Quarta-feira, 30 de Novembro de 2005

GENTE COMO TU E EU - IV, 1

1. RAÚL

Se a Beatriz não tivesse encontrado no cabeleireiro aquela colega de escola, talvez a nossa relação não tivesse descambado desta maneira, mas o facto é que encontrou e eu imagino a conversa da outra tecendo loas às maravilhas da vida familiar, ao seu casamento abençoado com os dois rebentos de sonho , frutos do amor, dois filhotes encantadores que semeavam alegria e eram o orgulho de toda a família . Não contente com a explanação do seu idílico quadro familiar, a outra atirou com a pergunta sacramental: "E tu, Beatriz, continuas solteira?", "Sim ... " respondeu a medo, levemente insegura, quase envergonhada, "Tenho alguém, mas ... por enquanto, não quero compromissos, a vida a dois é complicada". A outra ajeitou-se na cadeira e, entre as borrifadelas de laca com que o cabeleireiro lhe pulverizava a cabeça, lançou-lhe em tom quase desdenhoso: "Deixa passar o tempo e logo vês o trambolhão que apanhas, não há nada mais bonito do que a vida a dois, o casamento, os filhos, não há nada melhor, não sabes o que estás a perder, casa-te mulher, casa-te, aqui onde me vês, namorei um ano o que já estava a ser tempo demais para mim, engravidei aos vinte anos e antes da barriga começar a crescer já eu estava no altar, levei o filhote ao casamento sem ninguém saber, só eu e o maridão" exclamou, soltando risadinhas eivadas de orgulho. Enquanto o cabeleireiro foi buscar o espelho para lhe mostrar a retaguarda do penteado, ela sussurrou: "E esse alguém que tu tens é livre?" e a Beatriz gaguejou: "Não ... é ... é casado, mas está a pensar deixar a mulher, é um casamento sem futuro, completamente desgastado", "Têm filhos?" pergunta a outra, "Não, a mulher não pode","Então, se não a deixa é porque anda a encanar a perna à rã, livra-te dele e vai à procura de outro, mas despacha-te porque não há muito por onde escolher para uma mulher de trinta anos, o que é bom já está agarrado e o que resta é só refugo".

A Beatriz ficou em pânico depois daquela ida ao cabeleireiro. Subitamente, os seus trinta anos adquiriram um peso insuportável, como se só então se tivesse apercebido de que o tempo lhe fugia e foi, nesse preciso momento, que a nossa relação sem compromissos começou a ficar minada pela insatisfação. Foi como se ela tivesse acordado nesse dia e exclamasse frente ao espelho: "Meu Deus, tenho trinta anos! Estou a ficar fora de prazo". Eu a pensar que era o Semedo que lhe andava a meter coisas na cabeça e afinal tudo começou com aquela ida ao cabeleireiro: "Estás redondamente enganado, Raúl Freitas! Já há muito tempo que eu não me ando a sentir bem com esta situação, não foi o encontro no cabeleireiro, há alturas na vida em que despertamos para a realidade, em que desistimos de enganar os nossos próprios sentimentos. Eu tinha a verdade à frente dos olhos, só que não queria vê-la. Decididamente, não quero envelhecer assim, não quero continuar a ser a tua mulher das horas vagas", "Ora, Beatriz, não me venhas com letras de cançoneta barata!", "E tu, não me venhas com as tuas tiradas de intelectualoide de pacotilha, digo e repito, acabou-se a diversão, quero uma vida a sério, com casa, marido e filhos". A ideia de casamento já lhe andava a germinar na cabeça, mas o encontro com a tal colega de infância acelerou as coisas e engrossou os desejos de um lar tradicional com marido, filhos, cão, gato, pássaros e fins-de-semana em família - idas à praia nos dias quentes, deambulações pelos centros comerciais nos dias de chuva. Dei comigo a imaginar-me enchouriçado nas bichas da ponte a caminho da Costa da Caparica ou suportando heroicamente os encontrões dos magotes ululantes que invadem os centros comerciais. Se esta visão de futuro me era insuportável, havia algo bem pior, algo que me deixava paralisado de terror - haveria de chegar o momento em que a Beatriz, vendo que não conseguia engravidar, iria querer aprofundar a questão, saber por que motivo não se concretizava o seu anseio desenfreado de ser mãe e quando esse dia chegasse ... bolas! Parece que o mundo apostou desabar em cima de mim. Ela não irá acreditar que eu desconhecia a minha esterilidade. Como é possível eu explicar-lhe que andou perto de dois anos a tomar a pílula para combater os meus espermatozóides inofensivos?

A Beatriz insiste em dizer que este encontro não teve nada a ver com a sua mudança de atitude em relação a nós pois já há muito que vinha sentindo um certo desconforto e um enorme vazio na sua vida, mas eu continuo a amaldiçoar aquela ida ao cabeleireiro e a tagarelice broeira da tal colega de infância que sacudiram desastrosamente, qual sismo violento, a pacatez do meu quotidiano. Depois da última discussão que tivemos sobre o assunto e após alguns dias em que nos ignorámos mutuamente, limitando-nos ao estrito relacionamento profissional que não fosse possível evitar ou que não pudesse ser tratado por interposta pessoa, resolvi dar o primeiro passo numa tentativa desesperada de pôr fim à abstinência sexual a que estava condenado desde aquele almoço no restaurante em que a Beatriz me deixou vergonhosamente amarfanhado entre os estúpidos crustáceos e a dentuça escarninha do empregado. Aproveitei a ocasião quando a encontrei no elevador com uma rima de listagens debaixo do braço, exibindo uma expressão de sobranceiro profissionalismo que eu interpretei como um entre nós não há mais conversas . Mesmo assim, atrevi-me a dizer: "Beatriz, não podemos continuar assim, sabes bem como eu gosto de ti, vamos almoçar juntos e conversar civilizadamente sobre nós, sobre a nossa vida, sobre o nosso futuro". Até me custa a crer que tenha proferido estas palavras. Ainda não tinha tido tempo de me arrepender e já ela respondia: "Qual futuro? Há algum futuro para nós? Para ti, talvez, vives no melhor dos mundos, uma mulher em casa e outra na cama, mas para mim não, já chega, não vou continuar a comer as migalhas que caem da mesa dos outros". O elevador acabara de parar no 4º. Andar, ela avançou aconchegando as listagens como se carregasse algo de precioso e franqueou a porta com tanta determinação que eu tive de recuar para não ser empurrado. Não me atrevi a dizer mais nada e saí atrás dela acabrunhado como um cachorro a quem acabassem de dar um pontapé. Segui para o mesmo corredor, mas em sentido contrário, na direcção do meu gabinete. Entrei atirando com a porta e deixei-me cair na cadeira olhando com rancor a pilha de papéis que inundava a minha secretária. Ainda tentei pegar num papel, li duas ou três linhas, para o largar de imediato e pegar noutro que me parecera mais acessível para o estado em que se encontrava a minha cabeça. A seguir veio outro e mais outro, sem que me fosse possível organizar aquele amontoado de folhas e muito menos dar-lhe o devido andamento. Vogava eu nesta confusão de ideias e de papéis quando o Semedo entrou e, antes mesmo de ocupar o seu lugar, colocou as mãos em cima da minha secretária, inclinou-se levemente para mim e segredou: "A Beatriz acabou agora mesmo de entrar no gabinete do Rogério Marques, parece que foi ele que a chamou, quer confirmar as listagens da Informática com o trabalho que tu apresentaste, pelos vistos tem mais confiança no trabalho da menina do que no teu. Não deixa de ser chato, mas vendo as coisas pelo lado positivo pode ser vantajoso ter uma amiguinha que merece a confiança do chefe". O Semedo é daquelas que injecta o veneno para depois poder ministrar o antídoto.

Senti o sangue a fervilhar-me nas veias só de imaginar aquele sabujo de cabelo untado, com a minha Beatriz sentada na sua frente, cheio de mesuras: "Muito bem D. Beatriz, era mesmo isto que eu pretendia, fez um trabalho excelente". E a Beatriz toda dengosa exibindo para ele os sorrisos que ainda há pouco me negara e a curva apetitosa dos seios generosamente realçados por uma blusa de decote em bico que se lhe colava ao corpo como uma segunda pele. Blusa que eu lhe oferecera para deleite dos meus olhos e não para satisfazer o olhar guloso de um qualquer pindérico mascarado de executivo. Ó que ódio! Ainda se ela não tivesse vestido aquela blusa!



( continua )
publicado por mmfmatos às 22:30
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1 comentário:
De Anónimo a 2 de Dezembro de 2005 às 02:44
Olá! estou a ver que tenho de colocar um anúncio aqui, na minha rotunda, para fazer campanha pelo TELESCÓPIO, eh eh eh.José S.
(http://ruadobeco.blogs.sapo.pt)
(mailto:jgjs2@sapo.pt)

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