Terça-feira, 15 de Novembro de 2005

GENTE COMO TU E EU - III, 4

4. RAMIRO

Cheguei a casa aos tropeções depois de ter desabafado as mágoas com a Sidónia no cafá do Araújo. Quando tentava encontrar a porta do meu quarto, dei de caras com o Licínio que me agarrou com energia e me orientou até à cama onde me deixou estatelado, com um suspiro de alívio. Ainda o ouvi dizer: "Ó homem, em que estado você vem!". Não me lembro de mais nada, mas no dia seguinte ele contou-me que felizmente estava acordado, o que foi uma sorte porque pôde evitar que eu errasse a porta e entrasse no quarto da D. Etelvina. Tentei parodiar com a situação, mas no fundo sentia-me envergonhado por ter aparecido naquela figura diante dele. Comecei por dizer umas chalaças, mas acabei por lhe contar tudo - a história da Zulmirinha, a tristeza que eu sentia por causa daquele fim tão trágico e a desolação daquele funeral. O Licínio deixou-me falar à vontade e quando acabei deu-me uma palmada no ombro e disse: "O fim é sempre triste, Ramiro, mas olhe que às vezes é mais difícil viver. Essa desgraçada já não tinha nada a esperar da vida, só sofrimento". Ele até tinha razão, mas o que eu achava mais triste era uma pessoa abalar deste mundo daquela maneira, amaldiçoada pelo irmão que até se mostrava aliviado por a ver metida naquele buraco fundo: "A história já é velha, Ramiro, quando o cão é sarnento todos lhe atiram pedras. Há pessoas que são mesmo assim e olhe que não são poucas, só estão presentes nos bons momentos, nas horas adversas calcam-nos com a bota em cima. Esse homem toda a vida deve ter sentido vergonha pelo facto da irmã ser prostituta e nunca pensou em lhe deitar a mão, mas apareceu agora na esperança de colher algum daquele que ela ganhou à custa das vergonhas que lhe fez passar, só que as contas saíram-lhe furadas. Até tem a sua piada, involuntariamente foi uma partida que a Zulmirinha pregou ao irmão".

Gostei de ouvir o Licínio. Nunca o julguei capaz de falar desta maneira, sempre o achei um rapaz frio, virado lá para as coisas da Biologia e sem interesse pelos sentimentos das pessoas. Ainda por cima, criado em Lamego e com padres na família porque a padralhada fala muito no perdão dos pecadores, mas quando se trata de pôr em prática a caridade cristã a história muda de figura. O padre lá da minha terra até se recusava a acompanhar os funerais daqueles que não morriam em estado de graça . A D. Etelvina que é boa mulher, mas cheia de preconceitos, diz que ele tinha muita razão porque quem viveu sempre de costas voltadas para Deus e morreu sem ouvir a sua palavra também não merecia ser acompanhado por um dos seus ministros na Terra . Neste aspecto, estamos sempre em desacordo porque o padre é um homem como os outros, não é Deus para poder avaliar quem é que morre em estado de graça: "Imagine, D. Etelvina, que alguém se arrepende dos pecados nos seus últimos momentos e já não está em estado de se manifestar? Quem é o padre para decidir quais são aqueles que merecem ser perdoados?", "Deus se encarregará de decidir se ele merece ou não ser perdoado, mas o sacerdote não pode adivinhar o que vai no pensamento dos outros e está no seu direito de não acompanhar aqueles que, em vida, sempre renegaram Deus e recusaram os preceitos da Igreja". Eu acredito em Deus, mas essa história de Céu e Inferno é que não se encaixa muito bem na minha maneira de ser porque, se pensarmos bem, no Inferno estamos nós enquanto andamos cá na Terra. Será que depois de andarmos por aqui a penar tanto tempo, Deus ainda tem coragem de pespegar com as nossas alminhas no Inferno? E há ainda a história do Purgatório. A minha velha costumava dizer que raro é aquele que antes de ir para o Céu não tem de passar primeiro pelas penas do Purgatório e, por isso, ela rezava tanto pelas alminhas que lá estavam.

O Licínio teve educação religiosa e tem dois tios padres, mas o estudo da Biologia deve-lhe ter dado volta ao miolo porque as ideias dele a respeito de Deus são diferentes de tudo o que tenho ouvido. O Licínio e as suas ideias andam a baralhar o esquema todo que eu tinha encaixado na mona. Aquilo que ele diz sobre as nossas origens e a criação de outros Mundos, dá que pensar, são coisas muito complicadas, era bem mais simples descender de Adão e Eva e viver num Mundo onde Deus olhasse por nós. Assim já não sei o que pensar, nem no que hei-de acreditar. A D. Etelvina põe tudo nas mãos de Deus Ele castiga quando deve e perdoa quando entende . O Licínio é de poucas falas e, em geral, não entra em discussões destas, mete-se no quarto a marrar nos livros ou então junta-se com os colegas na casa dum e doutro para prepararem os trabalhos lá do curso, mas desta vez botou cá para fora as suas ideias: "Ora, D. Etelvina, eu não sei se Deus existe ou não, mas caso exista, está acima de tudo e de todos, vela pelo equilíbrio e mantém a harmonia do Universo enquanto nós somos como formiguinhas que habitam uma parte minúscula desse Universo, o nosso planeta não é mais do que um grãozinho de areia perdido na imensidão do espaço. Somos tão pequenos que o olhar de Deus nem consegue alcançar-nos. Eu recuso-me a imaginar um Deus à nossa escala, observando tudo o que fazemos, somos demasiado insignificantes para que Ele se aperceba da nossa existência".

A D. Etelvina ficou apavorada ao ouvir tamanho desmando - um Deus que não dava conta dos nossos actos, nem atendia as nossas necessidades?! De mãos postas em direcção ao Céu, temendo talvez que ele lhe caísse em cima, exclamou vermelha de indignação: "Ó Licínio, isso é uma blasfémia! Como é que você pode dizer que Deus não nos vê? Deus está em toda a parte, vela por nós e dá conta de todas as acções que praticamos, as boas e as más, ninguém escapa à justiça divina". O Licínio alargou os braços e respondeu: "Que grande livro Ele teria de ter para registar todos os pecados da Humanidade!", "E a alma? Também não acredita na alma? Será que você é daqueles que pensam que tudo acaba com a morte e não há castigo nem recompensa?", "A morte é a passagem de um estado para outro, a matéria decompõe-se e as partículas partem para outras formas de vida, transformam-se noutros elementos da Natureza". Mas a fé da D. Etelvina não se deixa abalar: "Isso é a matéria, mas a alma, a alma é imortal e é isso que nos distingue dos outros animais", "O que nos distingue dos outros animais é o facto puramente acidental de termos evoluído de forma diferente, a alma é a invenção arrogante de quem rejeita as suas próprias origens, quer queiramos quer não, os nossos antepassados mais remotos soltavam grunhidos e andavam de quatro". Esta foi demais. De cabeça bem alçada e o dedo esticado na direcção do herege , ela exclamou: "Olhe Licínio, se você quer descender do macaco é lá consigo, que lhe faça muito bom proveito, mas eu não! Sou um ser humano criado por Deus, à sua imagem e semelhança, com as imperfeições de todo o ser humano, mas capaz de escolher entre o bem e o mal, é essa a liberdade que Deus nos deu e que muitos não sabem usar". O Licínio podia ter ficado por ali, mas não, tinha-se-lhe soltado a língua e até parecia que sentia prazer em espicaçá-la: "Ora aí está uma coisa que eu não entendo - por que razão um ser perfeito iria criar uma obra imperfeita? Só encontro uma explicação, Ele criou-nos num dia em que estava de mau humor, o que não se admite, um ser perfeito só deveria produzir obras perfeitas. Seria um sossego para nós e para Ele". Antes que ela tivesse tempo de lhe responder, levantou-se, deu-lhe uma palmadinha no braço e acrescentou: "Com esta me vou, amanhã tenho uma prova e ainda quero estudar qualquer coisa antes de me deitar, reze por mim já que eu não posso". E lá se fechou no quarto.

Numa coisa o Licínio tem razão. Se tudo foi criado por Deus, se é Ele que comanda tudo e que orienta as nossas vidas, não tem feito lá grande trabalho. Este mundo anda na maior das embrulhadas, uns fazem rebentar guerras em tudo o que é sítio, outros espalham gases para a atmosfera e envenenam rios, se Deus foi o Criador de tudo, não devia consentir que os homens destruíssem a sua obra. A Sidónia diz que é melhor eu não pensar nestas coisas porque não vou chegar a conclusão nenhuma e ainda posso dar em maluquinho: "Vai por mim Miro, não penses nessas coisas complicadas de Deus e do Mundo porque por muito que penses, nunca vais entender nada, são mistérios, homem, são mistérios, os espertos estudam, estudam, põem-se para aí com invenções de que o mundo começou assim e assado, mas bem sabem eles como é que foi!". A velha é capaz de ter razão porque as explicações do Licínio também não me convencem muito, ele fala do princípio das coisas como se tudo tivesse acontecido num grande caldeirão onde chocalhava um caldo desatinado sem forma nem sentido para, de repente, estoirar em todas as direcções espalhando e juntando poeiras ao acaso até formar este Mundo e os outros Mundos que ninguém conhece. Claro que isto é a minha maneira de falar porque o Licínio usa outros termos, emprega umas palavras que eu não consigo repetir, mas isso não quer dizer que não tenha percebido o suficiente para chegar à conclusão de que estamos perdidos e isolados na enormidade do espaço: "Ó Sidónia, tu sabias que a Terra anda a flutuar no meio de pedregulhos maiores que cidades? Se calha haver um choque ... pfuuu! Vai tudo para o maneta, acaba-se o Mundo", "Deixa lá que também não se acaba grande coisa, mas enquando dura vai-se comendo e bebendo, principalmente bebendo. A propósito de bebida, não pagas qualquer coisa aqui à tua amiga que está cheia de securas?", "Mete a boca na torneira que isso passa, "Estás a ficar muito soberbo desde que acompanhas com esse tal estudante", "Tu é que estás a ficar muito abusadora, pensas que isto é algum poço sem fundo?Nesta altura do mês, já só dá para beber fiado", "Fiado ou não, ele escorrega bem de qualquer maneira, só que a mim ninguém fia a ponta dum corno". Quando quer e quando precisa, a Sidónia consegue tocar o coração duma pessoa, dar de beber a quem tem sede é uma obra de caridade, não está escrito se é água ou vinho. Levanto o braço na direcção do balcão: "Ó Filó, serve aqui a Sidónia e põe na minha conta". Ela lançou-me um olhar que tinha tanto de agradecido como de matreiro: "Obrigada Miro, és um santo, estava tão precisada deste alento, ainda há bocado tive uma tontura que vi tudo baldeado à minha volta, faltaram-me as forças e foi a falta disto - ela batia com o dedo no copo - dizem que faz mal, mas pela parte que me toca, o que me faz mal é vê-lo longe, pode fazer mal a alguns, mas para mim é meio sustento, não há melhor vitamina", "Ó Sidónia, tu és uma velha podre de feia, mas até tens umas ideias que são de aproveitar, ali a doutora da farmácia bem pode mudar o cartaz que tem na montra, em vez do frasco das vitaminas põe lá um pipo de vinho com esta frase por baixo - Deixe as drogas dos comprimidos e meta-se nos copos que é mais saudável ". Eu ria, mas ela, pelo contrário, estava muito séria e, levantando um dedo sentenciou: "Não te vás sem resposta que o meu pai que Deus tem só foi numa vez ao médico e nunca mais lá voltou porque ele lhe receitou uns comprimidos e disse - Você vai tomar estes comprimidos, mas enquanto durar o tratamento não pode beber . O que ele havia de ter dito! O meu pai deixou lá a receita e respondeu ao médico - O Sr. Doutor vai-me desculpar, mas isso não é tratamento para um homem de trabalho, eu posso passar sem os comprimidos, mas sem a pinga é que não aguento . Nunca mais foi ao médico e morreu cheio de saúde", "Cheio de saúde, mulher? Se tivesse cheio de saúde não tinha morrido!", "Cheio de saúde, sim, meu palerma, morreu de velhice, quem em novo não vai de velho não escapa, o homem não podia ficar cá para semente, mas que foi rijo e são até chegar a sua hora, isso é que ele foi!". Não sei porquê veio-me à lembrança a Zulmirinha, tão escanzelada, com aqueles olhos esbugalhados, o queixo bicudo e a boca mirrada pela falta de alguns dentes. A Sidónia não gosta que eu fale nela: "Xô, xô! Cala essa boca, deixa os mortos descansados que eu não os quero por cá a apoquentarem-me", "Ó mulher, os mortos não fazem mal a ninguém, "Mas andar a chamar por eles, também não dá saúde nenhuma - e aponta para o copo - isto sim, isto é que dá saúde, vê lá como eu estava toda azamboada, tinha a cabeça a rodar que nem um cata-vento e assim que esta pinga abençoada escorregou cá para dentro, fiquei como nova". A Sidónia é uma velha sabida, não se importa de falar no pai, na mãe e, às vezes, até fala no defunto que lhe ia às trombas, mas quando se trata da Zulmirinha fica toda arrepiada: "Ouve lá, Sidónia, tu tens medo que a Zulmirinha te venha cá apoquentar? Andavas sempre a dizer mal dela, não é? E agora tens medo". Ela estremeceu: "Eu nunca disse mal dela, dizer a verdade não é dizer mal, ou és capaz de negar que ela foi sempre uma grande pu ... abrenuncio!Não se fala mais nela e pronto, paz à sua alma para onde quer que tenha ido".

Fazendo fé nas teorias do Licínio, os restos da Zulmirinha espalharam-se por aí, se calhar até andam por cima das nossas cabeças sem que a gente dê por isso. O monte de ossos que a pele mal segurava ficou lá no buraco escuro, mas deve realmente haver em nós qualquer coisa que se liberta dos restos condenados à podridão, faz-me bem pensar que assim seja, fazia algum sentido vir a este mundo para acabar tudo com uns palmos de terra em cima? Se fosse assim, não havia nada que me destinguisse dos rafeiros lá da rua e dos gatos da Sidónia. A D. Etelvina deve ter razão quando diz que somos um produto de Deus e se Ele nos criou é porque tem algum destino para nos dar, ninguém se dá a tanto trabalho para nada, não fazia sentido. Se virmos bem, tudo na Natureza tem a sua utilidade, o homem encarregou-se disso, ora por que razão iria Deus criar o homem se não tivesse um destino a dar-lhe? Não sei o que será, mas que Ele deve ter alguma coisa em mente, lá isso deve. É bom acreditar que assim seja porque é bastante triste não avistar mais nada para além do fim e daquele buraco escuro para onde nos atiram à pressa.



( continua )
publicado por mmfmatos às 17:59
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2 comentários:
De Anónimo a 18 de Novembro de 2005 às 00:57
Oláááá! Já cá estou outra vez mas desta nem vou elogiar porque até parece (como dizem os brasileiros) bajulação. Bom fim de semana porque se calhar amanhã (hoje) já cá não venho. Beijoka.José S.
(http://ruadobeco.blogs.sapo.pt)
(mailto:jgjs2@sapo.pt)
De Laura a 3 de Agosto de 2017 às 18:11
Quero compartilhar meu testemunho sobre como recebi meu cartão BLANK ATM que mudou minha vida hoje. Uma vez eu estava morando na rua onde as coisas eram tão difíceis para mim, mesmo para pagar minhas contas era muito difícil para mim, eu tenho que me estacionar no meu apartamento e começar a dormir na rua de Las Vegas. Eu tentei tudo que eu poderia fazer para garantir um emprego, mas tudo foi em vão. Então eu decidi navegar no meu telefone para obter emprego on-line onde recebi um anúncio em hackers anunciando um cartão de ATM em branco que pode ser usado para cortar qualquer ATM Machine em todo o mundo, nunca pensei que isso poderia ser real porque a maioria do anúncio no A internet baseia-se na fraude, então eu decidi fazer uma tentativa e olhar para onde isso me levará se ela puder mudar minha vida para sempre. Eu entrei em contato com esses hackers e eles me disseram que são da Nigéria e também têm ramificação em todo o mundo em que eles usam no desenvolvimento de ATM CARDS, isso é real e não é um golpe que me ajudou. Para cortar a história, os homens que estavam procurando também são especialistas em reparos, programação e execução de ATM, que me ensinaram várias dicas e truques sobre a invasão de uma máquina ATM com um cartão de caixa eletrônico em branco. Eu solicitei o cartão de caixa eletrônico em branco e foi entregue em mim dentro de 2 dias e eu fiz como me disseram e hoje minha vida mudou de um caminante de rua para minha casa, não há MÁQUINAS ATM Este CARTÃO ATM ATM BLANK PODE penetrar em Foi programado com várias ferramentas e software antes de ser enviado para você. Minha vida realmente mudou e eu quero compartilhar isso com o mundo, eu sei que isso é ilegal, mas também uma maneira inteligente de viver, porque o governo não pode nos ajudar, então nós temos que nos ajudar. Se você também quiser este CARTÃO BLANK ATM, eu quero que você entre em contato com o Sr. Wandy através do seu e-mail wandyhackersworld88@gmail.com

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