-feira é dia de escola e as crianças têm de ir cedo para a cama, a Matilde consegue sempre escapulir-se, deixando a mãe e a irmã a braços com as rimas de pratos e copos sujos para lavar e arrumar, já para não falar do reboliço que grassa pela casa toda - migalhas de bolo pelo chão, papéis de rebuçados espalhados por todo o lado, napperons enrodilhados, tapetes de esguelha, almofadas tombadas - marca indelével da presença destruidora dos adoráveis tesourinhos . A Isilda que na presença da irmã não tem coragem de dizer nada, assim que ela vira costas, começa logo a resmungar enquanto carrega a loiça para a cozinha esbarrando com a expressão carrancuda da minha sogra, sempre pronta a desculpar a filha mais nova porque a Matilde, coitadinha, tem muito trabalho, anda muito cansada, tem o emprego, tem os filhos, tem a casa, é certo que tem empregada, mas ela também não dá conta do recado ... . Há sempre palavras de desculpa em relação à filha preferida, à filha que lhe deu netos. À Isilda, doméstica e sem filhos, só resta limpar e arrumar o rasto de devastação deixado pelos outros. Cada Domingo em casa dos pais, torna a Isilda mais azeda, mais rancorosa e eu pressinto que grande parte desse rancor e azedume está concentrada nos meus testículos estéreis, pois tivesse eu podido engravidá-la e talvez a Matilde não gozasse de tantos privilégios e atenções no seio daquela família. O pai não é tão ostensivo na sua preferência pela filha mais nova, mas a comiseração que demonstra em relação à filha mais velha é tão humilhante e arrasadora que só contribui para lhe estimular a falta de auto estima.

No regresso a casa, apeteceu-me espicaçar-lhe o amor-próprio: "É sempre a mesma coisa com a tua irmã, come e abala, nem um prato levanta da mesa". Por incrível que pareça, a Isilda virou-se contra mim e acorreu em defesa da irmã com a mesma veemência da mãe: "A Matilde é empregada, tem os filhos, não tem a mesma disponibilidade que eu e, além disso, não me custa nada ajudar", eu voltei à carga: "Se não te custa ajudar por que é que refilas quando ela sai? Os filhos são dela, ela que limpe a porcaria que eles fazem". A resposta foi pronta e agressiva: "Como tu não tens família, não compreendes que eu tenha afeição pela minha, já que não tenho filhos, dedico-me aos sobrinhos, sempre é uma compensação e se posso ser útil, tanto melhor".

A Isilda mal-amada agarra-se desesperadamente à família (da qual pelos vistos eu não faço parte) para que esta necessite dela, cede-lhe os seus préstimos para a tornar dependente de si e, em contrapartida, essa dependência alimenta na Isilda a necessidade que ela tem de justificar a sua presença neste mundo, como se de uma missão se tratasse. Não é, contudo, uma entrega espontânea e desinteressada, é uma atitude ambígua e doentia, um dar-se toda para alimentar a sua própria existência, um abdicar da sua condição de ser autónomo para forçar a estima que não lhe oferecem voluntariamente, é a desistência de si própria para comprar o amor dos outros. Viver em função dos outros, foi a única forma que ela arranjou de ultrapassar o desamor que tem por si própria.

As divagações sobre as desventuras da minha mulher, fizeram-me esquecer as minhas próprias desventuras que não são pequenas e, só quando parei à porta de casa, realizei que no dia seguinte era Segunda-feira e que a questão inacabada com a Beatriz voltaria a atormentar-me. Deitei-me, fazendo um enorme esforço para não pensar no assunto, mas a sensação de sufoco voltara e as têmporas começaram a latejar. Tinha uma necessidade premente de descansar, mas a minha vida estava numa tal desordem que era quase de madrugada quando consegui adormecer, assolado por pensamentos alarmantes e quase desejando que, durante o sono, qualquer catástrofe se abatesse sobre o meu tecto. Mas não, o mundo não acabou, o tecto continuava no mesmo sítio e eu acordei todo amassado, como se tivesse levado uma grande tareia, os olhos papudos de mal dormido e a boca com sabor a papéis velhos. Dirigi-me para a casa de banho e tentei, debaixo do chuveiro com água bem quente, recompor a minha figura devastada.

( continua )
publicado por mmfmatos às 23:51
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2 comentários:
De Anónimo a 12 de Novembro de 2005 às 16:10
Ó vizinha, cheguei aqui por portas travessas, como costuma dizer-se, e vou voltar se me dá licença... Venha tomar um cafezinho...a sua vizinha
</a>
(mailto:nokinhas@gmail.com)
De Anónimo a 12 de Novembro de 2005 às 15:55
Uma coisa é certa: a tua escrita tem fôlego para um meio muito menos efémero que este dos blogs. Frases simples mas com humor, embora sem medo de tocar mais "pesados". Muito bem. Beijoslique
(http://mulher50a60.weblog.com.pt)
(mailto:alice.semaravilhas@gmail.com)

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