Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2005

GENTE COMO TU E EU - IV, 3

3. RAMIRO

O Licínio anda muito macambúzio, quer contar aos pais os projectos que tem para o futuro, mas ainda não arranjou coragem. Eu compreendo o problema dele, por um lado não quer desiludir os pais, mas por outro também não quer desistir do sonho da sua vida e até está certo, a vida é dele não é dos pais. Um dia os velhos morrem e o Licínio lá fica em Lamego, casado com a filha do farmacêutico, de quem nunca gostou, pai de filhos que não desejou e a ensinar garotos que nem sequer estão interessados em ouvir o que ele tem para dizer. Em tempos, até eu achei que seria bom para ele ficar ao pé dos pais, constituir família e ensinar a tal Biologia na escola de Lamego, mas agora já lhe dou razão, não viemos a este mundo para viver os sonhos dos outros, não andamos cá para ter uma vida de empréstimo. Ora aí está uma coisa em que os bichos são mais espertos do que os humanos que querem os filhos atrelados a eles para a vida toda. Os bichos não, criam os filhos, ensinam-nos a caçar e largam-nos na floresta para que sigam o seu caminho. A D.Etelvina olha-me com uma tristeza que eu nunca lhe tinha visto: "Pois é, criam-se os filhos e eles debandam, nunca mais querem saber dos velhos que acabam sós e abandonados, de que serve ter filhos, afinal?", atrevi-me a perguntar: "Como o seu Armando, é isso que quer dizer?". Os olhos dela ficaram muito brilhantes e não era de alegria, pela primeira vez aquela mulher rija e autoritária deixava que lhe visse lágrimas no olhar, pela primeira vez demonstrava a mágoa e o vazio pelo filho ausente, pelos netos que mal conhecia, pela família lá longe que só se deveria lembrar dela quando metia no envelope as fotografias e a carta dizendo que estavam bem de saúde, mas todos muito ocupados, tão ocupados que não dava para " ... ir até aí como gostaríamos, a mãe compreende ... os rapazes ... o trabalho ... talvez para o ano que vem ... a mãe já sabe, se precisar de alguma coisa, é só dizer, nós cá estamos para o que for preciso ... ". Coitada da D. Etelvina! O que ela precisava era da presença deles, mas o seu Armando só deve meter o pé no avião quando tiver de vir ao funeral da mãe, fechar a porta da casa e entregar a chave ao senhorio.

Como um relâmpago, veio-me à ideia a imagem da minha própria mãe quando me dizia naquele tom magoado: "Estou para aqui abandonada, vens cá tão pouco!". E eu sempre a inventar desculpas. Afinal que moralidade tinha eu para criticar o Armando, lá longe no Canadá? Eu estava bem mais perto e deixei a minha velha à mercê da boa vontade dos vizinhos que sempre lhe chegavam qualquer coisa. Senti a garganta apertada como um novelo, uma opressão no peito e uma mágoa tão grande que quase explodi em pranto. Consegui controlar-me e, para consolar a outra, meio engasgado no meu próprio desgosto, gaguejei: "O Canadá não fica ali ao virar da esquina, é difícil, tem de compreender, veja eu aqui mais perto e era raro pôr os pés lá na terra, é assim a vida, o tempo vai passando e a gente sempre a adiar, vou amanhã, vou depois, é assim a vida". Ela olhou-me muito séria: "E agora não tem pena?", as palavras saíram-me a custo: "Tenho D. Etelvina, tenho muita pena, mas agora já não há nada a fazer, já não há remédio". O tal novelo voltou a apertar-me a garganta até que explodiu num soluço que foi quase um grito. A D. Etelvina passou-me um braço pelos ombros e sacudiu-me vigorosamente: "Então homem, o que é isso? Ó Ramiro eu nunca o vi assim, tenha calma, homem! É como você diz, a vida é assim, se adivinhássemos as coisas, não tínhamos de que nos arrepender, fazíamos tudo certo, não cometíamos erros, mas não é isso que se passa, umas vezes acertamos outras não, não podemos passar o resto da vida a carpir mágoas passadas". Voltou a sacudir-me os ombros, num gesto quase maternal: "Então, sente-se melhor? Às vezes é bom desabafar, ficamos com a alma mais limpa". Estava um bocado envergonhado, mas ao mesmo tempo sentia um certo alivio, como se tivesse há muito tempo dentro de mim qualquer coisa fermentada que me roía as entranhas e que, subitamente, saltou cá para fora, deixando-me mais leve, com a alma mais limpa, como ela disse. Respirei fundo: "Estou melhor, isto foi um desabafo, desculpe lá, não sei o que me deu". Ainda ficámos um bocado a conversar, mas nem ela falou mais do seu Armando, nem eu falei mais da minha velha. Ela tem razão, carpir mágoas passadas envenena a vida.



( continua )
publicado por mmfmatos às 19:09
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1 comentário:
De Anónimo a 7 de Dezembro de 2005 às 12:20
O Raul e a Fernanda e o dilema da sociedade moderna. O que fazer com os velhos? O que vão fazer connosco quando a velhice chegar? Se chegar! José S.
(http://ruadobeco.blogs.sapo.pt)
(mailto:jgjs2@sapo.pt)

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