Domingo, 4 de Dezembro de 2005

GENTE COMO TU E EU - IV, 2

2. FERNANDA

Aquele jantar em casa da Judite foi algo de estranho e assombroso na estreiteza dos meus horizontes. Os amigos com quem ela partilha o apartamento não têm nada a ver com os modelos que eu tenho esquematizados na minha cabeça. Depois do jantar, primorosamente confeccionado pelo André, a Susana preparou o café enquanto a Judite, indiferente aos meus protestos, me estendia um copo de um qualquer digestivo que, citando as suas próprias palavras, dava uma boa disposição do caraças . Não estou habituada a beber e já estava meio estonteada com os dois copos de vinho que bebera à refeição, mas não quis dar parte de fraca. Encolhida numa ponta do sofá, beberricava pequenos goles ouvindo-os tagarelar com o maior à-vontade sobre todos os assuntos proibidos, exibindo-se com arrojo e desfaçatez na plenitude dos seus gostos exóticos. Ela tanto falava dos homens com quem se relacionara como exaltava a arrebatadora paixão que vivera com uma artista dos nossos palcos. Ele parecia mais moderado, mas à medida que a bebida lhe desaparecia do copo, a língua começou a soltar-se dando lugar a confissões despudoradas e à derrocada de todas as defesas que até aí tinham preservado a sua intimidade. Confessou abertamente não sentir a mínima atracção pelo sexo oposto. Gostava das mulheres como amigas, mas a simples ideia de ter um corpo nu de mulher deitado ao seu lado provocava-lhe náuseas. Era uma repulsa instintiva que sentia desde a mais tenra idade: "Não é que eu me lembre, mas até na teta da minha mãe me deve ter custado a mamar" ironizava enquanto a Judite o repreendia: "Não sejas parvo, os homossexuais até costumam ter uma relação muito forte com as mães e vê se te moderas porque aqui a Fernanda já está apavorada". A Susana aplaudia soltando fortes risadas que lhe sacudiam todo o corpo, um corpo robusto de ossatura larga e parco de carnes. Mais alta do que a média, ela tem a compleição de uma atleta e caminha com a postura de alguém que sabe chamar a atenção daqueles com quem se cruza. Eu começava a sentir-me desconfortável, mas tentei disfarçar, balbuciando desajeitadamente: "Pelo amor de Deus, estejam à vontade, eu não sou nenhuma ingénua!". O André olhou-me com um sorriso cáustico: "Ingénua não será, mas preconceitos não lhe devem faltar. Neste preciso momento, deve estar a pensar mas que bicha tão escabrosa! ". Acompanhei as suas gargalhadas estridentes, mais por falta de coragem e por vergonha de mostrar o quanto me sentia contrafeita e pouco à vontade do que pelo comentário em si. Tentando parecer natural e arrojada, ripostei: "Já há quem mude de sexo, quem não se sente bem dentro do corpo com que nasceu, o melhor que tem a fazer é mesmo mudar", "Mas eu lido muito bem com o sexo que tenho, só não o uso da forma dita convencional. Esses indivíduos que se fazem mutilar e se enchem de silicone, são homossexuais que não têm a coragem de se assumirem como tal, daí a necessidade de se esconderem num corpo de mulher. Transexuais, drag queens e outros trastes do género, que fauna é essa afinal?", com o copo estendido na minha direcção e os olhos semicerrados, ele afirmava: "São uns desajustados que não se conseguem definir, pensam que um bom par de mamas e uma bunda avantajada bastam para resolver o problema que têm entre as pernas, mas estão redondamente enganados porque, por muito que cortem, fica sempre por resolver a questão aqui dentro - e batia com o dedo na cabeça - se houver conflito aqui dentro, não é o bisturi que irá resolver a questão".

Involuntariamente, lembrei-me da minha mãe, há tempos, frente à televisão, enojada perante uma manifestação gay onde uma jornalista extremamente jovem fazia atabalhoadamente o relato da situação - Concentração às portas da Assembleia, homossexuais e lésbicas reclamam os mesmos direitos dos casais heterossexuais, querem ver reconhecida a união de facto, querem que lhes seja reconhecido o direito à adopção de crianças, empunham cartazes mais ou menos contundentes, é uma grande manifestação esta que se verifica hoje às portas do hemiciclo, os manifestantes não se furtam à troca de beijos e de carícias que parecem escandalizar alguns transeuntes mais conservadores - a minha mãe abana a cabeça, cruzando os braços sobre o peito: "Este mundo está perdido, aonde chegou a pouca-vergonha! Deviam trancar estes mariconsos e estas relaxadas em qualquer sítio onde não nos envergonhassem a cara!".

Deixei a casa da Judite embrulhada numa tal confusão de sentimentos que, ao enfiar a chave na fechadura da porta, só desejava refugiar-me na quietude do meu quarto para evitar recriminações e comentários do género - Acabou tarde esse jantar, já estava a ficar preocupada, havia muita gente? Essa tua colega vive sozinha? Para a próxima vê se telefonas ... . Teria de inventar qualquer coisa pois seria de todo impossível dizer-lhe - Não, a Judite não vive sozinha, partilha a casa com um rapaz que é maricas e com uma rapariga que é assim assim. De qualquer maneira, seria sempre difícil de explicar o facto da Judite viver sob o mesmo tecto com um homem que não era nem seu marido nem seu irmão. Atravessei a sala apressadamente onde se encontravam a minha mãe e a vizinha coscuvilheira, sentadas lado a lado, ambas embevecidas e absortas com as intrigas da novela. O efeito anestésico dos dramas televisivos jogou a meu favor, nenhuma delas desviou os olhos do pequeno ecrã e eu pude esgueirar-me para o quarto sem interpelações, fechando a porta atrás de mim muito de mansinho para não desafiar a sorte.

No dia seguinte, enquanto passava em revista a agenda do patrão, não consegui evitar o comentário: "Judite, nunca te sentes constrangida?", ela olhou-me de soslaio e, fazendo-se desentendida, perguntou: "Constrangida com quê?", eu continuei a custo: "Quero dizer ... com esta situação ... a conviver assim ... ". Atrapalhada e sem coragem para continuar deixei a frase em suspenso, "A conviver com uma fufa e um maricas, queres tu dizer! Se é isso que pensas por que razão não o dizes, mulher? Ficas sempre a meio de tudo!". Senti-me envergonhada com a frontalidade dela e com a minha cobardia. Gaguejei: "Não precisas de ser tão bruta, não era bem isso que eu queria dizer ... ", mas a Judite não dá tréguas: "Era sim, mas como sempre ficas nas meias-tintas, não consegues afirmar ou negar seja o que for, ficas sempre pelo talvez, mas para teu esclarecimento, a Susana não é fufa, digamos que se entrega aos prazeres da vida sem reservas, venham eles donde vierem. Como ela diz - é preciso experimentar de tudo para se saber o que é melhor . Quanto ao André, o facto de ser homossexual, não faz dele melhor ou pior como pessoa, é um homem que gosta de fornicar com outros homens, só isso. Conviver com eles é tão simples como com quaisquer outros e podes crer que é bem mais fácil coabitar com aqueles dois do que viver como tu, paredes meias com uma insuportável mãe possessiva e um pai inválido e ditador". Senti a cara em brasa. Intensionalmente ou não, a Judite tocara no meu ponto nevrálgico, viver com os meus pais era asfixiante, sentia-me tão manietada como se tivesse enfiada num colete de forças. Respondi humildemente: "Tens razão, a minha vida mete dó". A Judite deu-me um safanão: "Credo mulher! Isso é auto flagelação, não sejas tão depressiva, sai de casa e pronto!", "E vou viver para onde? Não tenho dinheiro para arranjar uma casa", "Partilha a casa com uma amiga ou um amigo, de peferência", "Eu não tenho amigos, Judite", "Não é possível, toda a gente tem amigos, quanto mais não seja dos tempos de escola", "Os meus pais nunca me deixaram levar colegas da escola para casa e muito menos ir a casa deles. A pouco e pouco, deixaram de me convidar porque os meus pais nunca me deixavam ir, nunca convivi verdadeiramente com os colegas de escola, nunca consolidei amizades. Quando a escola acabou, não ficou nada, perdi o pouco contacto que tinha com eles, nunca mais os vi", " Esses teus pais deram-te cabo da vida, foi uma castração total". Senti um arrepio, era isso mesmo, uma castração total e agora não sabia o que fazer da minha vida, sinto um vazio enorme dentro de mim, como se pairasse num mundo de nada, cada vez o sufoco é maior e todos os dias dou comigo a pensar - tenho de mudar a minha vida. " Pois é Judite, gostaria bem de mudar de vida, mas não sei como", "Corta as amarras, mulher, corta as amarras e vai em frente, não deixes que a vida te passe ao lado. O teu problema é que tens medo de arriscar, nunca tiveste namorado?", "Tive, mas um dia fugiu", "Se te parece! Assustou-se com a carga", "Ele dizia que a minha casa tinha um ambiente muito triste, muito soturno, foi-se desligando aos poucos e um dia desapareceu de vez", "Assim sem mais nem menos, sem uma explicação?", "Começou com aquelas histórias de não haver entre nós afinidade de interesses, que nos faltava aquela química indispensável num casal. Isto era o que ele dizia e aqui a trouxa sem perceber que o que ele estava era a dar o fora". A Judite lançou-me aquele olhar de comiseração que me gelava o sangue: "Pois é, esse gajo devia ser um grande traste, mas também te digo, enquanto não deixares aquela casa (e abanava a cabeça) não sei não, com o tempo ainda viras múmia". Encolhi os ombros, esboçando uma espécie de sorriso: "Deixa lá, é para não destoar dos outros dois", "Pois é, deixa-te andar, o tempo vai passando e quando deres por ela já não há remédio, um dia olhas para o espelho e não vais gostar do que vês - pele baça, pés de galinha, pescoço de peru e o pior de tudo é que serão rugas sem história porque passaste pela vida como cão por vinha vindimada".

Talvez a Judite pretendesse espicaçar-me o amor-próprio, incentivar-me para a luta, mas para alguém que nascera sob o signo da derrota, as suas palavras eram pedradas que, em vez de me espevitarem, me amarfanhavam ainda mais. Apeteceu-me ser cruel e, com um risinho mordaz, retorqui: "E tu, Judite, quais são os teus grandes objectivos? Caçar um velho rico que te possa pagar as plásticas? Há-de ser um grande consolo olhar para o espelho, sem rugas nos olhos, nem pelancas no pescoço, mas ter na frente um velho carcomido que mija fora da sanita e se peida quando tosse! E se, ainda por cima, o tal ricaço nunca te cair na rede? Vais passar o resto da tua vida partilhando aquela casa com uma machona e um maricas que te monopoliza a cozinha?".

A Judite corou até à raiz dos cabelos e só então me apercebi que, apesar de ser firme como uma rocha, ela também não era totalmente imune às fraquezas e inseguranças que assaltavam os seres pusilânimes como eu. Esta descoberta deixou-me maldosamente feliz, mas arrependi-me logo. Em mim, o arrependimento, longe de ser uma virtude, é antes um estado de espírito e daí a necessidade atávica de passar a vida a desculpar-me perante tudo e todos. Senti-me mesquinha e envergonhada. Procurando remediar a situação, tentei gracejar: "Não faças caso, tu és uma rapariga cheia de recursos e vais conseguir dar a volta por cima", "Não tenhas dúvida, eu não vou perder o meu tempo e envelhecer a ler o horóscopo, como tu, à espera que ele me anuncie a chegada do príncipe encantado que, entretanto, já se deve ter perdido numa manhã de nevoeiro", exclamou ela em tom agreste e já na posse da sua habitual segurança.



( continua )

publicado por mmfmatos às 12:06
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