Domingo, 27 de Novembro de 2005

GENTE COMO TU E EU, III, 6

6. FERNANDA


A Judite vai dar-me uma corrida, mas não faz mal, que se lixe! Não é ela que está sempre a dizer que eu sou uma cobardolas, que dou demasiada importância à opinião dos outros? Tenho de contar a alguém senão rebento: "Judite, hoje falei com o gajo, adormeceu no autocarro e eu acordei-o", "Qual gajo? Estás a falar de quem?","O gajo do restaurante, aquele que vem todos os dias no mesmo autocarro que eu. Adormeceu e se eu não o acordasse ia até ao fim da linha. Ouvi-lhe a voz pela primeira vez, e que voz ele tem!". A Judite olhou-me muito séria: "Ó Fernanda, começo a ficar preocupada contigo. Acho bem que te atires de cabeça quando encontrares ou penses que encontraste o teu ideal, mas esse indivíduo ... eu não o conheço, mas tudo leva a crer que deve ter uma vida bem complicada, vê lá, não te metas nalguma enrascada, vai com cautela, olha que esses quarentões não são de confiança, "Ó criatura, eu só estou a dizer que ele tem uma bela voz, ainda não disse que me ia pôr debaixo do homem". A Judite abafou uma risada para não ser ouvida pelo chefão que estava do outro lado da porta: "Não disseste, mas vontade não te deve faltar e também te digo uma coisa, se o baque for muito forte vai em frente, doa a quem doer, acautela-te, mas vai em frente, se achas que vale a pena, arrisca!".

Interrompemos a conversa porque avistámos o Ribeiro da Contabilidade que, sempre que pode, esgueira-se até ao nosso gabinete para poder ver a Judite, inventando sempre qualquer pretexto idiota como procurar alguém que obviamente poderá estar em todo o lado menos aqui: "O Dr. Proença, não viram o Dr. Proença?". A Judite é um bocado cruel no modo como fala com ele: "Oiça lá, ó Ribeiro, não me diga que não sabe que o Dr. Proença foi para o Porto em serviço?". O Ribeiro ficou atrapalhado como um garoto apanhado em falta: "Não, realmente não sabia". Sem levantar a cabeça dos papéis, a Judite continuou impiedosamente: "Então sempre lhe digo que deve ser a pessoa mais mal informada desta empresa". Como ele continuava ali especado na frente dela, esperando qualquer sinal que lhe desse coragem para a convidar, sei lá, talvez para almoçar, a Judite levantou a cabeça e exclamou desabridamente: "Ó Ribeiro, vá lá para a sua secção porque se aquela porta se abre - e apontava a porta do gabinete do patrão - temos sermão e missa cantada. Já sabe que o big boss não quer reuniões na sala das secretárias, quem você procura não está cá, portanto, desande daqui para fora, desculpe lá, mas são ordens". Coitado do Ribeiro! A sua única aspiração é ter uma família, mas foi logo escolher a pessoa errada para fundar essa família pela qual ele tanto anseia. Esta fixação que ele tem pela Judite há-de acabar, tem mesmo de acabar porque, caso contrário, creio bem que ficará a vida inteira à espera e nunca vencerá aquela frustração de só ter tido uma família de empréstimo: "Coitado do Ribeiro, não devias ter sido tão agressiva, ele está mesmo caído por ti, já basta aquele complexo de nunca ter conhecido os pais", "Eu não fui agressiva, Fernanda, mais vale uma verdade dura do que uma mentira suave, eu sei que ele tem um fraco por mim e que é muito bom rapaz, mas não me desperta qualquer interesse, nunca hei-de sentir nada por ele".

Eu já lhe fiz sentir que ele devia tentar esquecer a Judite e lançar as suas vistas para outro lado e lá veio ao de cima o maldito complexo de inferioridade: "Pois é, eu não sou pretendente que lhe sirva, não tenho estatuto, não tenho antecedentes, não tenho atrás de mim uma família como as outras". Senti-me constrangida porque nunca o ouvira falar tão abertamente e porque a sua voz denunciava bem a mágoa que sentia por causa da infância que tivera: "Ó Ribeiro, não fale assim. Você tem de vencer esse complexo, tantas crianças que são criadas sem família! Pelo menos você teve uma família lá na aldeia S.O.S., não foi uma família convencional, mas não deixou de ser uma família que o ajudou a crescer de uma forma saudável. Agora há uma coisa que você tem de ultrapassar, é esse maldito complexo de rejeição", "Não é complexo de rejeição", "É sim, Ribeiro, é complexo de rejeição porque o simples facto da Judite não corresponder aos seus sentimentos, fá-lo logo imaginar que ela o recusa por causa da sua infância. Você não pode continuar com essa atitude perante a vida porque, então, cada vez que alguém lhe recusar alguma coisa, vai sentir-se sempre rejeitado". Ele abanou a cabeça obstinadamente e ripostou: "É tudo muito bonito de dizer quando se teve uma verdadeira família, você não pode compreender porque está a falar de cor, pode dizer o que quiser que não me convence". Eu bem gostaria de tê-lo convencido, mas não consegui. Apesar do panorama que lhe tracei da minha família e de ter afirmado que para ter uma família daquelas, mais valia não ter nenhuma, ele continuou inabalável nas suas convicções e até me criticou: "Não devia falar assim dos seus pais e do seu irmão, não sabe o que está a dizer". Não gostei do comentário, mas no fundo até compreendo o anseio que ele tem de construir a família que provavelmente sempre idealizou quando era criança, o anseio de ter filhos que, na escola, possam falar dos pais da mesma forma que ele ouvia aos outros garotos quando lá andava. A Judite, com o seu notável pragmatismo, afirma: "O Ribeiro pode vir a ter tudo isso, pode semear um exército de meninos por esse mundo fora, mas nunca comigo como parideira", "Nunca é uma palavra demasiado forte. Se conseguires o tal velhinho rico e tiveres a sorte de ele, ainda por cima, ter um prazo curto de validade, ficas rica e viúva em pouco tempo. Já que foste bafejada pela sorte, não te custa nada fazer uma obra de caridade e casar com o Ribeiro". A Judite pegou num pisa-papéis e simulou um gesto de arremesso na minha direcção quando se abriu a porta e o patrão saíu do seu gabinete apanhando-a de braço no ar com a bola de vidro na mão. Ele encarou-a com os meios-óculos ainda mais descaídos do que é costume e resmungou: "Isso é brincadeira ou está mesmo com instintos agressivos?". Apesar do seu habitual à-vontada, desta vez a Judite ficou mesmo atrapalhada, mas procurou disfarçar e, com um sorriso contrafeito, respondeu: "É brincadeira Sr. Dr.", "Foi o que eu imaginei. Em todo o caso, aconselho-a a guardar as brincadeiras para momentos mais oportunos e locais mais apropriados", "Com certeza Sr. Dr. " gaguejou a Judite baixando a bola assassina . Quando ele virou costas, não pude evitar uma risada divertida que contrastava com a carranca um bocado vexada da Judite: "Imagina só que o velho rico que conseguires arranjar lá no tal cruzeiro tem o humor deste e um período de duração alargado, já viste o que te espera?". Ela debruçou-se sobre o teclado do computador e embrenhou-se no trabalho com um seco vamos lá encerrar o assunto .

E ficou realmente encerrado porque quando a Judite assume aquela postura autoritária, não vale a pena insistir e, por outro lado, o meu pensamento já navegava em direcção a outras paragens, mais concretamente, em direcção ao meu sonolento companheiro de transporte que, naquele momento, deveria estar no seu local de trabalho já totalmente desperto à custa de uma bica bem forte. Tentei imaginar o que estaria fazendo, o que estaria pensando, qual o tipo de relação que o ligava à rapariga que o abandonara tão abruptamente no restaurante ... até me atrevi a imaginar que, talvez, também ele estivesse pensando em mim. Embrenhei-me numa toada quimérica, arquitectando sonhos e criando episódios romanescos que puseram a minha cabeça num turbilhão. Felizmente a manhã foi calma e o patrão teve de sair porque se ele estivesse presente, não me furtaria ao vexame de comentários desabridos perante o triste espectáculo que deveria representar a minha expressão aparvalhada, de olhar vago e ausente, totalmente desconcentrada, sem conseguir coordenar ideias nem atinar com qualquer tarefa por mais simples que fosse. O meu estado de alheamento devia ser tão ostensivo que a Judite quebrou o seu voto de silêncio e inclinou-se para mim, fazendo estalar os dedos em frente do meu nariz: "Ei, ei, acorda mulher! Regressa à Terra!". Procurei disfarçar o melhor possível para não trair os meus pensamentos, temendo cobrir-me de ridículo com as insólitas divagações que subitamente se tinham apossado de mim. Comecei a remexer nos papéis atabalhoadamente, fechei a abri gavetas à toa, folheei o mesmo arquivador três ou quatro vezes, carimbei papéis em branco, separei facturas, agrupei-as e prendi-as com clips , voltei a separá-las, voltei a agrupá-las, fazia tudo isto com um ar de espalhafatosa actividade que só a um tolo enganaria. A Judite olhava-me de soslaio e, a certa altura, não se conteve: "Ó Fernanda, tu não estás bem, pois não?" Tens passado a manhã num alvoroço, mexes em tudo e não fazes nada, pareces uma barata tonta. Vê lá se te acalmas antes que eu entre também em parafuso". Fiquei com a cara em brasa, murmurei qualquer coisa sem sentido e, para disfarçar, acabei por sair do gabinete com a desculpa mais prosaica: "Vou à casa de banho".



( continua )

publicado por mmfmatos às 12:58
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1 comentário:
De Anónimo a 29 de Novembro de 2005 às 19:28
Hoje comento aqui porque li de cima para baixo eh eh. Continuo a seguir atentamente, embora esta semana me tenha atrasado um pouco. acho que devias fazer uns comentários com este "nick" para o pessoal visitar mais este blog. Assim ninguém aqui vem. José S.
(http://ruadobeco.blogs.sapo.pt)
(mailto:jgjs2@sapo.pt)

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