Sábado, 18 de Março de 2006

GENTE COMO TU E EU - IV, 6

6. RAMIRO

A Ofélia veio ter comigo, cheia de mesuras e de palavras delicodoces , aquilo que eu chamo conversa de engana tolos. Começou por falar da nossa vida passada que, na boca dela até parece que foram tempos muito felizes, era a primeira vez que lhe ouvia tal conversa. Falava com uns choramingos à mistura enquanto fungava e limpava os pingos do nariz. Não é que eu seja um sujeito desconfiado, mas também não sou tão burro que não visse logo que aquela conversa trazia água no bico e para abreviar as coisas e não dar azo a que ela me pudesse dar a volta como sempre fizera, interrompi bruscamente: "Pára lá com as lamúrias e diz ao que vieste porque eu tenho mais que fazer do que estar para aqui a ouvir a tua choradeira". Ela ganhou balanço, assuou-se ruidosamente ao lenço de papel que amachucava entre os dedos desde que começara a tentar contar-me as aflições em que se encontrava. Mais por mim do que por ela, resolvi dar-lhe uma ajuda: "Olha Ofélia, eu posso não ser muito esperto, mas dá para entender que o chulo do Octávio te deu com os penantes , andou a saltar-te para a espinha enquanto a coisa lhe deu gozo e agora que foste atirada borda fora, vens à procura do tanso a quem puseste os cornos para ver se ele cai na esparrela". Enchi o peito de ar e inchei de orgulho por poder estar ali a espezinhar a mulher que tinha atingido e rebaixado o ponto mais sensível do meu orgulho de macho. Ainda não tinha tido tempo suficiente para gozar em plenitude a vingança que o destino pusera à minha disposição quando ela, empertigando-se toda e depois de uma ruidosa assoadela, proclamou: "Estou grávida", "E o que é que eu tenho a ver com isso?" respondi todo ufano. Ela fez um compasso de espera como quem ganha balanço para uma declaração importante e, sem saber por quê, eu comecei a ficar estupidamente nervoso. Olhando-me com a soberba de outros tempos, ela exclamou: "Tem tudo a ver contigo porque a criança é tua!". Senti vontade de a esganar: "Não me venhas com essas tretas. Pai, eu! Só se for por correspondência, nem isso porque, tanto quanto me lembro, nunca te escrevi carta nenhuma. O calaceiro do Octávio deu à sola e tu agora queres um trouxa para te criar a semente que ele deixou", "Estás muito esquecido ou estás a fazer de conta que não te lembras, até parece que não te soube bem aquele encontro que tivemos há dois meses quando foste lá a casa buscar o blusão que ficou pendurado no bengaleiro um ror de tempo". Foi como se tivesse levado uma marretada na cabeça. Maldita a hora em que fui buscar o raio do blusão! Ainda tinha uma chave, entrei convencido de que a Ofélia não estava em casa, mas estava, estendida no sofá, toda perfumada e gostosona, não foi preciso muito para aqui o pató se embrulhar nas carnes voluptuosas da mulher que me traíra. Ainda por cima, o Octávio calaceiro andava ausente numas andanças por Marrocos que ele fazia de vez em quando para tratar de "negócios". A Ofélia estava carente, reduzida a uma abstinência forçada, verdadeiro suplício para uma mulher tão fogosa, e só um picha fria conseguiria resistir às investidas daqueles braços e pernas que se enroscavam à minha volta que nem um polvo. Perante a revelação que ela acabara de me fazer, ainda tentei argumentar: "Como é que tens a certeza de que o filho é meu? Pode ser do marmanjo do Octávio", "Eu sei fazer contas e, além disso, tomei sempre precauções. Só naquele dia é que não, tinha o homem fora e não estava a contar que tu me entrasses pela casa dentro ... acontece, nem pensei nas consequências, estava ali cheia de vício por uma queca , apareces tu ... quem é que se aguentava, eu sou uma mulher, não sou um saco de palha". Saco de palha é que ela não era e foi por isso que, mal dei com os olhos naquele corpo a contorcer-se na minha direcção, perdi o controle da verga e rebolei pelo chão deixando que o fogo dela me consumisse até ao tutano. E agora ali estava o resultado. Por uns momentos de prazer, tinha às costas o peso da barriga dela que não tardaria muito a crescer e a ideia que me ocorreu foi a mesma que sempre ocorre a qualquer homem nas mesmas circunstâncias - travar o crescimento daquela barriga: "Olha Ofélia, isto nunca devia ter acontecido e a vida cá para o meu lado não está fácil, o melhor é tratares já do assunto antes que a barriga comece a dar nas vistas, dinheiro para isso ainda se arranja"," O aborto, queres tu dizer?! Nem pensar! Eu quero ter este filho, já tenho trinta e dois anos e quero ser mãe. Antes nunca tinha pensado nisso e quando soube que estava grávida fiquei em pânico, mas à medida que o tempo passava a ideia começou a agradar-me, despertou qualquer coisa dentro de mim e agora este filho é tudo o que quero na vida. Aborto?! Nem penses!". A Ofélia despertava para os prazeres da maternidade. Era uma nova faceta com a qual não estava a contar e que ia baldear completamente a minha vida. No fundo, eu não era homem para fugir às minhas responsabilidades e ela sabia disso. Acabei prometendo que estaria com ela para o que desse e viesse enquanto ela me garantia que aquela criança iria mudar tudo na nossa vida. Quanto a isso, eu não tinha dúvidas, só não sabia era como iria orientar a minha vida com uma criança para sustentar e um ordenado que mal esticava até final do mês.

Embora o assunto estivesse sempre a bailar na minha cabeça, não tive coragem de contar logo à D. Etelvina, mas não me aguentei por muito tempo e, passados dois dias, lá estava eu a contar-lhe tudo sobre o encontro com a Ofélia. Ela benzeu-se umas três vezes e exclamou: "Ó homem, você não tem mesmo cabeça nenhuma! Então depois de tudo o que essa mulher lhe fez, ainda se vai embrulhar com ela?! Arranjou-a bonita, agora é que ela lhe vai sugar o dinheiro todo". No entanto, provavelmente por ter recordado a sua condição de católica praticante, apressou-se a dizer: "O problema é a criança, o inocentinho não tem culpa de nada, vocês geraram uma vida e são responsáveis por ela, vão ter de assumir o que fizeram". Eu nem me atrevi a dizer-lhe que cheguei a sugerir à Ofélia que desmanchasse o que tínhamos feito, "Bem vistas as coisas, talvez seja uma forma de você se tornar um homem mais responsável, a vinda desse anjinho talvez seja uma bênção de Deus para que você dê um rumo à sua vida". A D. Etelvina tem o condão de ver em tudo a intervenção divina e foi assim que os momentos de prazer que eu desfrutara enquanto me rebolava na carpete engalfinhado na Ofélia passaram a estar abençoados pela mão de Deus. Ele lá sabia o que estava a fazer, mas para a bênção ser completa era preciso legalizar a situação porque, dizia ela: "O anjinho tem direito a vir ao mundo no seio de uma família abençoada, vocês têm de pensar no casamento, não deixe que ele passe pela vergonha de ser filho de pais amancebados".

As coisas complicavam-se. A gravidez da Ofélia fizera com que a D. Etelvina deixasse de a ver como uma pega sem vergonha e tornara-se sua aliada, tentando empurrar-me para o clube dos homens casados. Sinceramente não me estava a imaginar como homem casado, mas à medida que ela ia falando com aquela jeiteira que tem para nos dar volta ao miolo, eu até comecei a gostar da ideia. Já me imaginava no jardim empurrando um carrinho de bebé, chefe de família, homem respeitável, até que a ideia começava a agradar-me. Não fora a chegada do Licínio e eu teria continuado completamente rendido aos prazeres da minha futura nova situação: "Ó Ramiro, aceitar o filho, se é verdade que ele é seu, é uma coisa, é a sua obrigação, mas casar só por esse motivo, aí é que eu já não estou de acordo". Bastaram estas palavras para que a minha cabeça ficasse novamente em estado de sítio, mas a D. Etelvina não deixou que a questão arrefecesse e mimou o Licínio com um olhar fuzilante: "Ó Licínio, o assunto estava bem encaminhado até você chegar, o que o Ramiro precisa é que lhe dêem bons conselhos, que você seja contra o casamento é lá consigo, mas não queira impedir que essa criança que vem a caminho tenha uma vida normal, com um pai, uma mãe e um lar. Toda a criança tem direito a crescer num ambiente saudável". Ela falou de forma tão autoritária e categórica que o Licínio não se atreveu a dizer mais nada, deu meia volta e enfiou-se no seu quarto enquanto eu ficava entregue aos conselhos da minha "professora de moral". A "ensaboadela" foi de tal maneira que, quando deitei a cabeça na almofada, já só pensava no meu futuro de pai de família e na vida que queria construir para o meu filho. Adormeci repetindo: "Meu filho, meu filho, meu filho ... ". Andei toda a noite embrulhado em sonhos confusos onde aparecia sempre afundado em fraldas e biberões enquanto a Ofélia, estendida no sofá, limava e pintava as unhas.

( continua )

publicado por mmfmatos às 19:17
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3 comentários:
De Anónimo a 24 de Março de 2006 às 17:33
Finalmente o Telescópio renasceu.
Bom fim de seman.José S.
(http://rbeco.blog.simplesnet.pt)
(mailto:jgjs2@sapo.pt)
De Rui jam a 1 de Abril de 2006 às 20:22
Vim agradecer a visita.
Gostei do teu blog. Bou voltar.
Abr
De Jofre Alves a 25 de Março de 2007 às 18:25
Vim deixar um abraço com o desejo de um bom fim-de-semana.

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