Domingo, 13 de Novembro de 2005

GENTE COMO TU E EU, III, 3

3. FERNANDA

É a primeira vez que o Sr. Fulano de Tal não abriu o seu precioso livro. Parece muito acabrunhado e, ainda por cima, de óculos escuros num dia tão pardacento. Será para esconder algum olho esmurrado? Terá sido a mulher ou a amante? Será que a menina é casada e o marido descobriu que andava a partilhar a mulher com outro? Meu Deus, já pareço a alcoviteira da minha vizinha do lado! Nem sequer sei quem era a mulher que estava com ele no restaurante. As suposições da Judite é que me induziram a pensar que se trataria da amante, mas tirando o facto de ter havido entre eles uma discussão, nada mais sei sobre aqueles dois. Provavelmente, o homem está com um conjuntivite e eu com esta encenação folhetinesca de drama passional barato. Não, conjutivite não deve ser, está com a cabeça descaída como se tivesse adormecido. Segunda hipótese: Uma noite mal dormida. Os óculos escuros destinam-se a encobrir o inchaço dos olhos e, ao mesmo tempo, pode passar pelas brasas sem dar nas vistas. Uma noite mal dormida, porquê? Preocupações familiares ou um Domingo de arromba que se prolongou pela noite fora? Caramba, lá estou eu outra vez, isto já se está a transformar numa obsessão. Com tanta gente dentro deste autocarro, por que será que só aquele indivíduo é que desperta a minha atenção? O meu horóscopo diz que esta semana vou estar sob a influência de uma forte tensão de Júpiter o que promete boas perspectivas de um relacionamento harmónico com o sexo oposto. Talvez seja esta a minha grande oportunidade, o fulano adormeceu e como estamos quase a chegar à paragem eu, gentilmente, toco-lhe no braço e acordo-o. É simples, é discreto e até pode ser que resulte. Santo Deus! A Judite tem razão, tenho de deixar de ler o horóscopo. Em todo o caso, acredite-se ou não no horóscopo, com tensão de Júpiter ou sem ela, acho que devo acordar o homem, não vá ele parar ao fim da linha sem dar por isso: "Olhe, o senhor desculpe, não é aqui que costuma sair?". Não sei se o abanão foi muito forte, mas o que é certo é que ele acordou bastante sobressaltado, devia estar mesmo pegado no sono: "Uuum! O que foi? Á, a paragem! É aqui mesmo, obrigado minha senhora, adormeci, que estupidez, nunca me tinha acontecido". Apesar da atrapalhação, tem uma voz agradável, quente, profunda. Incomoda-me um pouco a história dos óculos escuros, não poder sentir-lhe o olhar. Dizem que os olhos são o espelho da alma, não será exactamente assim porque se fosse, não haveria tanta gente atraiçoada neste mundo, mas, em todo o caso, gostaria bem de lhe sentir o olhar, mesmo com os olhos empapuçados por uma noite mal dormida. O horóscopo pode ser uma balela, uma imbecilidade, uma alienação destinada a alimentar os sonhos de seres insatisfeitos e inseguros, mas eu desejo ardentemente que o signo dele não esteja sob uma influência desarmónica de Saturno, de Urano ou de qualquer outro astro que entre em rota de colisão com o meu Júpiter.



( continua )
publicado por mmfmatos às 13:04
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1 comentário:
De Anónimo a 14 de Novembro de 2005 às 18:39
Desculpa só agora ter chegado mas como os textos eram longos guardei-os para quando tivesse mais tempo.
Apesar de não gostar de ler no monitor, fico com a vista a arder, este era o livro que eu ficaria a ler até ao fim, sem parar. Admiro muito a imaginação que é preciso para contar histórias sobre vidas das quais não sabemos nada. É preciso uma grande capacidade de raciocínio para conseguir dominar um enredo sem deixar pontas para trás. Eu sempre gostei de escrever (o que não quer dizer que o faça bem) mas tenho muita dificuldade em contar histórias na terceira pessoa. Se não forem umas recordações que tenho da infância, ou umas “tiradas” contra as medidas deste ou daquele político, se passar dois ou três dias sem ver as actualidades fico sem assunto e sem capacidade para inventar. Poderia ter estudado muito, o que não é o caso, que nunca seria um escritor. Quanto muito um jornalista (há-os por aí bem “alarves”), mas nunca saberia coordenar as ideias ao ponto de inventar e manter uma história com pés e cabeça.
É por isso que admiro quem o faz e, talvez por deficiência cultural, gosto das histórias simples, que todos nós sabemos existirem mas que nem todos estão habilitados para escrever. É uma arte como outra qualquer que tem de nascer connosco. Pode aprender-se a técnica mas o essencial tem de vir do interior. Eu e a minha filhota temos uma mente repentista, capaz de captar instantaneamente o lado cómico das coisas, mas somos incapazes de fazer uma caricatura, porque isso é uma arte e a arte não se aprende.
Vou desligar porque estou ligado à terra e tenho muito que comentar e responder noutras paragens.
Uma beijoca e cá fico à espera de outro capítulo (eh eh).
José S.
(http://ruadobeco.blogs.sapo.pt)
(mailto:jgjs2@sapo.pt)

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